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As Escolhas de João Pereira Coutinho: A infeliz verdade

‘45 anos’  conta a história de um casal de meia-idade prestes a celebrar mais um aniversário de casamento.
João Pereira Coutinho 31 de Janeiro de 2016 às 15:00
O filme de Andrew Haigh é um subtil retrato de um casamento que se vê subitamente sobre gelo fino
O filme de Andrew Haigh é um subtil retrato de um casamento que se vê subitamente sobre gelo fino FOTO: D.R.

Só uma vida examinada vale a pena ser vivida. Nunca acreditei nessa célebre proclamação socrática, que resume bem a atitude da filosofia clássica sobre as virtudes do conhecimento. Se soubermos onde está a Verdade (e, já agora, o Bem e o Belo), a alma não deixará de escolher os rectos caminhos.

Infelizmente, uma visão monista como esta assenta em dois equívocos. O primeiro é acreditar que só existe uma Verdade – e que qualquer alternativa será sempre falaciosa. As experiências totalitárias do século XX mostraram bem onde nos levaram as concepções monistas em política, sob a forma de "utopias" várias.

Mas depois existe um equívoco banal, quotidiano, pessoal: nem sempre a descoberta da Verdade nos torna necessariamente felizes. Como dizia o filósofo Isaiah Berlin, será que uma pessoa que descobre a verdade sobre a sua funesta doença ficará necessariamente mais feliz por causa disso? O filme ‘45 Anos’ revisita este dilema. Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtney) estão casados há quase 45 anos. Sem descendência mas com uma vida campestre e pacata, preparam a celebração do aniversário do matrimónio. Mas eis que surge do passado de Geoff uma notícia perturbante: a sua antiga namorada, que desaparecera em acidente nos Alpes suíços, foi encontrada dentro de um bloco de gelo com as feições intactas. Meio século depois.

Uma revelação destas deixaria qualquer um mergulhado na tristeza e na melancolia. Mas o corpo assim preservado oferece-se a uma metáfora mais perturbante, que será a alavanca de todo o filme: não é apenas o corpo de Katya que permanece conservado dentro de um bloco de gelo. Aquele corpo – e aquele passado – encontra-se em igual estado dentro da memória de Geoff.

Obsessão

É o início de uma obsessão que levará Kate a querer saber mais e mais e mais – investigando a vida do companheiro como se o desconhecesse totalmente. As descobertas que emergem no processo irão alterar aqueles ‘45 Anos’ para sempre.

O filme de Andrew Haigh é um subtil retrato de um casamento que se vê subitamente sobre gelo fino. Mas é também o exemplo de como uma grande obra não necessita de grandes meios: basta que exista uma história digna do nome (e existe: foi escrita por David Constantine) – e, claro, actores de excepção capazes de habitar as amarguras e os silêncios de uma ilusão vivida a dois. No caso de ‘45 Anos’, temos Charlotte Rampling no papel de uma carreira (justamente nomeada para o Óscar de Melhor Actriz) e Tom Courtney, finalmente de volta aos ecrãs (e injustamente esquecido para o Óscar de Melhor Actor).

Ver ‘45 Anos’ é concordar com a célebre observação de Faulkner de que o passado nunca está morto; aliás, o passado nem sequer é passado. E que a Verdade, às vezes, é

a virtude de que menos precisamos para que uma vida possa ainda ser vivida.

 

Título: ‘45 anos’
Realizador:  Andrew Haigh

Interpretação: Charlotte Rampling, Tom Courtenay; Geraldine James, Dolly Wells, Richard Cunningham

Em exibição

 

 

Livraria

‘Lello’

Quando soube que a Livraria Lello ia começar a cobrar entradas (3 euros), duvidei. Fiz mal. Visito o espaço e tiro o chapéu à direcção da casa: há mais clientes (faz parte do funcionamento psicológico só dar valor ao que custa um valor) e, além disso, com a possibilidade de deduzir os 3 euros na compra de livros, as vendas aumentaram.

Local: Rua das Carmelitas 144, Porto

 

Reedições

‘Manifesto Comunista’, ‘Mein Kampf’ e ‘Livro Vermelho’

A melhor forma de desarmar o "fruto proibido" é trazê-lo para a rua e vendê-lo na mercearia respectiva. Com uma lição de aviso: as ideias têm consequências; e as más ideias tiveram consequências ruinosas.

Editora: Guerra e Paz

Autoria: Karl Marx, Friedrich Engels (‘manifesto comunista’), Mein Kampf (‘Adolf Hitler’) e Mao Tsé-Tung (‘Livro Vermelho’)

 

Cinema

‘Creed’

Sou um nostálgico: ‘Rocky’, uma colheita do ano em que eu nasci, foi um dos primeiros filmes que vi em sala (com o meu pai, um fã dos quadriláteros). Verdade que os filmes seguintes foram nulidades. Mas sabe bem assistir a ‘Creed’ – um filme que dá descanso ao ‘Garanhão Italiano’ com uma interpretação memorável de Stallone.

Realização: Ryan Coogler

Em exibição 

 

Fugir de

‘Amy’

Nunca fui consumidor de Amy Winehouse. Mas o documentário sobre a vida da cantora veio parar-me às mãos. Moral da história? Um ‘snuff film’ onde a degradação de uma mulher é mostrada sem pudor através de filmes íntimos. Disseram-me que o mesmo acontece em documentário semelhante sobre Kurt Cobain. Eis uma nova tendência do cinema documental: ser uma espécie de ‘reality show’ para abutres. 

Realização: Asif Kapadia

Em DVD

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