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Comunista, afável, culta e gourmet

Isabel Camarinha lê poesia e policiais, teve um cão chamado Miró e foi ao concerto dos U2.
Fernando Madaíl 23 de Fevereiro de 2020 às 10:00

A adolescente que ficava encantada ao ver o compositor Fernando Lopes-Graça, com a batuta de maestro na mão, a dirigir os ensaios do Coro da Academia dos Amadores de Música (onde tinha familiares) é a nova líder da CGTP/Intersindical. Rosto pouco conhecido fora dos círculos do sindicalismo e do PCP, Isabel Maria Robert Lopes Perdigão Camarinha ("um longo nome", ironiza), a mais velha de três irmãos, nasceu em Moscavide, em junho de 1960 – o ano da fundação dos Beatles, um dos grupos da sua predileção, a que junta bandas como os Pink Floyd ou os U2 (até foi assistir ao último concerto em Portugal, no Altice Arena, em setembro de 2018).

A sua família, mesmo sem atividade política relevante (além dos tios que saíram do País por serem refratários à guerra colonial), já era de esquerda antes do 25 de Abril – esse dia que, nos seus olhos jovens, ficou registado como "uma coisa luminosa". No ano anterior, em sua casa, tinha-se comentado muito o golpe de Estado no Chile, em que o presidente socialista Salvador Allende, eleito por sufrágio universal e que governou numa frente comum com os comunistas, foi assassinado no palácio presidencial, com os seus correligionários mais próximos, pelos militares que levariam ao poder o ditador Pinochet.

Filha de dois funcionários públicos (o pai trabalhava no porto de Lisboa e a mãe no Ministério da Educação), esta estudante do Liceu D. Filipa de Lencastre aderiu, logo em 1974, à UEC (União dos Estudantes Comunistas), então dirigida por Zita Seabra. Em 1979, época em que o responsável era Pina Moura, esteve no encontro em que se fundiram, com o seu voto favorável, a UEC e a UJC (União da Juventude Comunista, que agregava os trabalhadores), formando a JCP – Juventude Comunista Portuguesa. E dois dos filmes desta assumida cinéfila foram exibidos precisamente nessa década de 1970: ‘O Padrinho’, de Francis Ford Coppola, e ‘1900’, de Bernardo Bertolucci – ambos com um dos seus atores prediletos, Robert De Niro.

A delicadeza de Cunhal

Aos 19 anos, em vez de entrar na universidade para estudar História ("fascinada por saber mais sobre o papel do Homem na transformação da sociedade"), optou pela militância e foi trabalhar no Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local e Regional, Empresas Públicas, Concessionárias e Afins (STAL). Mas a categoria profissional de técnica administrativa, numa estrutura sindical, não se limita às papeladas e às burocracias; implica um muito maior envolvimento, do apoio aos dirigentes à intervenção direta nas lutas reivindicativas. E, tendo começado em 1981, Isabel Camarinha percebeu muito bem esse tipo de disponibilidade logo em fevereiro de 1982, com a primeira greve geral.

Mais tarde, em 1991, seria eleita para os órgãos executivos do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritório e Serviços de Lisboa (CESL), passando a acumular as funções de trabalhadora num sindicato com as de dirigente num outro. Suceder-se-iam cargos cada vez mais importantes antes de vir a presidir, em 2016, ao Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) – uma das maiores estruturas da CGTP, pois reúne quase todo o setor terciário.

Apesar de ter sido bastante discreta nos coletivos sindical e comunista, constando na lista da CDU pelo círculo de Lisboa, nas legislativas de 6 de outubro, liderada por Jerónimo de Sousa, embora numa não elegível oitava posição (a coligação PCP-PEV obteria quatro deputados), Isabel Camarinha era a primeira dirigente sindical, à frente de outros nomes relevantes da CGTP.

Aliás, das várias figuras que a marcaram, de Rosa Luxemburgo a Nelson Mandela, a única com quem teve "algum" contacto foi com Álvaro Cunhal, de quem recorda "a delicadeza e a cultura extraordinária". Afinal, duas qualidades que também parecem caracterizar Isabel Camarinha.

Brecht e Shakespeare
Antes do congresso histórico dos dias 14 e 15 deste mês de fevereiro – além de se realizar no ano do cinquentenário da CGTP/Intersindical, foi também o momento, como sublinhou o líder cessante, Arménio Carlos, em que se retirou "a última geração que começou a trabalhar antes do 25 de Abril" –, mesmo um vulto da tendência socialista, Carlos Trindade, definiu Isabel Camarinha como uma pessoa "afável" e capaz de criar "bom ambiente".

Ana Pires, camarada de partido e da Comissão Executiva da central sindical, quase duas décadas mais nova, além de sublinhar que é uma "excelente ouvinte e que, qualquer que seja a discussão, Isabel consegue encontrar pontos em comum entre as diversas intervenções", ainda a elogia como sendo uma mulher "muito solidária e muito carinhosa".

"Sempre bem-disposta", enaltece Deolinda Machado, uma dirigente da sensibilidade católica (pertence à Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos). Além de camarada no sindicalismo, Deolinda também conviveu com Isabel em campanhas eleitorais (era independente nas listas da CDU), e partilham uma predileção por José Saramago – a nova face do sindicalismo português, ao falar da obra do Prémio Nobel, escolhe os títulos ‘Memorial do Convento’, ‘Levantado do Chão’ e ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’.

Sinal dos tempos, ao contrário dos seus antecessores – o marceneiro Francisco Canais Rocha (mais tarde historiador), o tipógrafo Teixeira da Silva, os eletricistas Carvalho da Silva (agora sociólogo) e Arménio Carlos (que regressa à Carris) –, Isabel Camarinha não é proveniente dos meios operários. E a sua biblioteca é variada, com estantes onde se encontram romances históricos e de ficção científica, a poesia militante de José Gomes Ferreira, Ary dos Santos ou Pablo Neruda, policiais da Agatha Christie e de Georges Simenon, autores sul-americanos, como Gabriel García Márquez ("de quem leu quase tudo"), Isabel Allende ou Jorge Amado. Apreciadora de artes plásticas, não hesita ao eleger Pablo Picasso e Almada Negreiros, mas gosta tanto das cores de Miró que batizou um cão labrador com o nome do pintor espanhol – teve outro animal da mesma raça, o Trovão.

Quem conhece Isabel Camarinha apenas das lutas pelos direitos dos trabalhadores dos hipermercados, desde as greves no 1º de Maio até à defesa do encerramento das superfícies comerciais ao domingo, ignora várias facetas desta culta comunista, como a da apreciadora de teatro, que, por falta de tempo, se senta menos vezes nas plateias do que desejaria. Entre tantos exemplos de peças que lhe ficaram gravadas na memória cita ‘Mãe Coragem e os Seus Filhos’, de Bertolt Brecht, pelo Teatro Aberto, "com a Eunice Muñoz e a Irene Cruz", de 1986, ou o mais recente ‘Macbeth’, na encenação de Nuno Carinhas, de 2018.

Mozart para relaxar
Numa cumplicidade de 14 anos, Ana Pires refere que têm em comum os prazeres do garfo e da viagem. Boas ‘gourmet’, vão a restaurantes italianos, indianos, chineses – Isabel ainda se está "a habituar" à cozinha japonesa. Mas a gastronomia nacional merece-lhe os maiores encómios, dos pratos "levezinhos" – cozido à portuguesa, rancho, migas com carne de alguidar, rojões – até ao bom peixe grelhado.

Nas férias, além de adorar as praias com mar quente do Algarve, procura descobrir sítios que não conhece. E, desafiada a indicar cidades que a tenham encantado, refere duas que visitou enquanto estava a desempenhar funções sindicais: as tão distintas Durban e Damasco – e, além do panorama da praia sul-africana e da monumentalidade da capital síria, ficou "a gostar imenso" dos respetivos povos.

Ana e Isabel ainda têm a afinidade dos temas de intervenção musical do pós-25 de Abril, nas vozes de Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho. E Isabel Camarinha pode ainda destacar, por exemplo, a complexidade dos discos de Fausto ou a "simplicidade" pessoal de Carlos Paredes. Mas – mesmo para quem nasceu no ano em que o planeta parecia trautear, em uníssono, o sucesso de Elvis Presley, ‘It's Now or Never’ – admite que relaxa mesmo é a escutar música clássica: Beethoven, Mozart ou Tchaikovsky.

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