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Basílio Horta: Para todas as latitudes

Presidente de Sintra após ser deputado do PS, o ex-CDS a quem Marcelo chamou “Sancho Pança” foi acusado de ser fascista
Leonardo Ralha 3 de Setembro de 2017 às 15:00

Acácio Barreiros não sabia que tanto ele como Basílio Horta viriam a ser eleitos em listas do PS quando, em 1976, o deputado da UDP contestou a validade do mandato parlamentar do atual presidente da Câmara de Sintra, lendo notícias de 1969 para o acusar de ser dirigente da União Nacional, "com altas responsabilidades no regime fascista". O líder do CDS, Freitas do Amaral, defendeu o colega de bancada, realçando que a UDP apoiava Otelo Saraiva de Carvalho, "instrutor da Legião Portuguesa".

O fim do Estado Novo levou o jurista Basílio Adolfo Horta da Franca, nascido a 16 de novembro de 1943, em plena II Guerra Mundial, à fundação do CDS. Ser do partido mais à direita entre os que não foram ilegalizados no PREC fez com que fosse sequestrado no primeiro congresso, no Palácio de Cristal do Porto, e eleito para a Assembleia Constituinte, encarregue de redigir a Constituição da República Portuguesa. Os centristas votaram contra o texto final, devido ao seu caráter socialista, mas o contributo do ex-magistrado foi elogiado por um futuro Presidente da República. "Basílio era o Sancho Pança, um indivíduo do pragmatismo", disse Marcelo Rebelo de Sousa, deixando a Amaro da Costa o papel de D. Quixote.

RUMO AO SOCIALISMO
Mário Soares também não sabia, na tomada de posse do II Governo Constitucional, que o seu ministro do Comércio - Basílio Horta foi um dos três centristas a ter pastas na ‘geringonça’ PS-CDS de 1978 - quase o levaria a perder as estribeiras. Foi nas presidenciais de 1991, que reelegeram o fundador do PS com apoio tácito de Cavaco Silva. E oposição aguerrida do ex-ministro da Aliança Democrática, tal como o meio-irmão, Bayão Horta. Basílio tratou Soares por "padrinho", referindo-se aos seus amigos de Macau, e chegou perto dos 700 mil votos. No fim do debate na RTP, o adversário comparou-o com Freitas do Amaral - "não tive, infelizmente, à minha frente um homem com a mesma qualidade", disse - e os dois homens cortaram relações.

Não para sempre. Em 2013, Soares foi o número 1 da comissão de honra da candidatura de Basílio Horta à Câmara de Sintra, depois de o ter confortado no funeral da filha mais velha, morta num acidente de viação, em 2008. O segundo concelho com mais habitantes foi o culminar do rumo ao socialismo de quem ainda hoje não é militante, mas em 2011 foi cabeça de lista do PS por Leiria e presidiu o AICEP, organismo para a atração de investimento estrangeiro, por indicação de José Sócrates.

A deriva para a esquerda teve início em 2001, devido à falta de apoio da direção de Paulo Portas a uma segunda candidatura presidencial, contra Jorge Sampaio em busca de reeleição. "Fez o tirocínio e viu-se sozinho. A ferida nunca sarou", diz quem há muito conhece aquele a quem chamam o autarca mais rico de Portugal, com 5,6 milhões de euros no banco em 2012. "Herdei, ganhei e poupei", justifica.
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