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FANÁTICOS POR AVIÕES

São homens de negócios, sem tempo a perder, que se
deslocam sempre a alta velocidade. Para não esperarem no check in do aeroporto ou dependerem de horários, o ideal é terem avião próprio. Os que não têm, alugam.
6 de Setembro de 2002 às 12:25
José de Sousa Cintra foi dos primeiros empresários do País a ter avião particular. O primeiro aparelho, um Cessna 402, foi comprado “não por vaidade, mas por necessidade”, como garante o proprietário. Na época, antes do 25 de Abril, Sousa Cintra tinha apenas 29 anos e pagou por ele “cerca de 20 mil contos".

De lá até então, e pela necessidade de deslocações constantes (tem negócios no País e Brasil), o empresário já teve mais três aeronaves. A última, uma Piper Seneca II, desfez-se dela há cerca de dois anos.

Até porque o seu comandante favorito, Renato Martins, sofreu um acidente de mota e esteve muito tempo incapacitado de pilotar. Agora, quando precisa de se deslocar rapidamente, Sousa Cintra recorre aos serviços de uma empresa de aluguer de jactos executivos.

Como a maioria dos empresários portugueses. Além de não ser “louco” pela aviação, (pensou em tirar o brevet mas nunca o concretizou - já o filho Miguel fê-lo logo aos 17 anos), diz que os custos de manutenção são elevados e sublinha: “prefiro alugar”.

Para o futuro, outro aparelho poderá engrossar a lista de bens materiais do ex-presidente do Sporting. “Estou a pensar comprar um helicóptero “, avança.
Quem também não passa sem jactos executivos são os filhos de João Macedo Silva, o (falecido) fundador da RAR - Refinarias de Açúcar Reunidas.

Durante anos, o pai, ‘brevetado’, adquiriu modelos distintos mas, após o seu falecimento, há dois anos, os filhos João Nuno (presidente da administração da RAR) e Rui (administrador) decidiram-se pela venda do último Hawk Sidney 125-700.

Actualmente, para se esquivarem aos encargos de manutenção e às preocupações constantes (revisões, hangaragem, entre outros), quando não optam pelos voos comerciais, recorrem ao serviço da Net Jets, a participada da Air Luxor para a aviação executiva.

Aliás, esta é também a companhia preferida de José Veiga, famoso do meio futebolístico e empresário de Jardel que, sempre que precisa de partir para mais uma contratação milionária, aluga um dos tais jactinhos executivos.

Outro habitué nestas andanças é João Pereira Coutinho, conhecido pelo seu império (que inclui a SIVA, actual SAG). Alguns meios da Comunicação Social chegaram a dá-lo como proprietário de uma companhia de aviação - a Vinair - informação desmentida por Almeida Araújo, administrador dessa empresa.

“Até que gostaríamos que um empresário como o João Pereira Coutinho visse a Vinair como um bom investimento. Mas ele não tem nenhuma ligação de propriedade com a empresa”, rectifica, acrescentando: “É apenas um dos nossos melhores clientes”. Isto porque a Sociedade de Gestão e Controle - SGC, uma das empresas de Pereira Coutinho, “representa perto de 50% do volume de negócios da Vinair.”

Outro business man apaixonado por aviões é Hipólito Pires, patrão da Hipogest (Hertz e Seat), que estendeu o sucesso dos seus negócios de quatro rodas ao ramo da aviação. Em poucos anos, a sua companhia - a Heliavia - tornou-se num dos maiores operadores europeus na aviação executiva.

A sua frota contempla três modernos aviões de fabrico Dassault, os Falcon 900, 50 e o 50EX e o Eurocopter France, na categoria dos helicópteros. Não raras vezes, o empresário recorre a um destes jactos para as suas deslocações privadas, evitando assim o stress dos aeroportos.

Já para Paulo Mirpuri, a paixão pelas duas asas vem de longe. Herança do pai, Arjar Mirpuri - “que aos 18 anos já tinha um avião” - Paulo começou a pilotar aos 16 anos, num dos dois aviões do pai. O Aerocomander, era o preferido do irmão Carlos; o Cessna, oferta do pai, o seu predilecto. “Fomos dos primeiros, em Portugal, a utilizar aviões para uso privado, há mais de 20 anos”, recorda.

Tudo porque “chegar ao Algarve, por exemplo, era uma dor de cabeça”. As deslocações sempre foram uma constante para os Mirpuri - “ para negócios ou lazer” - e Algarve e Espanha eram destinos frequentes sob a pilotagem dos próprios manos Mirpuri, ou dos seus comandantes.

Ao longo dos anos, Paulo foi melhorando o seu know-how, “mais como hobby”, e coleccionou as licenças que hoje lhe permitem conduzir um Airbus. “Mas, a título pessoal, o que prefiro é o Falcon 20”, admite.

Alguns outros “grandes” senhores da alta roda empresarial serão possuidores de jactos executivos, mas não é fácil que o admitam. Segundo o Presidente da Air Luxor, estes jactos podem custar entre cinco milhões de euros (um milhão de contos) e 30 milhões de euros (seis milhões de contos).

Muitos estão registados em nome das empresas dos seus proprietários, servindo também os quadros executivos das diversas administrações. “Luxos” que não são para todas as bolsas…

Afinal há estrelas no céu

Fanático da aviação, John Travolta não esconde a paixão pelas alturas. A tal ponto que até deu um nome original a um dos seus filhos: Jet. Tem todas as licenças para pilotar os maiores aparelhos do ar e, se houvesse óscares na aviação, este ano era capaz de ser ele a recebê-lo, como embaixador da boa vontade.

Tudo porque durante Julho e Agosto, o actor “atirou-se” aos comandos do seu próprio Boeing 707 - que usa como jacto executivo - para a tour Spirit of Friendship (Espírito da Amizade). Passando por 10 países, a missão tinha como principal objectivo desmistificar o medo de andar de avião, sobretudo depois da tragédia de 11 de Setembro passado.

Outras duas estrelas brasileiras, os cantores Simone e Roberto Carlos, são também fãs dos “jactinhos”. Com a melhoria das classes executivas, Simone passou a privilegiar os voos comerciais para o longo curso. Mas, em distâncias mais curtas, continua a escolher um jacto - o Lear Jet 35 - para fugir ao stress dos aeroportos e, quem sabe, aos fãs.

Também Roberto Carlos é adepto do aluguer de jactos executivos, sendo o seu predilecto o Lear Jet West Wind 1 Gasto. Nas viagens, segundo uma funcionária da empresa de aluguer de aeronaves Extra, o “Rei” não dispensa uma caixa de trufas.

Sem conhecimento dos gostos mais exóticos de outros “ilustres”, fica a referência de algumas personalidades que já voaram em jactos “portugueses”: Bill Clinton, Bruce Willis ou David Duchovny, a bordo do Falcon 900 da Vinair, não acusaram o medo de andar de aviões.

Ultra ligeiros: prazer a baixa altitude

Parecem “mosquitos” à beira dos grandes Boeing ou Airbus de longo curso. Mas são motivo de adrenalina e prazer para vários portugueses.

Mais acessíveis do que os jactos executivos - podem custar entre 1500 e 16 mil contos - os custos de manutenção não são muito expressivos e o maior trunfo é a proximidade do terreno e, consequentemente, a grande visibilidade.

Os ultra-leves podem voar até 15 mil pés (4500 metros de altitude) e os seus dois passageiros usufruem daquilo a que João Jordão, da direcção da Associação Portuguesa Aviação Ultra-Ligeira, chama de “visão de águia.

” Em Portugal, “existem à volta de 700 ultra-ligeiros, mas apenas 300 ou 400 estão registados”, refere. Um número revelador das emoções fortes em duas asas, menos de 460 quilos de peso e velocidades médias de 150 kms horários.
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