Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

“Ataque ao quartel foi um festival de tiros e explosões”

Em Furancungo, a 200 km de Tete, zona muito perigosa com minas nas picadas, perdi um homem numa emboscada
Manuela Guerreiro 19 de Janeiro de 2020 às 06:00

Foi na manhã de 9 de agosto de 1968 que iniciei a vida militar em Boane, vila a cerca de 30 quilómetros de Lourenço Marques (hoje Maputo), no COM (Curso de Oficiais Milicianos). Como era filho de militar a cumprir igualmente comissão em Moçambique, fui ‘apanhado’ logo que terminei o Secundário. Fiz a recruta nos seis meses seguintes, uma seca de marchas forçadas diárias e tiro, sempre de arma nas mãos para onde quer que fosse.

Fui colocado na Companhia de Caçadores 17, em Marrupa, na província de Niassa, uma zona de guerra. Depois, como alferes, comandei o destacamento em Nungo, a 30 quilómetros desta cidade, sítio calmo apesar de tudo, exceto uma mina ou outra na picada a que sempre tive a sorte de escapar. Havia uma população pacífica e diminuta: poucas dezenas de palhotas, algum gado e um posto com dois polícias. Rodeado de montes cinzentos que espreitavam por cima do verde da savana, era uma paisagem magnífica.

A comida era excelente, havia imensa caça, bifes de javali ao pequeno-almoço com ovos mexidos, um luxo! Quando me estava a habituar, rodei com o meu pelotão para Nipepe. Outro destacamento, um povoado enorme, isolamento total. A minha companhia ficou sediada em Maúa, a 120 quilómetros de distância. E foi aqui que o azar me bateu à porta.

Acidente fatal
Numa operação de rotina, o condutor perdeu o controlo da viatura (um Unimog) que se despistou, resultando na morte de um furriel e ferimentos graves em outro. Eu fiquei inconsciente e ferido, com escoriações diversas, tendo sido transferido de avião para a cidade de Vila Cabral e depois para o Hospital Militar de Nampula, onde recuperei uma semana depois. Finda a comissão nesta região, regressei a Lourenço Marques. Semanas depois fui transferido para Furancungo, uma vila a cerca de 200 quilómetros de Tete.

Esta nova companhia foi deslocada aquando da minha chegada para a Missão Nazareno, local de antigos missionários transformado em quartel razoavelmente apetrechado. Zona muito perigosa, com minas nas picadas (duas viaturas destruídas em poucos meses). Eram realizadas operações de patrulhamento semanalmente e perdi um homem numa emboscada. Atingido na axila direita, teve morte imediata. Todas as manhãs, um grupo de combate ia buscar lenha e água a um pequeno riacho a cinco quilómetros de distância e certo dia, nesse local, um soldado perdeu uma perna numa mina antipessoal. Só foi evacuado para Tete no dia seguinte, de helicóptero, tendo passado a noite em grande sofrimento.

Dias depois, o nosso quartel foi atacado de madrugada, um autêntico festival de tiros e explosões, tendo ficado um soldado gravemente ferido num braço. Findo o ataque, fizemos logo a seguir um reconhecimento e encontrámos uma granada de morteiro por explodir dentro do aquartelamento, imediatamente destruída por nós. Nos meses seguintes foram abatidos três guerrilheiros e capturadas espingardas automáticas. Mas o maior perigo eram as minas e uma delas, destruída por nós, abriu uma cratera onde cabia meia dúzia de homens!

A chegada do correio era um dia mágico e ler avidamente as cartas dos nossos familiares um momento de saudade e emoção. Já no final da comissão, o furriel Raposo, meu braço-direito, companheiro e amigo de inúmeras operações, faleceu quando a viatura em que seguia acionou uma mina anticarro. Mais uma vez tive sorte, a minha hora não chegara e nem chegou nesta guerra inútil, um pesadelo que jamais esquecerei. Terminei o meu contributo à Nação a 4 de fevereiro de 1972. Já em Lisboa, casei e concluí o curso de Medicina.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)