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Comunicar à distância em tempo de covid-19

Tímidos podem ganhar terreno, mas aqueles que já invadiam o espaço dos outros não mudam
Marta Martins Silva 10 de Maio de 2020 às 06:00

Num dia estávamos a conviver à volta de mesas cheias de gente, no outro a comunicar com amigos e familiares através do ecrã do telemóvel. O mesmo aconteceu, para muitas pessoas, em contexto profissional: as salas de reuniões foram substituídas pelos programas e aplicações informáticas, os colegas e os chefes passaram a ser quadradinhos no computador e o trabalho passou a ser discutido de outra forma (mesmo que haja murros na mesa ou confrontos mais acesos, o ecrã oferece, pelo menos, uma sensação de proteção física, o que os mais sensíveis agradecem).

Recentemente, circularam dois vídeos na internet que mostram bem que os trabalhadores ainda se estão a adaptar a comunicar desta forma e, por isso, cometem erros que podem sair caros. A CEO de uma empresa substituiu a cara pela imagem de duas batatas naquilo que era para ser uma brincadeira privada, mas que a tornou motivo de gozo dentro e fora da firma que dirige. Uma funcionária achou que tinha desligado a câmara de vídeo e foi à casa de banho a meio de uma reunião, "despiu-se, vestiu-se, fez o que tinha a fazer e começou a ouvir risos vindos do telemóvel que tinha pousado em cima do lavatório. Estava a ser vista por todos os participantes".

Os exemplos são contados por Rui Mergulhão Mendes, analista de comportamento e perito em linguagem corporal, que se tem dedicado a perceber como vão as pessoas reagir às diferenças na forma de comunicar que, acredita, vieram para ficar.

"Demos um salto de dez anos em termos de evolução tecnológica, mas é preciso ter cuidado a usar estes sistemas. Ainda no outro dia, eu estava a dar uma formação a 100 pessoas e, quando acabámos, eu despedi-me, mas não desliguei logo o programa. Quando dei por isso, estava a ouvir as pessoas a falar sobre a formação que eu tinha dado. Ou seja, saber usar estas plataformas é fundamental neste momento, até para não criar situações embaraçosas", acredita o especialista.

"Numa reunião normal, presencial, haveria muito mais coisas para onde olhar do que só para as caras das pessoas, porque os nossos comportamentos são um todo: os pés, as mãos, viramos para um lado, viramos para o outro. Neste momento, isso não acontece: temos só uma cara, damos muito mais atenção à face e estamos muito mais centrados naquilo que são as expressões faciais", explica.

"Por um lado, o facto de estarmos muito mais centrados na cara pode fazer com que tenhamos um feedback mais fácil dos outros em relação àquilo que dizemos e com muito melhor leitura." E embora a voz de cada um de nós fique diferente na versão digital (muito mais unificada), continuamos a contar com a audição e com os seus ênfases através da comunicação digital, o que não se pode dizer em relação ao tato e ao olfato, que aqui desaparecem por inteiro.

"Quando nos cumprimentamos com um aperto de mão, a primeira coisa que fazemos logo de seguida e sem nos apercebermos é pôr a mão na zona da cara para percebermos quem é aquela pessoa através do cheiro", um comportamento que está estudado e que agora se perde, quer na comunicação digital quer na comunicação presencial, que nos próximos tempos terá de fazer-se com uma máscara a cobrir o nariz e a boca e a uma distância de segurança de dois metros entre uns e outros.

"O facto de eu não conseguir chegar ao outro e não estabelecer um grau de proximidade física com ele pode levar-me, inconscientemente, a querer aproximar-me do ponto de vista mental e com isso vir a dar-lhe informações que não estava disposto a dar, ou contar coisas que não gostaria de ter contado, mas que para conseguir estabelecer aquela relação vou atrás dessa ligação", garante o especialista. E dá um exemplo: se chegar ao pé de um amigo e, sem ele saber, o mantiver a uma distância que não seja a vossa distância normal de comunicação, essa pessoa, garante o analista comportamental, vai começar a tentar chegar a si de outras formas.

"Começa a tocar em assuntos mais pessoais, a dar informações mais relevantes. O facto de não estarmos habituados a ver as pessoas desta forma e o facto de nos faltar uma série de coisas a que estamos habituados na comunicação pode causar-nos alguns desconfortos e a tendência é dar mais, é fazer cedências, é dizer coisas que o outro diz ‘mas porque é que ele está a contar-me isto?’ Acho que toda esta nova forma de comunicar vai trazer ajustes, é preciso estarmos conscientes de que tipo de ajustes são. A maior parte deles opera ao nível do inconsciente e nós não sabemos por que os estamos a fazer; mas vamos ter uma perceção muito maior da questão da face do outro e daquilo que ele transmite através das expressões que faz."

O melhor ângulo
Também se pode dar o caso de, numa videochamada, seja ela pessoal ou profissional, dar por si a distrair-se com o seu próprio quadradinho no ecrã (ainda não há estudos sobre isso, mas a tendência para tentar alinhar o cabelo, por quem o usa comprido, será certamente um dos gestos mais comuns). Também não vai conseguir ceder à tentação de espreitar o bocadinho da casa do colega que aparece por detrás dele.

Rui Mergulhão Mendes brinca com a imagem que as pessoas passam de acordo com o cenário que escolhem para posicionar as câmaras.

"Tenho reparado que se estiver a dar uma palestra ou formação para um grupo grande, todos eles têm livros em casa. Hoje toda a gente se filma com os livros atrás das costas, porque dá um ar intelectual; as pessoas tentam mostrar o lado mais favorável da casa, também há quem se posicione no sítio em que há umas escadas para o andar de cima e mostra que tem um duplex, ou porque é o melhor ângulo da casa... Porque as pessoas sabem que aquilo influencia a forma como são percebidas", acredita o analista. Outra coisa interessante sobre a comunicação via plataformas digitais, acredita Mergulhão Mendes, é que o facto das pessoas se estarem a ver no ecrã vai fazer com que a capacidade delas de mentir diminua substancialmente, porque não querem confrontar-se com a imagem de si próprias a fazê-lo.

Por esse motivo, aconselha cuidado. "Se tiver estado numa reunião com uma pessoa no Zoom ou no Skype (dois exemplos de plataformas mais utilizadas) e depois de a reunião acabar a pessoa ligar-lhe para o telefone a dizer: ‘olhe, tinha aqui uma coisa que me esqueci...’ cuidado com o que essa pessoa lhe vai dizer pelo telefone, porque provavelmente é mentira", alerta.

Já os tímidos e os mais inseguros podem sentir-se mais fortes no trabalho através das plataformas digitais. "Como os outros não conseguem ver-me os pés, não sabem se estou a tremer, se cruzei e descruzei as pernas, se rodei o corpo. E por isso uma pessoa que nas reuniões presenciais se sente mais insegura pode sentir-se mais segura deste lado do ecrã. Se eu pensar que tenho uma barreira à minha frente, estou escudado."

Aquelas pessoas que no contacto pessoal são habitualmente mais ‘invasoras’ do espaço físico do outro é que não mudarão muito nestas novas formas de comunicar. "Ainda não há evidências científicas, mas eu diria que são pessoas que vão estar com o computador colado a elas para sentirem que estão na mesma a falar em cima dos outros", acredita Rui Mergulhão Mendes.

Já presencialmente, se tivermos de comunicar de uma forma mais afastada e diferente daquela a que estávamos habituados a comunicar, podemos vir a ter níveis de comunicação completamente distintos e que nos podem vir a causar desconfortos, maior cansaço, maiores stresses emocionais, por não estarmos no ponto de equilíbrio em que estamos habituados a situar-nos. "Como se estivéssemos num país estrangeiro com hábitos completamente diferentes dos nossos e por isso tivéssemos necessidade de aumentar os nossos níveis de atenção e defesa", compara o analista.

"Num país árabe, por exemplo, o seu nível de cansaço vai ser muito maior do que se estiver no nosso país, porque o comportamento das pessoas não é o mesmo e isso inquieta, até na forma de comunicação, porque eles têm muitas vezes os braços escondidos debaixo das vestes, ao passo que aqui cumprimentamos as pessoas com apertos de mão para mostrar que não temos nada na mão, que não temos malícia nenhuma."
Bom, para já, e não sabemos até quando, vamos ter de guardar a mão no bolso.

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