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Contra factos, não há argumentos

Em ‘Revolução de Outubro: Cronologia, Utopia e Crime’, Manuel S. Fonseca enuncia os factos de há 100 anos
João Pereira Coutinho 19 de Novembro de 2017 às 14:08

É um problema antigo: discute-se política e os factos são de secundária importância. Ainda me lembro de um debate com um plumitivo de esquerda sobre Israel e os "territórios   ocupados".   Ele   investia com som e fúria – contra os judeus. Eu, suspeitando que os alicerces eram frágeis, atrevi-me: e quando foi que os "territórios ocupados" foram   realmente   ocupados?   Silêncio do outro lado. Fiquei a saber que era possível ter uma posição sobre   o   conflito   israelo-árabe sem saber as condições históricas que levaram Israel a ocupar a Margem Ocidental e a Faixa de Gaza (já para não falarmos do deserto do Sinai ou dos Montes Golã). O mesmo sucedeu com a (chamada) Revolução de Outubro.

As datas e os factos

Passaram 100 anos. E, nos textos sobre a efeméride, duas ideias falaciosas foram repetidas com desvergonha. Primeira: Lenine acabou com o czarismo. Segunda: o leninismo   foi   recebido   em   festa pelo   povo   oprimido.   Para   estes crentes, um conselho: e que tal ler ‘Revolução de Outubro: Cronologia,   Utopia   e   Crime’?   O   livro   de Manuel   S.   Fonseca   pretende acompanhar,   ano   a   ano,   mês   a mês, os factos que criaram Lenine, derrubaram os Romanov, permitiram o golpe de Outubro e entregaram a Rússia a um terror inimaginável. Que o mesmo é dizer: apenas com factos, compreendemos a importância que teve para Lenine a execução do seu irmão por tentativa de homicídio do czar Alexandre III; compreendemos a imbecilidade de Nicolau II no trato com o seu povo   faminto;   compreendemos que o derrube do czarismo se dá na Revolução   de   Fevereiro;   e   que   o golpe dos bolcheviques contra o Governo Provisório emanado de Fevereiro enterrou qualquer possibilidade   de   uma   democracia "ocidental". Depois de Outubro, erguia-se na Rússia uma ditadura brutal que arrastou o país para uma guerra civil e para o primeiro cemitério comunista da história. Se, depois deste livro,   o   leitor continuar a repetir que Lenine acabou com o czarismo e que os bolcheviques foram heróis nacionais, nada a fazer. O seu problema já não é a ignorância. É o fanatismo.

Antiga Ortografia

LIVRO: Reflexão sobre os direitos das mulheres

A Revolução Francesa inaugurou vários debates que ainda hoje ressoam na política contemporânea. Mary Wollstonecraft participou neles: depois de defender os ‘direitos dos homens’ contra as reflexões anti-revolucionárias de Burke, a autora ocupou-se dos ‘direitos da mulher’ contra o tradicionalismo na França pós-1879.

LIVRO: O que distingue a pobreza da desigualdade

Todas as sociedades se preocupam com a ‘desigualdade’. Mas, pergunto, por que motivo a desigualdade que existe entre mim e CR7 não inquieta ninguém? Frankfurt responde: porque as palavras são importantes; deve ser a "pobreza", e não a "desigualdade", que deve ocupar a atenção dos espíritos. Um grande ensaio.  

LIVRO: Regresso à primeira obra de Françoise Sagan

Escrever ‘Bom Dia, Tristeza’ aos 19 anos é obra. Mas, por outro lado, só é possível escrever ‘Bom Dia, Tristeza’ aos 19 anos, quando o mundo e os outros são observados com uma intensidade desesperada e pueril. Pelos olhos de Cécile, descobrimos a emoção do primeiro amor; e, na relação com o pai, o medo do abandono.

FUGIR DE:

CARLES PUIGDEMONT

A identidade cultural da Catalunha não é uma brincadeira; e a ambição independentista também não. Infelizmente para os catalães que sonham com um estado independente, o líder da banda revelou-se um personagem grotesco, que ateou o fogo unilateralmente, afundou a economia da região – e, com medo da justiça, fugiu para a Bélgica. Agora, para prosseguir a sua farsa, até admite outras soluções que não passem pela independência. Deviam fazer-lhe uma estátua em Barcelona – e cobri-la de ovos podres.  




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