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As rotinas ajudam

Experiência de vida a bordo de um navio proporciona dicas úteis para levar o confinamento a bom porto
19 de Abril de 2020 às 09:00
Mais uma semana, mais uma partilha. Neste momento, achamos que temos tanto para partilhar como as pessoas que já estão em casa fechadas há bastantes dias e que, após o deslumbramento inicial de se ter tempo para se ver todas as séries e filmes em falta, para terminar as arrumações pendentes lá em casa, experimentar todas as receitas de bolos e folares da Páscoa ou tentarem todos os jogos e atividades para distrair os miúdos, já começam a ficar sem ideias e com pouco para partilhar com os seus familiares e amigos, porque acabam por ser poucas as coisas que alteram os nossos dias…

Vamos confessar e, desta vez, falamos de ‘boca não tão cheia’. A quarentena é fácil, sim, mas reconhecemos que, 25 dias depois de largarmos da Cidade do Cabo, tendo a anterior navegação, até lá, sido de 23 dias, não esquecendo que a paragem em terra foi de pouco mais de oito horas, e que a guarnição nem um pé colocou fora do navio, apresenta os seus desafios. Estamos há 48 dias dentro do navio. O que muda ao longo dos dias? O que acontece para que os dias demorem mais a passar e as pessoas e os acontecimentos à nossa volta se tornem cada vez mais… ‘percetíveis’?

São várias as teorias e os fatores que se poderiam apontar mas, como fator principal, culpamos a mudança na perceção da passagem do tempo. Os dias começam a passar, um após o outro, e, como ainda não temos um objetivo final, uma meta, só nos podemos limitar a somá-los. A nós ajuda-nos, neste aspeto, termos rotinas e ‘tradições’ associadas a cada dia da semana, fazendo com que certos dias não nos passem despercebidos. Explicamos. Temos alvoradas, formaturas, serviços, fainas e ao domingo temos alvorada surda. A ementa das nossas refeições – na Marinha Portuguesa, não só do NRP Sagres – são um exemplo ‘tradição’ benéfica. Então, o almoço de segunda-feira tem sempre sopa de caldo-verde e um prato de bacalhau, à terça-feira o almoço é, quase sempre, sopa de canja e um prato de frango, à quinta-feira o almoço conhecido como os ‘três B’s’ inclui bife, batata frita e bolo (claro que é adaptado – tradicionalmente, é um prato de carne e ‘bolo’ é uma sobremesa doce) e o almoço de domingo tem, também, sobremesa doce. Não há quinta-feira, nem domingo, que nos passe impune…

Outra alteração é a forma como passamos a reagir perante os acontecimentos. Como não começar a dar importância a pequenos eventos do dia a dia, ou a reagir de forma diferente perante uma resposta mal compreendida ou a uma brincadeira não correspondida? O discernimento e a interpretação podem ser distorcidos pela monotonia dos nossos dias.

Nem sempre acontece, até porque a nossa experiência marinheira já nos faz estar habituados a estas circunstâncias.
Onde queremos chegar? Agora que todos nos estamos a sentir fechados, mesmo que em diferentes circunstâncias – com ou sem varanda, com ou sem filhos, com mais ou menos espaço, ou, como nós, dentro de um navio – temos de fazer um esforço por estarmos atentos e introspetivos, connosco e com os outros. Para, assim, termos consciência do que estamos a sentir e porquê, consciência de que se fossem outras as circunstâncias aquele assunto não nos aborreceria, e zelar pelo bem-estar físico e psicológico pessoal e dos que nos rodeiam. Vamos criar rotinas e lembrar que vai ficar tudo bem.
Aos que não estão em casa, porque têm trabalhado dia e noite, por nós e para todos nós, o nosso muito obrigado!
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