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“Estivemos o dia todo debaixo de fogo com granadas a caírem”

"Vi o primeiro morto durante um ataque ao quartel: um alferes pisou uma mina e acabou por morrer".
Manuela Guerreiro 1 de Dezembro de 2019 às 09:00
Embarquei a 20 de julho de 1967, no navio ‘Uíge’ e chegámos à Guiné cinco dias depois. O barco não atracou no cais de Bissau porque era muito grande e ficou ao largo. Seguimos numa lancha da Marinha, mais pequena e descapotável. Seguiam duas companhias, a minha tinha 180 homens. Chovia torrencialmente. Foi a primeira molha.
Seguimos em lanchas pelo Rio Cacheu, um dos maiores da Guiné. Essas lanchas eram atacadas muitas vezes no rio quando transportavam géneros alimentares e correio. O inimigo mandou algumas ao fundo. Morreram muitos da Marinha, coitados.

Viajámos toda a noite pelo rio e desembarcámos em São Vicente. Todos molhados. Seguimos para a etapa seguinte. O nosso destino era Ingoré, no norte da Guiné, que ficava a 20 quilómetros. Não havia carro para todos e alguns tiveram de ir a pé. Quantos 20 quilómetros não fizemos nós.

Estivemos três meses em Ingoré. Saíamos em patrulha, para operações ou reconhecimento. Às vezes só saía o pelotão, mas quando íamos para o mato e tínhamos recontros com o inimigo, ia a companhia toda. Quando sabíamos onde o inimigo tinha o acampamento, íamos lá atacá-los. Aí é que os embates eram fortes. Enquanto estávamos em Ingoré fomos destacados durante 15 dias para São Domingos, que fica a 40 km. Aí tivemos o primeiro combate a sério com o inimigo.

Fomos tentar fazer um assalto ao acampamento e estivemos o dia todo debaixo de fogo. Caíram tantas granadas à nossa volta. Alguns ficaram feridos, mas não era nenhum da minha companhia. No fim da operação, apanhámos 900 quilos de armamento. Quando os três meses chegaram ao fim, fomos para Bigene, perto da fronteira com o Senegal.

Éramos atacados todos os dias
Em Bigene foi pior. Éramos atacados todos os dias. Vi o primeiro morto durante um ataque ao quartel. Um alferes pisou uma mina e acabou por morrer. Durante os bombardeamentos tínhamos de ir para os abrigos subterrâneos para nos protegermos.

Quando fazíamos patrulha a pé pelo capim éramos emboscados e tínhamos de seguir com uma distância de três a quatro metros entre cada um. Como eu era das transmissões, tinha de pedir socorro. Era sempre assim: começava o tiroteio, baixávamo-nos e pedíamos ajuda aos aviões T6.

Falávamos sempre em código: ‘Aqui águia 1, aqui águia 1. Atenção águia, daqui crocodilo. Escuto.’ Depois pedia socorro. Só que o piloto não sabia onde nós estávamos e tinha de ser eu a orientá-lo. Levava o rádio e uma tela com dois metros de comprimento e meio metro de largura, colorida, para sinalizar a nossa posição. Tinha de descobrir uma clareira para estender a tela. Só quando tinha a tela à vista é que ele bombardeava dali para a frente. A aviação salvou-nos muitas vezes.

No regresso não podíamos usar o mesmo trilho. Tínhamos de abrir outro porque o primeiro podia estar armadilhado. O alferes que perdeu a vida foi atingido num carreiro desses. Queriam reconstruir uma ponte que estava destruída. Saímos do quartel em fila, com o alferes no meio. Saiu da fila e foi pisar a mina mais à frente. Ainda foi com vida para o hospital, morreu no avião a caminho da metrópole, oito dias depois.

Foi também em Bigene, já no fim da comissão, que recuperámos 10 toneladas de material. Encontrámos um aldeamento, onde não estava ninguém. Estavam a atacar a outra companhia que ficou sem munições. Um silêncio terrível. Não sabíamos onde eles estavam e pedimos o apoio do bombardeiro. Combinei com o piloto para que abanasse uma asa quando os visse. Não chegámos a dar um tiro.

Embarcámos no ‘Niassa’, em Bissau. Cheguei a 13 de junho de 1969, dia de Santo António. Tinha a família à espera.

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