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Como se faz um bom vilão

Joker é talvez o maior vilão de todos os tempos, pelo menos em popularidade.
Fernanda Cachão 19 de Janeiro de 2020 às 12:16

"O perfeito vilão" pode dar pela segunda vez o Oscar ao ator que o interpreta: o primeiro foi atribuído em 2009 a Heath Ledger, pelo seu trabalho no filme de Christopher Nolan, e agora, na edição deste ano, a Joaquin Phoenix, pela interpretação maníaca na fábula cinematográfica de Todd Phillips que conta como Arthur Fleck, um homem com um problema neurológico que o faz soltar gargalhadas a despropósito, se transforma no terrível Joker, personagem maléfica que ensombrará para sempre a vida de Bruce Wayne, ou seja, Batman.

Jorge Coelho é um dos autores portugueses de BD mais internacionais; em 20 anos de carreira teve encomendas das editoras norte-americanas Marvel, Boom Studios e Image. Autor em álbuns e séries como ‘John Flood’, ‘Rocket Racoon’, ‘Robocop’, ‘Haunted Mansion’ ou ‘Polarity’, atualmente subsiste apenas da banda desenhada e o seu currículo tem, é claro, uma boa quota de vilões. Sobre a personagem criada em 1940, Jorge Coelho não tem dúvidas: "É o perfeito vilão do Batman, a sua antítese, aquele que não acredita em nada, sorrindo enquanto comete as maiores barbaridades, pois é perito em manipulação" e terror em Gotham City. Jorge Coelho destaca ainda o visual "vincado, colorido e aliciante, o oposto do herói circunspecto e monocromático" Batman, o homem-morcego.

Além do criador, Bob Kane, Jorge Coelho destaca da lista de desenhadores que deram vida ao vilão José Garcia Lopez, "que foi talvez o artista mais influente no estilo visual de toda a editora DC Comics, com a sua arte elegante e muito bem construída", Neal Adams porque trouxe "um visual mais realista, negro e dinâmico" e ainda Brian Bolland e Dave McKean, respetivamente nos álbuns ‘The Killing Joke’ e ‘Arkham Asylum’.

Influências marcantes no trabalho do português - a quem, em 2019, a 30ª edição do Festival de Banda Desenhada da Amadora dedicou uma retrospetiva - são "as   melhores histórias dos anos 80 e 90" de Batman. "A morte do Robin (o parceiro do super-herói) em ‘Batman: A Death in the Family’, de Jim Starlin e Jim Aparo (história em que os fãs podiam escolher se o jovem herói morria ou sobrevivia à tortura de Joker) teve em mim bastante impacto, pois foi um momento dramático exemplificativo da crueldade" deste vilão da banda desenhada norte-americana.

"Não sei ao certo quantos vilões já desenhei ; pessoalmente, acredito que um bom vilão terá de nos deixar inquietos, ansiosos e alerta, de demonstrar que é capaz de fazer o impensável em proveito próprio, mas terá também de ter algo de humano para que seja possível identificarmo-nos minimamente com ele", explica o desenhador português que agora trabalha fora da sua zona de conforto, na adaptação de um clássico da literatura para banda desenhada, que será lançado nos EUA em fascículos e, mais tarde, no exterior, em ‘graphic novel’.

A luta por Joker
O homem-morcego foi dado à estampa no número 27, do mês de maio de 1939, da ‘Detective Comics’ - a história chamava-se ‘The Case of the Chemical Syndicate’ e era a resposta ao sucesso da personagem de Jerry Siegel e Joe Shuster, Super-Homem (‘Superman’). Bob Kane (1915-1998) tinha sido desafiado pelos editores da National Publications (hoje DC Comics) a criar outro super-herói que cumprisse a proeza que mais lhes interessava - igualar o Super-Homem em vendas da revista. Reza a história que o desenhador Bob Kane e o escritor Bill Finger criaram o homem-morcego num único fim de semana. No filme de Tim Burton, estreado em 1989, no qual o Joker é interpretado por Jack Nicholson, um dos primeiros desenhos de Batman feitos por Kane é mostrado numa das cenas pelo Comissário Gordon.

Batman não tinha os poderes do Super-Homem, mas tinha um carro com circuito fechado de televisão em que podia vigiar o crime e uma caverna à época ‘high-tech’, além de ser dono de uma extraordinária agilidade e capacidade física - perfil que ajudou a fundar a época de ouro dos ‘comics’ com personagens que ainda hoje sobrevivem ao tempo.

Joker apareceu pela primeira vez em 1940 e estava destinado a morrer no final da história, mas foi salvo por um editor que viu naquela personagem atípica a oportunidade de um novo vilão, premonição que o tempo confirmou. O palhaço haveria ainda de se encontrar muitas vezes ao longo dos anos com o homem-morcego, em confrontos limpos em que o virtuoso ganhava ao vilão mas ambos sobreviviam para garantir outra história. Menos limpa é a história da autoria da personagem Joker.

Jerry Robinson tinha 17 anos quando chegou à equipa de Kane, que acabava de estrear Batman. Segundo contou, Kane ficou surpreendido com o casaco do adolescente, coberto de desenhos que Robinson anunciou serem de sua autoria, e ter-lhe-á oferecido emprego.

Jerry Robinson tornou-se fundamental na equipa e é também dele a personagem Robin, o parceiro de Batman (‘Detective Comics’ #38, de abril de 1940). Já a sua contribuição para a criação do arqui-inimigo, nunca foi pacífica. Bob Kane, que morreu em 1998, aos 83 anos, reclamou exclusivamente para si e para Finger a autoria de Joker, mas ao ‘The New York Times’, a propósito do livro ‘Jerry Robinson: Ambassador of Comics’, já depois da morte de Kane, em 2010, Robinson afirma que participou e recorda inclusivamente o processo criativo que deu nome ao vilão: "Pensei na carta do baralho."

Só a terrível gargalhada sobreviveu aos anos e à criatividade dos autores que depois desenharam e de alguma forma recriaram a aparência do palhaço maléfico. Para a posteridade fica a justa observação daquele que nunca ganhou dividendo algum com Joker, Robinson, mas que continuava a gostar de personagens que se destacassem pelas suas contradições - "Os vilões são sempre mais interessantes."

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