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Feitos (ou não) um para o outro

Pessoas muito diferentes apaixonam-se umas pelas outras. Mas não é certo que, nas relações humanas, os opostos se atraiam. Ou, pelo menos, que se mantenham durante muito tempo unidos. Ainda assim, há excepções.
20 de Maio de 2007 às 00:00
Feitos (ou não) um para o outro
Feitos (ou não) um para o outro FOTO: Ricardo Cabral
Oanúncio do casamento causou surpresa. Só os mais optimistas entre os amigos de Catarina, actualmente com 38 anos, e João, com 40, acreditaram que a união podia dar certo. Ela era e, assume, ainda é ‘um bocado cabeça de vento’. Ele tem os pés no chão. Estão casados há dez anos. Têm três filhos. Dizem que são felizes. Os amigos do casal já se habituaram.
“O que é curioso é que são principalmente os outros que nos consideram opostos”, ri-se Catarina, procurando os olhos do marido, que mantém as costas direitas, ligeiramente afastadas do encosto. Ela senta-se à vontade no sofá. “É verdade que sou mais faladora e não me preocupo tanto com as coisas, mas no resto não vejo grande diferença.”
Os dois apaixonaram-se quando frequentavam Direito na Universidade de Lisboa. “Ter conhecido o João foi a única coisa boa do curso.” Ela trabalhou como jurista numa instituição de crédito, mas acabou por se despedir. Neste momento está sem trabalho. “Eu não tinha nada a ver com aquilo. Reuniões. Escrever cartas de acordo com minutas, sempre com as mesmas palavras.” Catarina não acaba a frase sem produzir um esgar de repulsa. O João ri-se.
“É claro que somos muito diferentes. Para a Catarina é tudo cor-de-rosa.” João acabou o curso de Direito com boa nota. Exerce a profissão num escritório de Lisboa. O que viu nela? “Falava sempre com imenso entusiasmo das coisas. Do que lhe interessava, bem entendido. Não de Direito Comercial...” O reparo vale-lhe uma palmada no braço.
E ela, o que terá visto nele? “O João é de confiança. Sei que vai correr tudo bem quando estou ao pé dele.”
O que pede maior dose de criatividade – escolher a cor da tinta para pintar o quarto do filho mais novo, por exemplo – é da competência da Catarina. Tarefas que exigem organização – como elaborar a lista de compras para a semana – é o João a desempenhá-las.
O que mais os preocupa é o desacordo envolvendo a educação dos filhos. Catarina queria que frequentassem uma escola pública. O João escolheu uma privada e acabou por levar a sua avante. “O mais importante é não assumirmos as nossas diferenças de opinião diante deles.” É o João quem afirma e, desta vez, Catarina concorda.
NÃO É QUALQUER FORÇA DE ATRACÇÃO
Os opostos até podem atrair-se, mas não é qualquer força de atracção que os mantém unidos. “Eu achei-lhe piada. Ela era muito extrovertida, andava sempre em festas. Era uma rapariga popular na escola.” O Rodrigo Machado, 21 anos, refere-se à Elsa, com quem namorou durante três meses no Verão passado. Bastou-lhe. “Ela não pára. Nunca quer estar em casa. Não fica mais de meia hora numa esplanada. É impossível acompanhá-la.”
O desastre amoroso experimentado pelo Rodrigo está mais de acordo com os resultados de pesquisas científicas recentes do que o casamento de João e Catarina. Um estudo realizado na Universidade de Cornell, nos EUA, sugere que a maioria dos homens e mulheres do Ocidente procura parceiros com características não muito diferentes das suas próprias.
Ou seja, à luz desta investigação, não é verdade, por exemplo, que os homens mais velhos procurem mulheres novas que possam dar-lhes filhos. E as mulheres prefiram homens com capacidade financeira para sustentar os filhos. O cientista social Stephen Emlen questionou quase mil pessoas para chegar à conclusão de que os homens que não são nem muito bonitos nem muito inteligentes escolhem mulheres com as mesmas características. E vice-versa. Para Emlen, os casamentos duradouros são entre pessoas que ‘jogam no mesmo campeonato’, ou seja, com interesses comuns.
“Sinceramente, não creio que deva ser estimulante uma pessoa viver dez anos com alguém muito parecido consigo próprio. Deve ser qualquer coisa como viver sozinho”, contrapõe Catarina. “Depende do que as pessoas querem da vida”, opina João. O seu casamento contradiz o resultado da investigação. O casal não parece incomodado. Ele de costas direitas. E ela com as pernas dobradas debaixo do corpo.
QUANDO AS FAMÍLIAS TAMBÉM SÃO OPOSTAS
‘Dharma’ e ‘Greg’, personagens de uma série com o mesmo título que passou na RTP 2, não têm apenas de conciliar as respectivas personalidades – ela é liberal, descontraída, professora de ioga e pobre eele conservador, tenso, advogado e rico. O casal lida também como pode com a extraordinária diferença, quase antagonismo, entre as famílias. Os pais de ‘Dharma’ são hippies de meia-idade, vegetarianos, críticos do consumismo e do capitalismo. Os pais de ‘Greg’ são, ou pensam que são, exactamente o contrário: a mãe veste fatos saia-casaco dos mais reputados estilistas e preocupa-se com apagar as rugas do rosto e o pai pertence aos melhores clubes de cavalheiros.
MARIA JOÃO, CANTORA
“NÓS ERÁMOS TÃO OPOSTOS QUE ACHEI QUE DAVA UMA BOA FRICÇÃO"
Ele é tranquilo. Ela é hiperactiva. Maria João e Mário Laginha são músicos e já foram namorados. “Apaixonámo-nos e estivemos juntos oito anos. Complementávamo-nos”, conta Maria João. “Nós éramos tão opostos, não em termos de gostos ou actividades, ou música, mas os nossos feitios eram tão diferentes que eu achei que dava uma boa fricção. Durante bastantes anos correu muito bem.” A relação amorosa acabou. A musical continua.
DIFERENÇAS E TENSÃO ERÓTICA
A atracção de opostos é um tema recorrente no cinema. Personalidades muito diferentes costumam gerar grande tensão erótica. Pelo menos, no ecrã
1 - BOGART E BACALL
Ele, Humphrey Bogart, não era só 25 anos mais velho do que ela, Laura Bacall. Ele podia ser um homem sensual, mas não era bonito. Ela era deslumbrante. Ele não era especialmente alto para um homem. Ela tem 1,73 metros. Em ‘Ter ou Não Ter’, ele não sabia assobiar. Mas ela ensinou-o.
2 - CYBILL E BRUCE
Ela, Cybill Shepherd, dá corpo a uma modelo – linda, muito bem vestida e educada. Ele, Bruce Willis (com cabelo), é o detective – politicamente incorrecto e que não prima pela polidez. Uma diferença tão acentuada de personalidades gera enorme tensão erótica na série ‘Modelo e Detective’.
3 - FIONA E SHREK
Ela é uma princesa. Ele um ogre, atormentado pela boa disposição de um burro verborreico. Ela é Fiona. Ele Shrek. Nada pode, à partida, uni-los, a não ser a paixão e, no final, uma inesperada semelhança. Mas no mundo da ficção, até o burro pode ser amado por um dragão fêmea.
4 - MEG E KEVIN
Ela é ‘certinha’e julga que pode controlar tudo. Pelo menos até o noivo fugir para Paris e, mais grave, para os braços de uma francesa. Ela vai atrás do noivo. No avião encontra-o a ele – um francês descontraído e ladrão. Ela é Meg Ryan. Ele Kevin Kline. O filme é ‘O Beijo’.
SURPRESA (Opinião de Dulce Garcia, jornalista)
Os opostos atraem-se. É o que dizem as leis da Física. Se aproximarmos dois ímanes com pólos opostos, eles agarram-se. E não se largam mais. Mas pessoa não é íman, pois não?
É verdade que a diferença começa por ser um afrodisíaco. “Gosto dela porque sabe o que quer e di-lo bem alto, sem medo de chocar o Mundo”, diz o tímido. “Ele enlouquece-me porque despreza o futuro e vive cada dia como se fosse o último”, diz a certinha.
Lindas frases, sim senhor. Três meses depois, o fascínio deu lugar a uma certa comichão: “Sim, ela é gira, mas tem um bocadinho a mania”; “OK, damo--nos bem, mas é impossível fazer planos. Com ele nunca se sabe…”
Daqui para a frente, é sempre a piorar. E, a dada altura, a diferença do outro – que atraiu como um íman – transformou-se num defeito terrível. Uma nódoa que se quer arrancar à força. “Já não posso com ela. Nunca se cala, sabe tudo”. “Deixei de ter paciência para aquela instabilidade toda. Ele é demasiado irresponsável, quase infantil”.
Quantos noivos fresquinhos vão de lua--de-mel armados em pombos e voltam como falcões a disputar uma minhoca. Ela adora praia, ele não suporta ter um grão de areia nos ténis; ele é doido por discotecas; ela dificilmente mantém os olhos abertos depois das 11 da noite. E por aí fora…
Nem é preciso tanta teoria. Olhem para os casais que se passeiam de mão dada no Parque das Nações ou nos corredores dos centros comerciais. É difícil encontrar um betinho com uma gótica, uma hippie com um engravatado. O que talvez queira dizer que as pessoas já nem arriscam a diferença, quanto mais o oposto.
Faz lembrar aqueles indivíduos que comem sempre a mesma coisas nos restaurantes. É verdade que já sabem que o bife é macio e que as batatas foram acabadas de fritar. Mas nunca vão descobrir, com surpresa, que afinal o bacalhau com todos é só uma figura de estilo. E a vida sem surpresas é muito chata, não acham?
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