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“Disseram-me: Já não vamos ver as nossas velhotas”

Em 14 dias sofremos 48 ataques. Na Guiné vimos amigos morrer ao nosso lado, camaradas destruídos para sempre.
Marta Martins Silva 16 de Fevereiro de 2020 às 13:00

Tinha 21 anos quando assentei praça na serra da Carregueira. Volvido o tempo da recruta fui para o Porto tirar a especialidade de radiotelegrafista. Passados esses meses da especialidade fui para Évora e aí fui mobilizado para a Guiné. Parti no dia 24 de novembro de 1971 e desembarquei no dia 29 de novembro. Guerra é sempre guerra e não era fácil imaginarmos o que íamos encontrar.

Ainda por cima fui em rendição individual, para fazer parte da Companhia de Caçadores 19. Quando cheguei a Bissau tirei um estágio de IAO, de morse, e depois fui destacado para um sítio chamado Guidaje e aí começou a tortura física e psicológica, não foi nada fácil. Era um sítio muito turbulento, muito conflituoso, de muita pancada.

Nós estávamos à beira do Senegal e quando havia ataques do PAIGC éramos nós que levávamos por tabela. Em maio de 1973, em apenas 14 dias tivemos 48 ataques. Houve camaradas que ficaram sem pernas, destruídos para o resto da vida, vimos amigos a morrer ao nosso lado e nós sem culpa nenhuma do que estava a acontecer.

Sangue e pólvora
Estive em Guidaje praticamente 22 meses. Ali passámos muita fome e houve uma altura em que os ataques a Guidaje eram tantos que o senhor general Spínola disse assim a todo o povo, habitantes da aldeia: avisem os vossos irmãos que ou param de atacar Guidaje ou nós invadimos o Senegal. Posso dizer que nessa altura tivemos mortos, capturados e muitos feridos. No dia 19 de maio de 1973 tivemos 11 mortos, do batalhão chefiado pelo então major Almeida Bruno e dois capturados. E a 23 de maio, às quatro da manhã, havia dois cheiros no quartel: a sangue e a pólvora. E o nosso quartel estava completamente destruído.

Um dia, dois rapazes meus amigos, um chamado Matos e o outro chamado Janeiro, disseram-me assim: "Canelas, já não vamos ver as nossas velhotas [as mães], vamos ficar aqui todos mortos. O que nós sofremos naquele aquartelamento foi uma coisa completamente louca: nós não tínhamos comida, nós não tínhamos munições, nós não tínhamos nada. Todos nós pensávamos que íamos ficar lá, chegámos a estar 23 dias cercados em cruz. Quando saímos dali fomos dados como doidos porque não sabíamos sequer onde estávamos.

Um ano antes, a 24 de junho de 1972, saiu um pelotão para fazer um reconhecimento, íamos buscar mantimentos e disseram-nos "o peixe pode mergulhar", um código que significava que a coluna podia avançar. Passados cinco minutos de eu ter estado a beber dois whiskys, às sete da manhã, com o alferes Sérgio, ele levou um tiro no pescoço que o matou logo. E depois quem teve de o lavar para ele ser metido num caixão fui eu e outro rapaz. Foi muito doloroso mesmo, não dá para transmitir às pessoas que nunca lá estiveram o que aquilo foi de sofrimento. Não veio de lá nenhum em condições. Só a fé é que nos salvou, se não fosse a fé não saíamos de lá vivos. No nosso quartel havia urnas vazias, preparadas para avançar a qualquer momento. A maioria delas foi usada.

Partimos sem saber o que nos esperava e assumimos um papel que parecia pertencer a Portugal. Hoje, volvidos muitos anos, a nossa visão mudou muito. Mas continuamos a lutar pelos nossos direitos enquanto pessoas. Precisamos que reconheçam o nosso esforço, exigimos humanidade. Queremos que o poder político não se esqueça de nós, por isso afirmo: é justo lutarmos pelos nossos direitos, seria injusto o não reconhecimento porque o fizeram tantos milhares de homens em terras que não as suas. Com bom senso estamos sempre disponíveis para dialogar, mas exigindo ao poder político, não apenas ao atual, que respeite os seus deveres. Temos direitos e exigimos respeito.

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