Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

Charles Bukowski: sexo, álcool e decadência

Anti-heróis a caírem de bêbedos acabam por fazer má figura na cama
João Pedro Ferreira 14 de Julho de 2019 às 01:30

Henry Charles Bukowski (1920-1994) é considerado um dos escritores mais influentes para os saudosistas da cultura ‘underground’ dos anos 60 e 70.

Nasceu na Alemanha, filho de um sargento do exército americano, mas foi muito pequeno para a Califórnia. A infância na zona sul de Los Angeles deixou marcas: em casa, o pai dava-lhe grandes tareias; na escola, os miúdos faziam-lhe a vida negra por causa do sotaque alemão.

A experiência de vítima de ‘bullying’ veio a ser tão útil para o futuro escritor como o álcool: o jovem Ham, como então lhe chamavam, começou a apanhar bebedeiras mal chegou à adolescência. Aos 24 anos publicou o primeiro conto e, já na década de 1950, arranjou emprego nos Correios. Ao longo dos anos 60 publicou várias antologias poéticas e livros de contos.

Em 1971, já depois de ter deixado o trabalho nos Correios para se dedicar exclusivamente à literatura, lançou o seu primeiro romance: ‘Correios’. Morreu de leucemia em 1994.

Entre as suas obras mais conhecidas contam-se ‘Mulheres’, ‘Hollywood’, ‘Música para Aguardente’ ou ‘Pulp’. ‘Contos da Loucura Normal’ e ‘Factotum’ foram adaptados ao cinema, tendo também escrito o argumento de ‘Barfly’.

Muitos dos seus livros têm como protagonista Hank Chinaski, que encarna as ‘virtudes’ do anti-herói bukowskiano: bêbedo decadente, calaceiro, abusador e abusado, antissocial com tiques de anarca.

Mulherengo, volta e meia tem surpresas desagradáveis na cama – o álcool sabota-lhe as performances.

Do livro ‘Música para Aguardente’, trad. Rita Carvalho e Guerra, ed. Antígona

"(...) a mulher dele correu para nós, agarrou-se a mim e começou a beijar-me. Eu não sabia o que fazer. Tentei afastá-la, mas não consegui. A boca dela estava na minha (…). Comecei a ficar com tesão, não consegui evitar. A cara dela não é grande coisa, mas tem umas belas pernas e um grande cu e estava com o vestido mais justo possível. Sabia a cebolas cozidas e a língua era gorda e cheia de saliva, mas (...) quando lhe levantei o vestido, vi-lhe o saiote cor de sangue e fiquei mesmo a arder (…).

Atirei-a para cima do sofá e depressa começámos, o Al estava de pé ao nosso lado e respirava pesadamente. Viemo-nos juntos, um verdadeiro trio, depois levantei-me (...). Quando saí estavam os dois sentados no sofá a ver um jogo de futebol americano. (...) Ela entrou no elevador e a porta fechou-se (…). Tinha um traseiro grande e uma constituição forte; os seios e o tronco pareciam estar a travar uma luta para se libertarem daquele vestido amarelo. (…) Os lábios grossos, pintados, eram obscenos, quase feios, um insulto.

O batom vermelho-vivo brilhou e Harry esticou a mão e carregou no botão de EMERGÊNCIA. Resultou, o elevador parou. Harry avançou na direção dela. Com uma mão levantou-lhe a saia e ficou a olhar para as suas pernas. Ela tinha umas pernas inacreditáveis, todas elas músculo e carne. Parecia em estado de choque, paralisada. Ele agarrou-a ao mesmo tempo que ela deixava cair o saco de compras. (...) Ele estendeu o braço e levantou-lhe a saia.

Manteve a boca na dela e tirou-lhe as cuecas. Depois, de pé, possuiu-a, fodendo-a com força contra a parede do elevador. Quando acabou, fechou as calças, carregou no botão para o terceiro andar e esperou, de costas viradas para ela. Quando a porta se abriu, ele saiu. Depois a porta fechou-se e o elevador foi-se embora.

(...) Levantei-lhe o vestido e comecei a beijar-lhe as pernas. Comecei pelos joelhos. Cheguei ao interior da coxa e ela abriu-se para mim. Mordi-a com força e ela saltou e peidou-se.

- Oh, desculpa.

- Não faz mal – disse eu. Arranjei-lhe outra bebida, acendi um dos cigarros do meu pai falecido (…). Subi para a cama. Ouvi a Maria a tirar os sapatos, a roupa, e depois senti-a na cama ao meu lado. (…) Eu tinha bebido vinho a mais. Montei-a. Agitei-me e agitei-me. Estava sempre à beira mas não conseguia lá chegar. Estava a dar-lhe uma longa, suada e interminável foda. A cama chocalhava e abanava (…). A Maria gemia. Eu beijava-a e beijava-a. A boca dela abria-se em busca de ar.

- Meu Deus – dizia ela – estás-me MESMO a foder!

Eu só queria terminar, mas o vinho tinha entorpecido o mecanismo. Por fim, rolei de cima dela. (...) Começámos a beijar-nos
e voltámos ao início. Montei-a uma vez mais. Desta feita senti o clímax a chegar
lentamente.

- Oh – disse eu – oh, Cristo!

Conseguira, por fim. (...) Ela estava quase a dormir. - Meu Deus – disse ela -, fodeste-me mesmo!

Adormecemos."

Bono, U2 e ‘Dirty Day’
A canção, do álbum ‘Zooropa’, tem um verso que é o título de um livro de poesia de Bukowski. Bono canta: ‘The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills’.

Modelo de Tom Waits
Logo na primeira frase da sua autobiografia, o cantautor norte-americano diz que quer ser para a escrita de canções o que Bukowski foi para a poesia.

Banda desenhada

Robert Crumb, o ‘pai’ de Fritz the Cat e de Mr. Natural, ícones da cultura ‘underground’ dos anos 60 e 70 do século XX, ilustrou vários livros de Bukowski.

Loucura normal
Ornella Muti e Ben Gazzara protagonizam ‘Contos da Loucura Normal’, realizado por Marco Ferreri em 1981, com base no livro de Charles Bukowski.

Quase autobiográfico
Bukowski escreveu o argumento semiautobiográfico de ‘Barfly – Amor Marginal’, realizado por Barbet Schroeder, com Mickey Rourke e Faye Dunaway.

Até os zombies...
No quinto episódio da 3ª temporada de ‘Fear the Walking Dead’, uma das personagens diz a frase: "Todos
os artistas têm uma fase Bukowski".

Ver comentários