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É possível bom e barato mas com tempo

Comparar preços, fazer um orçamento e não usar crédito são três dos mandamentos a seguir
Manuela Guerreiro 1 de Dezembro de 2019 às 10:00

Seria bom que o fantasma do Natal passado nos visitasse todos os anos e nos assombrasse com os gastos disparatados das festas anteriores e nos avisasse para não fazermos, outra vez, as compras em cima da hora, com filas enormes de gente mal disposta, stocks a zero e preços exorbitantes. Nada natalício. Faltam poucos dias, mas ainda vamos a tempo de seguir as dicas de quem faz isto com os pés bem assentes no chão. Com tempo, planeamento e cabeça. Quem sabe, se no final não vão sobrar uns trocos para um pé de meia? Vamos lá às compras.

Nesta arte das compras, Janine Medeira – que tem um dos blogues mais lidos em Portugal chamado ‘Poupadinhos e com vales’ - não tem igual. É possível comprar bom e barato? "Claro que sim", basta seguir quatro premissas fundamentais.: "Comparar preços, comprar com antecedência, fazer compras nos saldos e usar o online".

Janine Medeira, 38 anos, tem cerca de 300 mil seguidores nas redes sociais, a quem revela diariamente truques para comprar mais barato. Por esta altura, já fez as compras de natal. "Se for picar a minha lista, já devo ter tudo. Vou fazendo as compras nos saldos, ao longo do ano. As pessoas riem-se, mas já tenho muitos seguidores a fazer a mesma coisa. Compro muita coisas nos saldos de janeiro para o Natal seguinte. Por exemplo, os pijamas, as meias, as blusas temáticas de natal que as pessoas gostam tanto e que são tão caras na altura. Nos saldos do ano passado, por exemplo, comprei por cinco euros blusas que antes custavam 20 euros. Ninguém precisa de saber que comprámos no natal do ano anterior. Estamos a dar uma boa prenda e, às vezes, conseguimos descontos de 80%. É uma poupança gigante. É brutal chegarmos à época de Natal e não precisarmos de comprar nada."

Regras ponderadas que só as crianças conseguem furar. Claro que não se podem oferecer brinquedos ultrapassados. Tem de ser aquela princesa porque está agora no cinema e tem de ser aquele jogo porque está na moda. Mesmo assim, é possível antecipar a compra inevitável e evitar o stresse.

"Em relação aos brinquedos, pode-se comprar antes do Natal. Há sempre grandes campanhas em outubro, com descontos que podem ir aos 70% - já fiz a comparação de preços e não há especulação nestas campanhas."

Mas atenção ao excessos, alerta Janine que dedica duas horas por dia à procura de promoções para alimentar as suas redes sociais e ajudar os seguidores.

"Não há necessidade de comprar 10 brinquedos para a mesma criança. Bastam dois. É vantajoso para a educação financeira das crianças e para a carteira dos pais. E os avós e os tios também oferecem. Se a criança recebe muitos brinquedos, vamos guardar alguns e dar-lhe quando se portar bem ou numa altura em que mereça recompensa. De outra forma, é um desperdício".

Compras online

Regra de ouro para a nossa blogger são as compras através da internet . É mais barato e tem mais-valias: "Há cada mais pessoas a comprar online. É mais cómodo e os códigos de desconto para quem compra online podem oscilar entre 10% e 25%. E as marcas também estão em alerta e sabem que as pessoas procuram o mais barato".

Online é bom, mas sempre controlando as campanhas das lojas físicas como, por exemplo, a ‘Black Friday’, para comprar o mais cedo possível, alerta a Janine Medeira. "Se eu quiser oferecer um livro no Natal , não o vou comprar na véspera. Um dos grande erros é guardar as compras para última hora: apanhamos filas enormes e podemos não encontrar o que queremos. Ou se há, está muito mais caro." Não guardar para o fim é uma poupança em todos os aspetos.

"Tempo é dinheiro", diz a blogger, adiantando que os consumidores devem também comparar preços.
Comércio tradicional ou centros comerciais? "No comércio tradicional, às vezes, é mais barato, sobretudo nos eletrodomésticos. Conseguem baixar o preço e manterem-se competitivos. Nos centros comerciais, a oferta é maior e têm as coisas da moda, mas as lojas grandes investem muito em publicidade e têm muitos colaboradores. Ninguém vai tirar 20 euros só porque estamos a pedir.

Os pequenos fazem isso para se manterem no mercado e conseguem na mesma preços competitivos. Mas tem tudo a ver com as marcas e com o que procuramos", adianta a influencer que em outubro e novembro chega a ter 800 mil seguidores por mês, ávidos, à procura de sugestões e de promoções.

E se ainda não sabe o que vai deixar no sapatinho ficam algumas ideias de Janine Medeira: "Os livros são sempre intemporais . É sempre uma boa aposta. Toda a gente precisa de um pijama e há pessoas que adoram meias. Também fica sempre bem oferecer uma joia.

Compro sempre online, em sites de escoamento de stocks que recebem coleções das épocas anteriores. Ofereci um colar à minha mãe que custava 100 euros, original, e que comprei por 38 euros, simplesmente porque a coleção já não ficava bem nas lojas. A prenda tem valor e vai deixar aquela pessoa feliz."

Descalabro financeiro

Ponderação é, pois, a palavra de ordem neste Natal. Segundo dados do Observador Cetelem, os portugueses têm a intenção de gastar 388 euros durante o período do Natal, mais seis euros do que em 2018. Só para prendas o orçamento médio é de 234 euros.

Mas entre as estimativas e a realidade, há muito dinheiro a mudar de mãos. E o descalabro financeiro mede-se assim: no mês de dezembro do ano passado gastaram-se, em todo o País, 121,1 milhões de euros em ‘tecnologia, cultura e entretenimento’. São dados da SIBS, empresa que gere os pagamentos através dos terminais da rede Multibanco. Gastaram-se ainda 73,1 milhões de euros em ‘decoração e artigos para o lar’; 40,7 milhões em ‘perfumaria e cosmética’; e 15,3 milhões em ‘jogos e brinquedos’.

E para que o Ano Novo não traga dissabores, vamos olhar para o dinheiro que acabou de cair na carteira, com a ajuda de Natália Nunes, coordenadora do gabinete de proteção financeira da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO). E que alerta, precisamente, para os riscos dos gastos excessivos da época natalícia. É preciso fazer muito bem as contas e antes da sair de casa ter um orçamento bem planeado. E atenção que o subsídio de Natal – para quem o recebe – acaba por se revelar bem curtinho.

"Grande parte de nós tem um rendimento adicional e criamos a ilusão de que temos mais dinheiro e podemos gastar mais. Mas é preciso gastar com critério porque era bom que uma parte desse rendimento fosse destinado à poupança. É bom termos um fundo de emergência", refere Natália Nunes. No ‘poupar é que está o ganho’, lá diz o povo.

Vamos então às pistas: "Em primeiro lugar temos de fazer um orçamento especial para esta época. É preciso definir o valor a gastar com as prendas, a ceia e as viagens. Tudo o que tiver peso deve ser objeto de orçamento." É importante também definir uma lista de pessoas a quem vamos dar prendas e uma lista de presentes.
"Devemos olhar para este orçamento, que pode ser, por exemplo, de 300 euros, e dizer: deste valor, quero gastar 100 euros em prendas e 200 euros com a festa. Depois tenho de ver que tipo de prendas que vamos dar. É preciso ver os gostos de cada um. Só precisamos de uma prenda que seja simpática e surpreenda as pessoas", adianta a responsável da DECO.

Com o orçamento planeado vamos tentar geri-lo. É preciso ter tempo para fazer comparações de preços e aproveitar algumas promoções. Quanto mais cedo se comprar melhor porque alguns produtos, já perto do fim, têm preços superiores.

Como responsável pelo gabinete da proteção financeira, Natália Nunes tem uma perceção muito realista das consequências devastadoras de uma má gestão financeira. Em outubro, havia mais de 25 mil famílias em dificuldades financeiras a pedir ajuda à DECO, "situação que está estável, mas com uma tendência muito ligeira para aumentar", adianta.

"As pessoas pensam que já passámos a crise, que se pode gastar mais e que pode haver mais descontrolo. As famílias já tinham adotado alguns comportamentos mais responsáveis e ofereciam, por exemplo, prendas coletivas ou presentes feitos pelos próprios. São soluções responsáveis e amigas da carteira".

Natália Nunes alerta ainda os consumidores para terem atenção com a forma de pagamento, sugerindo que evitem usar o cartão de crédito.

"O que vemos é que as famílias, depois, têm dificuldades em janeiro. Utilizam muito o cartão de crédito em dezembro e quando chega a conta para pagar têm dissabores. Dezembro é um mês propício para consumismo e é preciso fazê-lo com responsabilidade.

Se vai organizar a ceia de Natal, as regras são as mesmas: faça a sua lista de convidados e decida quem realmente vai convidar. Só depois pense no que vai comprar, o que também deve ser feito com antecedência. Depois de tudo encaminhado, só falta esperar. É que uma festa sem derrapagens financeiras também é uma boa prenda.

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