Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

ESCÂNDALO: BRONCA NO PARLAMENTO

No plenário europeu fomos chamados de “mafiosos”. Já tivemos um dos nossos a apertar o pescoço a um dinamarquês e até Mário Soares deixou cair a compostura perante uma francesa e o seu “discurso de dona-de-casa”
13 de Julho de 2003 às 00:00
A polémica gerada pelo primeiro-ministro Sílvio Berlusconi (ver caixa) na sua recente ida ao Parla-mento Europeu (PE) para apresentar as prioridades da presidência italiana da União Europeia foi grave, quase provocou um incidente diplomático, mas foi mais uma ‘gaffe’ às várias já registadas naquela câmara. Até aqui, o primeiro e mais grave dos incidentes no plenário europeu tinha sido protagonizado pelo ex-eurodeputado centrista português, Rosado Fernandes. O caso remonta a Dezembro de 1997, quando numa sessão plenária nocturna se debatia um relatório sobre o tabaco. Na discussão, o então eurodeputado pelo CDS-PP fez uma intervenção na qual contrariou a proposta do autor do relatório para acabar com os apoios comunitários aos produtores de tabaco dos Estados-membros da UE.
À intervenção do representante português seguiu-se uma do eurodeputado socialista dinamarquês, Freddy Black, que, por não conseguir ver Rosado Fernandes declarou: “Esse senhor que acabou de falar não está aqui no hemiciclo? Ele recebe dinheiro das tabaqueiras”. Ao ouvir estas palavras, o deputado português ficou de tal modo irritado que se levantou da cadeira, dirigiu-se a Black e apertou-lhe o pescoço.
Conta quem se lembra do episódio, em Bruxelas, que no dia seguinte Black andava de ligadura ao pescoço para tapar as nódoas negras infligidas pelo português que acabou por ser suspendo por dois dias. Na altura, o eurodeputado centrista afirmou ter a consciência de “não ter cumprido o regulamento”, mas que Black tinha atacado a sua honra.
O caso provocou o protesto dos restantes eurodeputados e fez correr muita tinta na Imprensa europeia. Rosado Fernandes pediu desculpa a Freddy Black e aos restantes deputados e na legislatura seguinte – a actual – retirou-se das listas às eleições europeias.
A este incidente seguiram-se outros episódios bastante menos polémicos, mas que mesmo assim deram que falar, como quando o ex-eurodeputado social-democrata Carlos Pimenta gritou com um colega inglês que tinha chamado “mafiosos” aos portugueses.
DISCURSO DE DONA-DE-CASA
Já na actual legislatura, a ex-presidente do Parlamento Europeu, a francesa Nicole Fontaine esteve no centro de alguns destes ‘percalços’. Durante a campanha para a liderança daquela câmara, Fontaine foi acusada de ter um “discurso de dona-de-casa” pelo seu rival nessas eleições, o ex-presidente português Mário Soares.
Posteriormente, Fontaine acabou por se envolver numa amarga troca de palavras com o eurodeputado alemão Hans-
-Gert Pöttering, quando este lhe pediu para suspender de funções uma outra eurodeputada – a espanhola Ana de Palacio – – a quem tinha sido acabado de diagnosticar um cancro. A atitude machista de vários membros do PE levou Fontaine a publicar um livro intitulado “As minhas lutas na presidência do Parlamento Europeu”.
Outro protagonista de episódios menos elegantes no PE foi Jean-Marie Le Pen, líder da extrema-direita francesa que recentemente viu o seu mandato de eurodeputado ser suspenso por ordem de um tribunal francês. Num destes episódios, Le Pen convocou uma conferência de Imprensa no PE, muito contestada pelos restantes eurodeputados, que só não terminou com uma cena de pugilato porque o líder extremista desmarcou a reunião.
A sucessão de casos de menor lisura como este levou o actual presidente do PE, Pat Cox, a propor a elaboração de um código de conduta para os deputados ao Parlamento Europeu que proíbe, por exemplo, a agressão física entre eurodeputados.
O DEPUTADO QUE APERTOU O PESCOÇO
O Parlamento Europeu é mais insípido que muitos nacionais. Embora aqui em Portugal, qualquer asneira política leve a tribunal porque se está num País de ‘sissis’.” Quem estabelece o paralelo é Rosado Fernan-des. A sua passagem pelo hemiciclo da Europa, entre 1994 e 1999, contribuiu e de que maneira para quebrar a monotonia. O eurodeputado pelos centristas deu origem a uma ‘lenda’ e alguns dos episódios mais inflamados que por ali tiveram lugar. Nomeadamente, um certo aperto de pescoço (ver texto principal). Só recentemente Berlusconi se evidenciou, num género truculento.
“Os eurodeputados chegam com muitos ideais mas depois, perante o bem-estar, limam as arestas e acomodam-se.” Não foi o seu caso. O estilo de Rosado Fernandes (que também foi deputado na anterior legislatura portuguesa) pouco teve a ver com pacatez. Lidou com alguns dos mais importantes ‘dossier’ da agricultura e nunca levou um desaforo para casa. À custa disso, em cinco anos construiu uma reputação de (pelo menos) irreverente.
Não é verdade que tenha respondido em latim, quando intimado a trocar o português por uma ‘língua civilizada’. “Isso é lenda. Deve ser à conta de um discurso mais culto.” Confirma, isso sim, que disse – mas em alemão – que Hänch era um mau presidente. E é verdade que se aborreceu à séria quando sugeriram que era pago pelas tabaqueiras. Saiu das estribeiras, apertou um pescoço e foi suspenso (ver texto principal). E, sobretudo, nunca perdoou, nem perdoa “aos partidários dos direitos dos animais”, aqueles que o consideraram “um selvagem”, quando se discutiu a questão dos vitelos franceses serem engordados durante seis meses a soro, sem sombra de palha. “O Hitler tinha leis ambientais e era muito amigo dos animais.” Foram, algumas vezes, os ambientalistas o seu ‘calcanhar de Aquiles’. “Os mais exaltados são os deputados verdes. Eram de uma espécie de nazismo, mascarado de verde, pela pureza da humanidade, numa visão ditatorial. Estilo: se não forem por nós, o melhor será desaparecerem.” Por isso, quanto ao caso Berlusconi aponta à ‘bandalheira’ primeiro o dedo.
À ITALIANA
A presidência italiana da União Europeia vai ficar para a história à conta de um incidente de boas maneiras, protagonizado por Sílvio Berlusconi. A entrada no Parlamento do primeiro-ministro de Itália, para explicar as prioridades do mandato, tinha sido ‘saudada’ por cartazes onde se podia ler: “Somos todos iguais perante a lei”, numa clara alusão à aprovação em Itália de uma imunidade especial que impede o chefe do executivo de ser julgado pelas acusações de corrupção de que é alvo. Berlusconi acusou o ‘toque’ e quando Martin Schulz o criticou pelas mesmas razões não se conteve – chamou, de forma intrincada, nazi ao deputado alemão. Disse o italiano que, na sua terra, um produtor estava a fazer um filme sobre um campo de concentração e que a Schulz calhava bem o papel de Comamdante do campo. Perante os apupos, Berlusconi frisou que a declaração estava imbuída de ironia mas não apresentou desculpas.
SÃO BENTO CALMO
O nosso Parlamento é pacato. Em clima de exaltação, os argumentos esgrimem-se num tom mais alto e até de pé. Até se pode ouvir um ‘pateta’ ou outros adjectivos semelhantes – que levantam inclusive crispação – mas nada que se compare aos desaguisados da inglesa Câmara dos Lordes, à variedade linguística do Parlamento Europeu e muito menos às ‘rixas’ entre deputados de Hong Kong. Eis alguns exemplos da história da nossa democracia.
OS NERVOS DE FERREIRA LEITE
“Ó senhor presidente, mande calar ali o senhor deputado José Sócrates que me enerva!” Era o debate em Comissão Parlamentar de Economia e Finanças da proposta de Orçamento do Estado para 2003. Tudo estava tranquilo, as coisas passavam-se de feição para Manuela Ferreira Leite. Até que a ministra se exaltou com a insistência do socialista. Mesmo repreendido, José Sócrates continuou a querer falar. O presidente da Comissão, João Cravinho, negou-lhe a oportunidade. O insistente ‘candidato’ a interlocutor ganhou a sua oportunidade quando conseguiu trocar a vez com Vítor Baptista. Era ‘só’ para falar de uma certa “mancha no currículo” – a ministra, disse, defendia sempre a aplicação do critério do défice de três por cento, tinha deixado o País, em 1993, com um défice de 6,8 por cento do PIB. “O senhor não sabe o que está a dizer. O saldo primário nesse ano foi de zero. Em nome do crédito do seu partido, não fale mais nisso”, rematou Ferreira Leite.
O NÚMERO DE MOTA AMARAL
Não foi um esgrimir de ideias, mas o episódio mais irreverente que se viu na Assembleia de 2002 e nos últimos anos. Protagonista: o seu presidente, João Bosco Mota Amaral. A discussão era sobre a Lei da Segurança Social. Como lhe cabia em função, o líder da AR dizia: “cumprido o regimento, artigo 69º...” e rematou: “curioso número”. As duas palavras provocaram a gargalhada que não roubaram a compostura ao fleumático Mota Amaral: “Não sei porque se estão a rir. É preciso evacuar o hemiciclo?!” E deu a palavra ao deputado do PCP, para um pedido de esclarecimento ao tutelar da pasta correspondente. Bagão Félix tinha saído, por via dos protestos que a sua lei originara. O presidente da Assembleia da República não se deu por achado e declarou do seu solene posto que não tinha dado ordem para “evacuar o ministro”.
O TRUCA-TRUCA DE NATÁLIA
Um dos ‘mimos’ mais célebres de São Bento teve como protagonista a poetisa Natália Correia. Corria 1982, o então deputado João Morgado (CDS) tinha terminado um eloquente discurso sobre o tema em debate: a interrupção voluntária da gravidez. Dizia: “A igreja Católica proíbe o aborto porque entende que o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho”. A então deputada da bancada social-democrata não perdeu a veia e ripostou em verso: “Já que o coito diz Morgado/ tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menino ou menina / e cada vez que o varão/ sexual petisco manduca, / temos na procriação/ prova de que houve truca-truca, / sendo só pai de um rebento, / lógica é a conclusão / de que o viril instrumento/ só usou – parca ração! uma vez. / E se a função faz o órgão – diz o ditado - / consumada essa excepção, / ficou capado o Morgado” .
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)