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“Fiquei com uma perna desfeita em Angola”

Pisei uma mina antipessoal, mas mesmo assim tive mais sorte do que o camarada Machado, de santo Tirso, que morreu na mesma zona.
23 de Junho de 2014 às 15:00
A minha guerra, Arnaldo Soares, Angola, Ultramar, Guerra colonial
A minha guerra, Arnaldo Soares, Angola, Ultramar, Guerra colonial

A minha passagem pela Guerra Colonial foi curta mas muito pesada. É importante que esta nova geração fique com uma ideia do nosso sofrimento, e por isso aqui fica a minha história. Embarquei para Angola a 17 de setembro de 1965 no paquete ‘Vera Cruz'. Assim que chegámos a Luanda fomos para o Grafanil, antes de seguirmos para o Norte, onde o nosso batalhão foi dividido. Uma companhia ficou na Beira Baixa, outra em Nambuangongo, e a minha foi para o Quixico. Aí ficámos instalados numa enorme fazenda de café, onde dávamos proteção aos civis e trabalhadores e ao mesmo tempo patrulhávamos toda aquela zona considerada de alto risco devido aos muitos terroristas que ali atuavam. O meu pelotão era um dos operacionais e a nossa missão era fazer reconhecimentos e fazer escoltas nas picadas.

Foi assim que começou o nosso tormento: assisti a situações chocantes com camaradas meus e ainda não tinha passado um mês no Norte quando fui evacuado de emergência para o hospital de Luanda para ser operado ao apêndice. Estive quinze dias internado e um mês depois de regressar estávamos a fazer uma escolta a uma coluna de camiões que faziam o abastecimento de géneros para a nossa tropa - e para civis que habitavam na fazenda - de Nambuangongo para Quixico, quando sofremos o primeiro ataque. Foi uma desorientação total por falta de experiência mas, como reagimos com uma grande coragem, os terroristas fugiram após várias
bazucadas para as palmeiras onde eles estavam escondidos. Quando ali chegámos, era só corpos desfeitos num mar de sangue. Tivemos ainda alguns outros acidentes nesta picada, mas nada de tão grave.

Numa das operações que fizemos, andámos de noite até ao amanhecer, entrámos num acampamento de terroristas em plena mata. Nessa altura também fomos auxiliados pelos paraquedistas devido à dimensão da operação. Foi muito chocante, porque matámos tudo quanto apareceu à nossa frente: adultos, velhos, crianças e até animais, foi um mar de sangue e crueldade. Mas se assim não fosse, morríamos nós.

A minha companhia fez muitas operações e foi numa delas que morreu o primeiro e único camarada devido a uma mina antipessoal. O Machado, de Santo Tirso, tinha entrado numa densa mata quando pisou uma mina que estava no trilho. Ainda ajudei a apanhar bocados de carne para levar numa maca para o acampamento. Lembro--me que quando saíamos para uma operação orávamos a Deus, pedíamos para regressar. Era completamente inesperado o nosso destino.

Deus estava comigo

A seguir fui eu. Também numa operação na mesma zona pisei uma mina antipessoal, mas tive mais sorte do que o meu camarada. Deus estava comigo e não morri. Fiquei ferido, com uma perna praticamente desfeita e com o corpo cheio de estilhaços. Quando chegaram as viaturas, já eu estava a chegar ao acampamento com a ajuda dos meus camaradas, com sangue a escorrer pelo corpo. No dia seguinte fui novamente transportado de helicóptero para o hospital de Luanda, onde permaneci três meses até ser evacuado para Portugal, para o Hospital Militar Principal, onde estive até 1972 devido a muitas operações.

A perna mais ferida acabou por gangrenar e teve de ser amputada. Devido a todos estes problemas fiquei a sofrer de stress pós--traumático. O meu batalhão tinha 600 homens e no total tivemos 12 mortos em combate até ao fim da comissão. lD

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