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Boccaccio: sátira erótica faz parte do humanismo

O ‘Decameron’ é um clássico da literatura universal.
João Pedro Ferreira 24 de Novembro de 2019 às 13:00

Giovanni Boccaccio (1313-1375) foi um poeta e escritor do início do Renascimento, considerado um dos mais importantes autores humanistas e um dos ‘pais’ da língua italiana. A sua obra mais célebre é o ‘Decameron’, cem narrativas contadas ao longo de dez dias por sete raparigas e três rapazes, retirados no campo para fugirem à Peste Negra que assolou Florença em 1348.

As histórias oscilam entre o cómico e o trágico, muitas delas aliando a sátira ao erotismo, com diálogos realistas entre personagens representativas da sociedade do tempo. O livro, escrito originalmente na língua local da Toscânia (centro de Itália), é hoje um clássico da literatura universal.

Natural da república de Florença, Boccaccio acompanhou o pai quando este foi nomeado responsável pelo banco dos Bardi em Nápoles, na corte de Roberto I da Sicília. Não mostrou interesse pelo trabalho no banco nem pelo Direito, mas na universidade napolitana ligou-se aos humanistas e dedicou-se à poesia.

Em 1336 escreveu ‘Filocolo’, o primeiro romance em italiano em prosa. Voltou a Florença em 1340 e realizou missões diplomáticas ao serviço da cidade, nomeadamente junto do papa. Data dessa época ‘O Filostrato’ e, em 1361, escreveu ‘Mulheres Famosas’. Depois de rever o ‘Decameron’, em 1371, foi tomado por forte zelo religioso e chegou a receber ordens menores. Quando morreu deixou a sua rica biblioteca aos frades do convento do Santo Spirito, em Florença, onde ainda se encontra.

Do livro ‘Decameron’, trad. Urbano Tavares Rodrigues, ed. Círculo de Leitores

Há males que vêm por bem
"(…) Voltando pois para junto do fogão, onde deixara Rinaldo sozinho, disse a viúva, deitando-lhe olhares amorosos:

- Porque estais tão pensativo, Rinaldo? (...) Quero dizer-vos uma coisa. Quando vos vi com esse trajo que pertenceu ao meu defunto marido, pareceu-me vê-lo a ele e já tive mais de cem vezes vontade de vos abraçar e de vos beijar. E decerto o teria feito se não receasse desagradar-vos.

Ouvindo estas palavras e vendo o brilho do olhar da dama, Rinaldo, que não era parvo, avançou para ela de braços abertos.

- Senhora, disse ele, quando penso na má situação de que me tiraste, quando penso que vos devo a vida, creio que seria da minha parte grande vilania não me apressar a cumprir todos os vossos desejos. Não hesiteis pois em abraçar-me e beijar-me, que eu abraço-vos e beijo-vos também com a maior alegria.

Não precisou de dizer mais nada. A viúva, que ardia toda em amorosos anseios, logo se lhe lançou nos braços. E depois de o ter abraçado e beijado mais de mil vezes, ambos se levantaram e se dirigiram para o quarto. Deitaram-se sem demora e antes de o dia nascer satisfizeram por mais de uma vez os seus desejos."

Boca beijada renova-se como a Lua
(…) Quando finalmente os convivas se retiraram, Pericon seguiu a princesa até ao quarto, e Alatiel, mais aquecida pelo vinho do que protegida pela honestidade, despiu-se e meteu-se na cama, tudo isto na presença de Pericon, sem a menor vergonha e como se este fosse uma das suas aias. O fidalgo seguiu-a sem tardar, apagou a luz e logo se deitou a seu lado, tomando-a nos braços, sem que a jovem lhe opusesse a menor resistência, antes começando amorosamente a gemer.

Alatiel, que ignorava como os homens procediam com as mulheres, quase se arrependeu de não ter acedido há mais tempo aos desejos de Pericon, e, sem esperar ser convidada para esses doces passatempos noturnos, era ela, muitas vezes, que se oferecia, não por palavras, visto que não sabia fazer-se compreender, mas por gestos. (…)"

De qualquer maneira
"(…) Peronella, como que para vigiar o trabalho, meteu a cabeça na abertura do tonel, que era bastante estreita e também o braço até ao ombro. E dizia:

- Raspa aqui, e ali. Atenção, olha que acolá não ficou bem raspado. Assim ela estava, dando conselhos e guiando o trabalho.

Ora nessa manhã, Giannel não satisfizera os seus desejos antes de o marido chegar. Vendo que seria difícil conseguir satisfazê-los, aproveitou a ocasião que a Fortuna lhe dava. Encostando-se à mulher que obstruía inteiramente a abertura do tonel, levou a bom termo o seu juvenil desejo, tal como se pode ver, nas vastas planícies, os garanhões abrasados de amor assaltarem as éguas partas. Mais ou menos na altura em que teve plena satisfação, tudo estava limpo. Largou então a mulher, que levantou a cabeça, e o marido saiu do tonel. (…)"

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