Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

"Até parece que querem destruir a beleza"

A propósito da exibição no Festival de Veneza do documentário ‘Valentino: The Last Emperor’, a Domingo esteve com o criador, conhecido pelo nome próprio, que disse um dia: “Segui sempre o meu caminho e o resultado é que todos agora me copiam.” Reformado aos 75 anos, o autor do ‘vermelho Valentino’ tem finalmente tempo para entregar-se ao desfrute da vida, ao seu companheiro e sócio Giancarlo Giammetti e aos seus cinco bulldogs. E só lamenta que o desejo de estar ‘in’ ou ‘out’ possa acabar com a beleza.
21 de Setembro de 2008 às 00:00
'Até parece que querem destruir a beleza'
'Até parece que querem destruir a beleza' FOTO: d.r.

Porquê a ideia de aceitar fazer um documentário sobre a conclusão da sua carreira?

Em primeiro lugar, deixe-me que lhe diga, não estava na minha ideia fazer um filme. Foi algo que surgiu depois de o realizador (Matt Tyrnauer) escrever um artigo muito bonito na revista ‘Vanity Fair’ sobre mim, a minha história e a minha vida. Foi após esse artigo, que sugeriu a ideia de fazer este filme.

E não hesitou sequer em fazê-lo?

A ideia pareceu-me boa, embora não soubesse que seria filmado a toda a hora. É claro que o documentário mostra uma parte do meu carácter que o grande-público não está habituado a ver. É que quando estou a trabalhar, concentrado na minha missão de fazer moda, rodeado de profissionais, a fazer provas e múltiplas coisas ao mesmo tempo, não posso estar a pensar na câmara. Por isso, em alguns momentos, pareço algo nervoso, um pouco duro até... Mas acabei por aceitar o resultado final. Pareceu-me justo e acertado.

O resultado é que recebeu uma ovação de pé aqui em Veneza...

Sim, é verdade, o que me tocou bastante. Se calhar achava que o filme não era suficientemente glamouroso mas depois de o ver pela segunda vez percebi que gostava dele. Não exprime apenas o meu carácter e uma vida inteira dedicada à moda mas também a parte da minha vida privada, os meus amigos e de todas as pessoas que conheci.

Podemos aqui perceber quem é realmente Valentino Garavani?

O filme mostra exactamente como sou. Se alguém me diz alguma coisa de que eu não gosto é assim que reajo; quando tenho momentos de cólera é porque é esse o meu estado de espírito; o mesmo se passa quando estou mais descontraído. Acho que é isso que se vê no filme. A verdade é que eu não liguei à presença da câmara e reagi sempre com naturalidade.

No filme é que faz roupas que as mulheres podem mesmo usar. É mesmo isso?

Sim. São roupas que as mulheres podem realmente usar e não roupas em que ficariam ridículas. É essa a diferença. Há muitos designers que querem ser intelectuais e fazem roupas que ninguém consegue usar. Só mesmo, de facto, cinco ‘fashion victims’ amigas do designer é que as passeiam quando vão a uma festa.

A verdade é que o Valentino não precisava de vender a companhia, com o seu nome, o seu estilo, a sua vida, os seus sonhos. Porque a vendeu?

Vendi a companhia mas continuo a fazer o meu espaço e o meu trabalho e ninguém se atreve a dizer-me o que quer que seja. Mantenho o meu trabalho e as minhas criações. O dinheiro nunca foi um problema, pois sempre que quis colocar um bordado de 200 mil euros num vestido pude fazê-lo. Nunca alguém interferiu no meu trabalho. Isso é fantástico, porque muitas casas de moda gostariam de ser compradas para expandir o seu mercado e abrir mais lojas em todo o Mundo.

Tem hoje algum envolvimento com a companhia?

Não. Terminei o meu envolvimento com a minha última colecção no final do mês de Janeiro.

Mas se um amigo lhe disser que não consegue viver sem as suas roupas e lhe pedir que faça uma nova colecção?

Muitas pessoas perguntam-me por que vendi a empresa. É claro que gostava de ter um outro tipo de vida profissional, poder exprimir-me noutras áreas de que gosto muito.

Quer dar algum exemplo?

Por exemplo, gostava de desenhar guarda-roupas para teatro e ballet. Vamos aguardar.

O Karl Lagerfeld diz no documentário que eram apenas os dois que contavam no mundo da moda e que os outros 'só faziam tapetes'. Pensa que é essa a forma como hoje é encarada a moda, como um produto de massas?

Do que eu tenho medo é que os criadores fiquem demasiado preocupados em vender. Assim, daqui a dez ou 15 anos será tudo Zara ou Mango. Isto não pode ser o futuro da moda! Quem quiser vender muito e ganhar dinheiro terá de vender muito barato. Às vezes até conseguem criar roupa bonita, só que os materiais têm de ser de fraca qualidade. É uma pena, porque o Mundo também está cheio de mulheres que têm dinheiro para roupas mais sofisticadas.

É curioso que diga isso, porque o Valentino é citado no livro de Roberto Saviano, ‘Gomorra’ (o filme homónimo estreia nesta semana), no qual faz referência a trabalhadores muito mal pagos que fazem roupas altamente sofisticadas no Sul de Itália, ao serviço da Mafia. Quer comentar esta afirmação?

Olhe, não sei nem quero saber o que se passa.

Como vê então a beleza hoje?

É uma pena o que se passa com o conceito de beleza, porque parece que querem destruir a beleza. Os olhos dos seres humanos querem ver a beleza? Sim ou não? Queremos destruí-la só porque desejamos estar ‘in’ ou ‘cool’...?

Pensa que a marca Valentino vai manter o mesmo prestígio sem a sua gestão?

Eu espero que a senhora que está à frente da companhia [Alessandra Facchinetti] seja inteligente e mantenha o meu nome ao nível do estatuto que criei. Penso que o meu nome continuará a ser uma referência à frente da companhia e continuará a vender.

Qual foi para si o momento mais alto e o mais baixo da sua vida?

Muitas vezes me perguntam se mudaria alguma coisa na minha vida se recomeçasse tudo. E eu digo sempre que nada mudaria. Tive e tenho uma vida muito feliz. Honra seja feita ao Sr. Giammetti, que me permitiu sempre trabalhar sem problemas. Sempre trabalhei com serenidade, sem stress, sem constrangimentos de dinheiro. Fui sempre conhecido como um costureiro calmo no ‘backstage’, que permitia que as meninas desfilassem sem nervosismo.

É importante para si ter o reconhecimento do público, com o seu aplauso, para o sucesso e para a sua veia criativa?

Sim, claro que é importante. Se for ao meu arquivo verá mais de 400 mil artigos publicados sobre mim, sendo que a maioria é muito favorável.

Sente-se, portanto, um homem realizado?

Devo dizer que gostei muito da minha carreira e tenho a sorte de ser ainda hoje considerado como um designer que gosta, de facto, que as mulheres se sintam bonitas.

Como descreveria hoje a sua vida?

A minha vida é a de alguém que ao fim do dia já não quer ouvir falar de roupa. A minha vida privada é outra coisa. Tenho os meus amigos, os meus cães, gosto de visitar cidades, de ir a museus, de ler, gosto de passear e das minhas casas. Gosto também de convidar as pessoas e de as tratar bem. Digo que sou um bom designer mas também um bom anfitrião.

Realmente, os seus cães têm uma grande presença neste documentário. Fazem também parte da sua vida, não é?

Sim, gosto muito deles. São muito divertidos e inteligentes. Têm uma certa honra. Sempre tive cães e seguem-me para todo o lado. Tornaram-se também em grandes estrelas.

Quais foram, na sua opinião, as mulheres, em especial as actrizes, que mais gostou de vestir com as suas criações?

Foram tantas as estrelas de cinema que vesti que a minha memória não me permitiria enumerá-las. No entanto, tenho de ser muito sincero ao referir uma actriz que me deixou muito feliz, até porque escolheu um vestido vintage. Foi precisamente o vestido que a Julia Roberts usou quando recebeu o seu Óscar pelo filme ‘Erin Brokovich’. Esse foi, para mim, um momento muito importante. Não estava em Los Angeles na altura mas vi a cerimónia pela televisão. Foi uma forma de mostrar como as mulheres, actrizes e estrelas de cinema gostam da minha roupa. Isso é muito importante para mim.

Qual é, para si, o mais acabado conceito da beleza?

A beleza é um conceito muito difícil de definir, pois não se trata apenas de beleza física. Para mim, é também o movimento. Eu habituei-me a vestir também mulheres que, não sendo belas, tinham algo que as tornava bonitas. Sabiam usar um vestido e dar-lhe muita elegância. É claro que para ser elegante, hoje, é necessário ter um pouco de ‘savoir faire’, pois é algo que não se deve acentuar em demasia.

Pensa que com o seu afastamento a moda perderá o seu mito?

O mundo da moda é muito particular e eu estive envolvido nele durante tempo suficiente para perceber que esse mundo tem ainda imenso interesse. Em todas as ‘passerelles’, as primeiras filas estão sempre cheias de pessoas com muito interesse. Trata-se afinal de um mundo de sonho, de grande beleza, que poucos podem suportar. De qualquer forma, penso que a alta-moda jamais morrerá porque é como uma bela canção, que tem sempre as suas rimas.

SOMBRA DO GUERREIRO

Giancarlo Giammetti é o sócio e companheiro de Valentino. É quem melhor conhece o estilista e não se escusou a falar sobre ele à Domingo.

Diga-nos algo sobre Valentino que não saibamos.

É um ‘control freak’, quer controlar tudo o que tenha o seu nome. Mas confia em tudo o que eu faça. É um homem feliz, gosta dos amigos.

A vida dele mudou assim tanto, uma vez que já não está naquela posição de imperador?

Ele será sempre um grande imperador. E eu serei a sombra do guerreiro. Um imperador é um imperador, mesmo sem império. Só abrimos um novo capítulo na nossa vida. Com maior liberdade.

Qual é o segredo da vossa tão longa união?

Respeitamo-nos muito, apesar de termos personalidades bem distintas.

De onde vem a tonalidade do famoso ‘vermelho Valentino’?

Era uma fascinação que ele tinha pelos maços de Marlboro. É esse vermelho.

Ver comentários