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Correio da Manhã

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Está na moda: vamos tirar uma selfie?

A palavra que entrou no dicionário de Oxford e que apanhou Barack Obama numa polémica.
8 de Janeiro de 2014 às 08:57
O momento da selfie no dia 10, no memorial de Mandela
O momento da selfie no dia 10, no memorial de Mandela

Os jornais internacionais já lhe chamam o ‘selfiegate’: no memorial de Nelson Mandela, Barack Obama foi ‘apanhado’ a tirar uma selfie (um autorretrato) com a primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt e com o primeiro-ministro britânico David Cameron. A fotografia dos três correu Mundo e muito se especulou sobre a cara ‘fechada’ da primeira-dama dos Estados Unidos, que, a dada altura da cerimónia, chegou mesmo a sentar-se entre o marido e a governante. Apesar disso, o fotógrafo que registou o momento garante que Michelle não estava com ciúmes: ela própria tinha estado a brincar minutos antes do retrato.

Ainda assim, a selfie não é invenção de Obama, tão-pouco do mundo digital. O primeiro registo reconhecido como tal data de 1839, assinado pelo fotógrafo Robert Cornelius, mas foi agora, no século XXI, que a selfie entrou no dicionário de Oxford. Os responsáveis pelo dicionário justificaram a escolha com a fama: as citações a selfie cresceram 17 000% em 2013. Foi também considerada a palavra do ano, empurrada pelos smartphones (os telemóveis que tiram as fotos e têm acesso à internet) e pelo Instagram (onde estas se publicam). ‘Selfie’ lutou pelo pódio da palavra do ano com palavras como ‘twerk’ (um estilo de dança que tem dado que falar graças a Miley Cyrus), ‘bitcoin’ (moeda digital) ou ‘binge-watch’ (ver diversos episódios seguidos de uma série), que também marcaram a atualidade mundial. Nos três anos de vida do Instagram, a rede social de partilha de fotografias, mais de sessenta milhões de imagens publicadas na aplicação têm a hashtag #selfie. Nove em cada dez pessoas entre os 13 e os 24 anos publicam autorretratos, revelou o instituto americano Pew Internet Research em maio deste ano.

Obama e Cameron ultrapassam largamente a faixa etária que mais tira selfies, mas isso não os impediu de aceitar o convite da governante dinamarquesa para tirar uma foto com ambos. De acordo com o jornal britânico ‘Sunday Times’, Thorning-Schmidt pretendia apagar a fotografia devido à controvérsia. Todavia, Cameron (que foi questionado sobre isso no Parlamento) terá observado que a imagem devia ser vendida e reverter para instituições de caridade.

Uma estética?

"Na nossa era digital, esses rápidos autorretratos são numerosos e florescentes, e não são só o espelho ou o braço erguido que caracterizam as selfies como um género, mas também como uma estética particular. A selfie é sobre reflexão, identidade e reconhecimento, os seres humanos querem controlar a forma como são vistos", escreveu o investigador dinamarquês Bent Fausing, da Universidade de Copenhaga, num artigo dedicado a esta tendência. "A selfie permite que as pessoas mostrem os sentimentos sem artifícios, sem uso de filtros que distorcem factos", disse por outro lado o vietnamita Joshua Nguyen, que criou a primeira aplicação exclusivamente dedicada aos autorretratos. A concorrência não adormeceu e criou uma App para rivalizar com a selfie vietnamita. O ‘Shots of me’ foi financiado por vários investidores, entre os quais o cantor Justin Bieber (um dos grandes fãs destes autorretratos) que apostou 1,1 milhões de dólares no negócio, provando que os autorretratos são mais do que uma tendência: são uma tendência que rende muito dinheiro.

Mas nem só os artistas e os políticos se fotografam em autorretratos. Até o papa Francisco já foi apanhado numa selfie – quando um grupo de jovens que visitou o Vaticano quis registar para a posteridade o encontro com o Sumo Pontífice da Igreja Católica – e o líder tibetano Dalai Lama também não escapou à selfie de uma adolescente. A tendência ganhou uma força tal, que rendeu na internet montagens de fotografias com famosos: é por isso possível encontrar na rede o príncipe William a esticar o braço para eternizar o beijo real com Kate no dia do casamento e até Winston Churchill e a ex-primeira-dama americana Jacqueline Kennedy foram ‘apanhados’ em selfies forjadas que circulam na web.

Selfies perigosas

No início de dezembro, o jornal norte-americano‘NewYork Post’ fez capa com esta nova moda. ‘Não salte ainda, deixe-me encontrar um ângulo perfeito para tirar uma selfie’, dizia. O artigo mostra uma jovem mulher a tirar uma selfie,de sorriso pronto para a objetiva, enquanto atrás dela um aparato enorme tentava evitar o suicídio de um homem, que queria atirar-se de uma ponte em Brooklyn. Questionada pelos jornalistas sobre a atitude, a jovem recusou-se a dizer o nome e abalou do local,provavelmente envergonhada.

No Bronx, uma situação mais macabra:umhomemde23 anos assassinou a mãe e posou ao lado da cena do crime.No polo oposto, uma das fotografias que mais divertiu as redes sociais foi tirada pela repórter do Fox Fun Sports. Kelly Nash resolveu tirar uma selfie, sem reparar que por pouco não era atingida por uma bola de baseball atirada do campo. A bola aparece na imagem a poucos centímetros da cabeça da repórter.Também já há nome para o fenómeno:chama-se ‘photobomb’ quando algo ou alguém aparece inesperadamente numa selfie, provocando um efeito engraçado ou curioso na imagem em causa.

Certo é que os adolescentes abraçaram a ideia dos autorretratos muito antes de aparecerem as redes sociais e com elas a partilha pública de fotografias. Em 1914, a filha do czar Nicolau II da Rússia, Anastasia Nikolaevna, posou em frente a um espelho, aos 13 anos. Depois de tirar o retrato terá dito:"Foi muito difícil, as minhas mãos tremiam". O passo seguinte foi partilhar a imagem com os amigos e conhecidos. Como o Facebook não existia, Anastasia serviu-se do correio para enviar as fotos, dentro de cartas. As respostas terão demorado certamente mais a chegar do que um simples ‘like’ na rede social.

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