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Eles mascaram-se durante todo o ano (e são felizes assim)

Desafiámos os atores da novela original da CMTV a falar sobre as máscaras a que as personagens os obrigam... e sobre o Carnaval.
Marta Martins Silva 3 de Março de 2019 às 11:00
António Pedro Cerdeira foi rei, em 2004, do Carnaval da Figueira da Foz
Anabela Teixeira já desfilou no Rio de Janeiro, em 1997
Joana Alvarenga foi rainha em Vale do Sousa, em 2015
Pedro Rodil é, este ano, padrinho do Carnaval de Ovar
António Pedro Cerdeira foi rei, em 2004, do Carnaval da Figueira da Foz
Anabela Teixeira já desfilou no Rio de Janeiro, em 1997
Joana Alvarenga foi rainha em Vale do Sousa, em 2015
Pedro Rodil é, este ano, padrinho do Carnaval de Ovar
António Pedro Cerdeira foi rei, em 2004, do Carnaval da Figueira da Foz
Anabela Teixeira já desfilou no Rio de Janeiro, em 1997
Joana Alvarenga foi rainha em Vale do Sousa, em 2015
Pedro Rodil é, este ano, padrinho do Carnaval de Ovar
A mãe fazia-lhe os fatos de índio, cowboy e homem-aranha numa altura em que não havia disfarces de Carnaval à venda porta sim, porta sim, mas, com a passagem para a idade adulta, António Pedro Cerdeira deixou de ligar à folia da época.

"Se calhar porque passo o ano inteiro a mascarar-me deixei de apreciar o Carnaval, mas em 2004 fui ‘rei’ no corso da Figueira da Foz, depois de lá ter estado a gravar uma telenovela durante um ano, e foi uma experiência muito intensa. Por um lado, foi o corolário da ligação que estabeleci com a comunidade durante aquele tempo e, por outro, sentir toda aquela transmissão de energia durante as horas que durou o desfile foi muito engraçado."

A mãe que lhe fazia os fatos na infância é a mesma que às vezes lhe liga a ‘dar-lhe na cabeça’. "‘Ai que fizeste isto, fizeste aquilo, sofreste isto ou sofreste aquilo’. E eu lá faço um esforço de memória para perceber de que personagem é que ela está a falar. Como há telenovelas ou séries que já fiz há imenso tempo mas ainda estão a passar na televisão atualmente, a minha mãe liga-me a falar disso e eu já não me lembro de que maldades é que ela está a falar", conta com graça António Pedro Cerdeira, um dos protagonistas da primeira novela original da CMTV, com estreia marcada para o dia 18 de março.

A mãe não é a única a zangar-se com o ator quando aqueles a quem veste a pele saem do trilho ou consomem os nervos de quem segue determinado produto no pequeno ecrã. "Ao longo da carreira já ouvi centenas de conselhos na rua: para não ser tão mau, para poupar determinada pessoa, para fazer isto ou aquilo que era melhor para mim", brinca o ator, que faz questão de mergulhar nas personagens para melhor lhes conseguir vestir a pele.

"Uma das facetas mais apaixonantes desta profissão é colocar várias máscaras à medida que os trabalhos se sucedem. Com o António Barreira [autor de ‘Alguém Perdeu’] já fiz de homossexual muito extrovertido na realidade moçambicana, onde a ação se prendia com a penalização legal que existia pelo facto de ser gay; quando fiz de gago andei numa escola de gagos para fazer o processo invertido e também frequentei o centro das Taipas quando interpretei um toxicodependente, para perceber o processo, como se me estivesse a limpar de heroína. É portanto viver várias vidas numa só, é um privilégio e uma riqueza humana imensa", considera Cerdeira, de 48 anos, que todos os dias de gravações passa pelo processo de despir a personagem a caminho de casa.

"Apesar de ter transporte para o estúdio onde gravamos, prefiro trazer o meu carro porque aproveito a viagem para voltar a ser eu. Naqueles 40 minutos vou calmamente a ouvir música, fumo um cigarro, vou libertando até desligar", conclui o Rodrigo Sarmento de ‘Alguém Perdeu’, uma ‘máscara’ "fascinante" que promete surpreender os espectadores e prendê-los ao ecrã.

Pesquisa e reflexão
Ainda lhe chamam vampira por causa do seu papel na série ‘Lua Vermelha’ e ‘Viúva do Enforcado’ (o mesmo nome da produção que protagonizou em 1993, como ‘Teresa’), mas a partir de 18 de março Anabela Teixeira será para todos Madalena Mascarenhas, uma empresária que vive atormentada pela culpa da morte do único neto, que se afogou na piscina depois de a avó o deixar sozinho por uma tarde de sexo.

"Desde 2008 que me preparo em seminários para atores profissionais com o meu querido mestre Juan Carlos Corazza, ‘coach’, entre outros, de Javier Bardem. É um espaço de pesquisa em que pratico emoções, análise de cenas, relaxamento, voz e corpo num espaço em que me é permitido pesquisar e falhar. No caso específico da personagem Madalena, não apenas li muito, como refleti bastante. Houve muitos ensaios e uma preparação muito interessante com outros atores e realizadores que fez com que todos estivéssemos em sintonia", explica a atriz de 45 anos sobre a forma como veste as máscaras das personagens, em projetos cá dentro ou lá fora, ela que em 2018 fixou residência em Londres onde tem estado a trabalhar como atriz.

Não foi a sua estreia fora de portas, num currículo internacional no qual constam a minissérie ‘Sandra, Princesse Rebelle’ (França) e participações nos filmes ‘A Rainha Margot’ (França), ‘Fado majeur et mineur’ (França), ‘La Leyenda de Balthazar, el Castrado’ (Espanha), ‘A Casa dos Espíritos’ (Portugal/Alemanha/Dinamarca/EUA) e a telenovela ‘Xica da Silva’ (Brasil). Esta última valeu-lhe um convite, em 1997, para desfilar no famoso Carnaval do Rio de Janeiro por duas escolas de samba, uma delas a Unidos da Tijuca.

"Lembro-me que eles queriam que eu fosse no carro alegórico – nem sei o que me queriam vestir – mas eu, com a minha miopia, disse logo que não queria ir lá em cima, e também queria viver aquele momento com a [atriz] Lídia Franco, que fazia a novela comigo no Brasil, fomos as duas vestidas de baianas. A energia que vem dos tambores é natureza pura, sentir o chão a vibrar e nós ali no meio a vivenciar tudo, foi uma experiência inesquecível", recorda uma das protagonistas da novela ‘Alguém Perdeu’.

Fora do corso, em cena, a concentração é total e as emoções das personagens têm de vir de dentro, por isso Anabela Teixeira sofre quando elas sofrem reveses e rejubila quando estão felizes. "Preparo bastante as minhas imagens, que me ajudam a servir as circunstâncias que a personagem está a viver. Depois é uma questão de foco, que tem que ver com concentração no aqui e agora mas também no que os colegas e a própria cena nos oferecem. E depois esquecer tudo; esquecer a técnica e entregar-me à cena", descreve a atriz que se socorre da meditação e do ioga para encontrar a serenidade exigida a este trabalho.

Saudades das personagens
Joana Alvarenga vai ser Vanda Ventura, uma advogada sensual obcecada por um carpinteiro que vive um amor difícil com outra personagem da novela. "Costumo dizer que me pagam para brincar, ser atriz é brincar ao faz de conta, é fingir que somos outras pessoas e, portanto, fazer uma coisa que eu nunca faria na vida real é que me dá gozo. Gosto de personagens diferentes, de poder provar algo que as pessoas não estão à espera. E se as pessoas olhavam para mim nesta fase e achavam que eu iria fazer uma personagem x, de repente agora vou surpreendê-las. Quero mesmo que os espectadores digam: ‘Mas ela fala mesmo assim?’ ‘E anda desta maneira?’ ‘Como é que ela de repente se transforma nisto?’ O que me dá mais prazer é a construção desta máscara, a criação da personagem que não sou eu."

Mas que quando o projeto terminar lhe vai fazer imensa falta. "Choro sempre quando acaba. ‘Oh, acabou, nunca mais vou ser esta pessoa na vida…’ E como esta minha personagem passa por todos os décors, envolve muita história e me tira muitas horas de sono a prepará-la, é mesmo muito intensa, por isso vai--me custar muito dizer-lhe adeus quando terminarem as gravações", confessa a atriz de 32 anos, natural de Vila Nova de Gaia.

"Mas depois de vir de férias – que são muito importantes para ‘limpar’ a máscara – já estou a pensar no que vou fazer a seguir e ansiosa pelo projeto que se segue", acrescenta Joana, que foi rainha do Carnaval do Vale do Sousa em 2015, uma experiência que ficará "para a vida". "Levei os meus pais e alguns amigos para festejarem comigo nesse ano o Carnaval e diverti-me imenso. A energia das pessoas é contagiante e passa para nós."

Já Pedro Rodil é um estreante nas lides carnavalescas: este ano vai apadrinhar o Carnaval de Ovar, um convite especial que não conseguiu recusar. "Isto surgiu com um filme que rodei em Ovar e que fala sobre o lado cultural do carnaval português e, sobretudo, o vareiro, da zona de Aveiro. E tenho esta primeira abordagem que prezo muito, por um lado porque foi feita através da cultura e, por outro, pela ligação à terra, a tradição, a identidade de um povo", assume o ator de 30 anos.

"Disseram logo: ‘Não podes ser rei, porque rei é uma pessoa da terra’ e isso ainda me fez gostar mais do Carnaval de Ovar, porque ainda é mais bonito do que vir para aqui alguém de fora… então fui convidado para apadrinhar, embora eu sinta que fui mais apadrinhado do que apadrinhei", desvenda Rodil, assumindo como preferidos os papéis que o obrigam "a remexer no interior". "As personagens que me mexem mais com as entranhas, com o psicológico, que me façam descobrir-me e redescobrir-me, são para mim as máscaras mais importantes e as mais bonitas também."

Mas não é fácil, desenganem-se os que acham que sim, pôr e tirar a máscara. "Costumo dizer que ser ator é algo cruel, as pessoas acham que é só glamour, mas o processo de ator é um processo doloroso, porque nós enquanto cidadãos normais se não quisermos saber o que se passa no mundo não precisamos de o fazer, mas enquanto atores temos de fazer exatamente o contrário, temos de ser mais atentos. Nós temos de perceber a perspetiva de um psicopata, de um toxicodependente, por exemplo, e com isso mexemos em coisas que habitualmente não mexeríamos", explica Rodil.

"Tem de haver uma distância muito grande para, ainda assim, continuarmos a construir-nos a nós mesmos. O pôr a máscara até é confortável para mim, porque sinto que quando a tiro continuo o meu processo de trabalho, mas enquanto Pedro", que em ‘Alguém Perdeu’ veste a pele de Luís Carlos Roldão, um agente da PSP afogado em dívidas que se deixa corromper. Uma máscara, é certo, mas que não é de Carnaval. É a vida como ela é nos ecrãs da CMTV e nas páginas do Correio da Manhã, histórias (muito) reais a que um lote de atores com provas dadas em Portugal vai dar corpo na ficção.
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