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Eça de Queiroz: "A nudez forte da verdade"

Os romances mais escandalosos sobre amores proibidos.
João Pedro Ferreira 15 de Março de 2020 às 13:00

José Maria de Eça de Queiroz (1845-1900) foi, provavelmente, o maior romancista da história da literatura portuguesa. O crítico norte-americano Harold Bloom incluiu-o no ‘Génio’, livro dedicado aos 100 escritores mais criativos das letras universais, onde só estão três portugueses: Camões e Pessoa, ambos poetas, e um único romancista - Eça. Os apaixonados da leitura continuarão divididos entre os méritos de Eça e os do outro gigante do romance, Camilo, mas a verdade é que a receita queirosiana se revelou eficaz, com a dose certa de erotismo apimentado pelo escandaloso tabu do incesto, fosse entre primos (‘O Primo Basílio’), entre irmãos (‘Os Maias’), entre mãe e filho (‘A Tragédia da Rua das Flores’) ou, na versão mais blasfema, com um padre, representante do pai comum (‘O Crime do Padre Amaro’).

Com o ‘Crime’ (1875), Eça trouxe o estilo realista para Portugal, e com ele a moda dos galicismos que infestam a sua obra. Mas tanto neste como no ‘Primo’ (1878) e em ‘Os Maias’ (1888) desenvolveu uma crítica social que se mantém insuperável, corporizada numa galeria de personagens-tipo perfeitamente atual - ainda hoje é fácil reconhecer na política e no social os equivalentes do Conselheiro Acácio ou do Conde de Abranhos. No fim da vida trocou o deslumbramento parisiense pela simplicidade de Tormes em ‘A Cidade e as Serras’ e rematou o conjunto da obra com os ‘Contos’ onde se destaca o comovente ‘Suave Milagre’, numa conversão tardia à apologética cristã.

Do livro ‘O Crime do Padre Amaro’, ed. Livros do Brasil
"(...) Ele atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoço, pelos cabelos; às vezes mordia-lhe a orelha; ela dava um gritinho; e ficavam então muito quedos, escutando, com medo da paralítica em baixo. O pároco depois fechava as portadas da janela e a porta muito perra que tinha de empurrar com o joelho. Amélia ia-se despindo devagar; e com as saias caídas aos pés ficava um momento imóvel, como uma forma branca na escuridão do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ela então persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirozinho triste. (…)

Amaro então chegou-se por detrás dela, cruzou-lhe os braços sobre o seio, apertou-a toda – e estendendo os lábios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, muito longo… Os olhos de Amélia cerravam-se, a cabeça inclinava-se-lhe para trás, pesada de desejo. Os beiços do padre não se desprendiam, ávidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração dela apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfaleceu sobre o ombro do padre, descorada e morta de gozo."

Do livro ‘Os Maias’, ed. Livros do Brasil
"(...) O grande e belo corpo de Maria, embrulhado num roupão branco de seda, movia-se, espreguiçava-se languidamente, sobre o leito brando. (...)

Ele tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho, a que percebia a forma e o calor suave, através da seda leve: e ali esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, num entorpecimento onde toda a vontade e toda a consciência se lhe fundiam, deixando-lhe apenas a sensação daquela pele quente e macia, onde a sua palma pousava. Um suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos lábios de Maria, morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha dela, que o entontecia, terrível como o bafo ardente de um abismo, escancarado na terra a seus pés. Ainda balbuciou: ‘Não, não…’ Mas ela estendeu os braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, num murmúrio que era como a continuação do suspiro, e em que o nome de ‘querido’ sussurrava e tremia. Sem resistência, como um corpo morto que um sopro impele, ele caiu-lhe sobre o seio. Os seus lábios secos acharam-se colados, num beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito."

Do livro ‘A Relíquia’, ed. Porto Editora
"(...) Achei-me à porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, num desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as acusações do Negrão bradadas contra mim junto à touca da titi: ‘Deboche! Escárnio! Camisa de prostituta! Achincalho à Sra. D. Patrocínio! Profanação do oratório!’ (…) E, ensopado em suor, entre as pregas da cortina, percebi a titi caminhando para mim, lenta, lívida, hirta, medonha… Estacou. Os seus frios e ferozes óculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:
– Porcalhão!"

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