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Cancioneiros medievais: sátiras eróticas

Sexo é tema de poemas em Portugal e na Galiza desde o século XII
João Pedro Ferreira 19 de Janeiro de 2020 às 06:00

A poesia trovadoresca galego-portuguesa faz parte da nossa cultura desde o início da nacionalidade, com destaque para o conteúdo erótico das cantigas de escárnio e maldizer (ver ‘Domingo’, 7 de julho de 2019).

Estudos de história literária confirmam a riqueza e a diversidade desses textos, revelando autores que assim podem ser resgatados de um injusto esquecimento a que estavam votados desde há séculos. É o caso dos trovadores cujas obras são apresentadas nestas páginas: João Soares Coelho, de Cinfães (c. 1211-1278 ou 79), era descendente de Egas Moniz, o célebre aio de D. Afonso Henriques.

Este trovador é dos poucos cuja biografia é relativamente bem conhecida, tendo sido estudado pelo historiador José Mattoso. Esteve ao serviço do conde de Serpa, irmão de D. Sancho II e, mais tarde, de D. Afonso III. O seu neto Estêvão Peres Coelho também foi trovador. Duas filhas suas foram mortas pelos maridos por ‘mau preço’, isto é, por adultério.

João Garcia de Guilhade, cavaleiro de Guilhade (Barcelos), viveu no século XIII, tendo frequentado a corte de D. Afonso III.

O galego Pero da Ponte frequentou a corte de Afonso X de Castela (rei de 1252 a 1284). Autor de sátiras contra os homossexuais, narra na cantiga ‘Eu digo mal, como homem fodilhão’ o episódio em que foi alvo de uma tentativa de violação.

João Vasques de Talaveira (Talavera de la Reina, Toledo) terá feito parte do círculo de trovadores da corte de Afonso X.

Do livro ‘Poemas Eróticos dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses’, organização e tradução Victor Correia, ed. Guerra & Paz

João Garcia de Guilhade
"Elvira Lopes, muito mal sabeis
acautelar-vos com esse vilão
que convosco dorme, com intenção
de vos roubar, e vós não entendeis;
receio que se convosco estiver
algum dia sozinho e vos foder,
essa traição provar não podereis. 

(...) Eu vos aviso como ficareis
com esse vilão que trazeis assi
convosco, dormindo aqui e ali:
se com ele mais vezes dormireis,
esse vilão, se vontade tiver
de foder, foder-vos-á, se quiser,
e o que era vosso nunca mais tereis. 

Dele direis: – Fodeu-me este vilão!
Mas ele dirá: – Oh mulher, eu não!
E com que provas o acusareis?" 

João Soares Coelho
"Maria do Grave, grave é saber
porque vos chamam Maria do Grave,
dado que não sois grave no foder,
mas conseguir foder convosco é grave;
quero com conhecimento dizer,
apesar de eu pouco letrado ser,
que é difícil explicar este grave.

No entanto eu sei bem trovar e ler,
por isso quero explicar esse grave:
não sois grave no dinheiro a querer
pla vossa cona, mas fazeis-vos grave
pra quem gostar muito de vos foder;
por essa razão se deve entender
porque vos chamam Maria do Grave.

E dado que já expliquei esse grave,
tenho-me agora por bom trovador;
e bem vos juro, por Nosso Senhor,
que nunca eu encontrei mulher tão grave
como Maria – eu mesmo já provei –
do grave; e nunca uma mulher achei
que para foder me fosse tão grave."

Pero da Ponte
"Eu digo mal, como homem fodilhão,
o mais que posso sobre estes fodidos,
contra eles trovando e seus maridos;
um dele me deixou em grande espanto:
topou comigo e arregaçando o manto
quis em mim espetar o caralhão.

Ando fazendo versos e canções,
o mais que posso, e ando escarnecendo
dos invertidos que se andam fodendo;
um deles que de noite me espreitou,
quis dar-me do caralho, mas errou,
ao lançar-me por trás os seus colhões." 

João Vasques de Talaveira
"Maria Leve, onde se confessava,
eu vos direi o que manifestava:
– Já sou velha, ai capelão!
Não sei de pecadora mais burguesa
do que eu; mas vede o que ora mais me pesa:
– Já sou velha, ai capelão! 

Sempre pequei desde que fui fodida,
mas eu vos direi porque estou perdida:
– Já sou velha, ai capelão!"

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