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“Bombardeamentos pareciam não ter fim...dia e noite”

Disseram-nos que uma companhia que não tivesse três mortos não era uma brava companhia. Tivemos cinco feridos.
Magali Pinto 5 de Janeiro de 2020 às 13:00

Assentei praça no dia 18 de janeiro de 1972. A recruta durou até março do mesmo ano. Nessa altura tirei a especialidade de artilharia pesada, no quartel de Penafiel. Foram quatro meses de curso, longe dos meus pais e dos meus irmãos que ficaram em São Martinho de Mouros, Resende. Naqueles meses todos que passaram apenas visitei a minha família duas vezes. O dinheiro era muito pouco, mas as saudades eram muitas.

Uma das grandes aventuras da minha vida começou precisamente a 26 de junho de 1972. Embarquei desde Lisboa até à Guiné, integrado num grupo de 160 homens. Era a companhia ‘Serrotes de Fulacunda’. Era uma da tarde quando chegámos. Nove horas depois já estávamos noutro sítio. De barco, seguimos para Bolama onde nos especializámos durante um mês e voltámos a Fulacunda, até 25 de abril de 1974.

Quis o destino que a poucos dias de regressar a casa se desse a revolução dos cravos, o que fez prolongar a nossa missão. Ficámos até agosto. Noites de intensos bombardeamentos que não tinham fim. Estávamos em constante vigilância. Tínhamos abrigos debaixo de terra e em valas, sempre de olhos abertos. Protegíamos as costas uns dos outros, mas os tiros vinham de todos os lados. Afinal, estávamos numa guerra. Andávamos a pé, a correr, de vala em vala. Pensava no meu pai e nas minhas irmãs. Pensava em sobreviver, em voltar a vê-los. Eu escapei aos tiros, mas nem todos conseguiram. Ao todo cinco feridos, cinco baixas, cinco camaradas que tiveram de receber assistência médica. Tinham sido atingidos, mas sobreviveram. Regressaram a casa. Tinham de regressar. Os ferimentos eram graves. Não tinham conseguido escapar aos tiroteios constantes.

"Temos feridos a tiro"
Num dos Natais - foram dois - que ali passámos, recebemos a visita do general António de Spínola. O objetivo era incentivar o contingente e perguntar quantas baixas tínhamos no nosso grupo. O nosso alferes Mouzinha Serrote [e, por isso, é que éramos os Serrotes de Fulacunda] disse: "Temos feridos a tiro." E a resposta foi imediata - toda a companhia que não tivesse pelo menos três mortos não era uma brava companhia.

Os nossos camaradas feridos tiveram de ser transferidos para Portugal. Foram 26 meses de missão para quem aguentou dias e noites de alerta. Corríamos risco de vida todos os dias. Não sabíamos se iríamos sobreviver ou morrer. O dia quando começava era uma incógnita. A luta para chegar vivo à noite era intensa. Mas a maioria aguentou. O calor era algo fora do normal. Tínhamos tardes em que estávamos ali debaixo de 45 graus. Não estávamos habituados àquela temperatura. Em Portugal era e é diferente. O corpo não estava habituado. Mas, ainda assim, ali andávamos no mato com poucas comunicações. Tínhamos apenas duas estações. Ainda hoje penso como superámos tudo aquilo.

A comida não era abundante e o esforço era ao minuto, ao segundo. Os momentos de lazer eram poucos e era aí que passávamos com aqueles com quem nos dávamos melhor. Era a nossa forma de esquecer que estávamos em guerra. Mas depois vestíamos a farda, metíamos a metralhadora às costas e voltávamos à nossa realidade. Noites passadas em claro, mas quando regressámos, em agosto, foi com um sentimento de dever cumprido.

Ainda hoje, tantos anos depois sinto isso. Ninguém foi por gosto, ninguém queria a guerra, mas conseguimos que a nossa companhia sobrevivesse.

Todos chegámos vivos para contar a história. Em agosto de 1974 terminava a missão e o embarque para Lisboa foi emocionante. Demos o nosso melhor. Regressámos a casa.

Nome
Joaquim vieira pinto

Comissão
Guiné (1972/74)

Força
‘Serrotes de Fulacunda’

* Info
Tem 68 anos. É casado e Tem dois filhos. Foi emigrante na Suíça.

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