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Francisco José Viegas: "Interessa-me o mundo dos derrotados"

É o nono livro do inspetor Jaime Ramos. Quase trinta anos com este personagem.
Fernanda Cachão 24 de Novembro de 2019 às 09:00
Francisco José Viegas
Francisco José Viegas FOTO: Direitos Reservados

O inspetor está de regresso. ‘A Luz de Pequim’ é o nono livro protagonizado por Jaime Ramos, o personagem criado por Francisco José Viegas há quase trinta anos. Oportunidade para falar sobre policiais, literatura e de como as boas personagens são más.

Como é que lhe apareceu o inspetor Jaime Ramos?
Tinha publicado ‘O Crime em Ponta Delgada’, o primeiro romance policial que escrevi, que tinha um detetive de Lisboa, melancólico, Filipe Castanheira, que não funcionava noutro contexto. Se quisesse contar outro tipo de história, precisava de um detetive mais bem humorado, que cumprisse certos preceitos da investigação policial, mas também não queria um detetive tipo, com problemas de álcool, divorciado três vezes e com uma série de maleitas mentais e sociais. Queria um tipo conservador numa cidade conservadora, que o ceticismo não o transformasse num detetive corrente, mal vestido, sujo e alcoólatra. O Jaime Ramos nasceu assim, do desejo de fazer um detetive pequeno-burguês, sensato e cordato.

Quando o criou pensou que ele iria durar tanto tempo?
Não, pensei que ele iria ser um comparsa do Filipe Castanheira, no ‘Morte no Estádio’ e nos outros dois que se seguiram. O Jaime Ramos só começa a autonomizar-se em ‘Um Céu Demasiado Azul’, em que toma a iniciativa, viaja, começa a ter ajudantes como o Isaltino Jesus, que é o seu Watson, e então percebi que ele já não dependia de mim e tinha vida própria. Agora há uma relação de ciúmes entre mim e o Jaime Ramos, em que ele me ultrapassa claramente. Em França, Itália, Alemanha, os livros saem com uma cinta a dizer "mais uma investigação do Jaime Ramos" e o meu nome em pequenino. Eu lembro-me de em Itália, num lançamento ao final da tarde, de um senhor da televisão italiana perguntar-me "o que é que o Jaime Ramos vai cozinhar?" E eu: "O Jaime Ramos não sei mas eu..." E ele: "Eu de si não quero saber, quero saber do Jaime Ramos".

Nunca lhe apeteceu matar o Jaime Ramos como o Arthur Conan Doyle quis fazer ao Sherlock
Holmes?
Não pôde, teve de reabilitá-lo. Não depende de mim. Às vezes penso que tenho de me libertar do Jaime Ramos para escrever outras coisas que quero escrever, outro tipo de romances, outras histórias, mas depois tenho pena... No fundo já vão quase trinta anos de vida em comum, é muito mais do que qualquer casamento.

Tem pena ou tem receio de que aquilo que não tenha o Jaime Ramos não tenha o mesmo sucesso?
Noutro dia escreveram no ‘Le Monde’ uma crítica muito bonita a um dos meus livros que saiu agora em França, em que se dizia que o fulano, eu, se aproximava cada vez mais de Simenon e que Jaime Ramos está a superar Maigret. Eu não só teria pena como acho que teria perdido uma oportunidade.

Já disse que ele faz e diz coisas com as quais não concorda, como por exemplo?
Há coisas que vão de acordo com o personagem, que eu não aprovo. O Petros Markaris é comunista e o detetive dele é um reacionário do pior. Tento construir o Jaime Ramos como uma pessoa com uma história diferente de mim, para que ele não faça as coisas que eu já fiz.

E tendo Jaime Ramos vida autónoma, como estamos a perceber, o que é que ele poderia dizer das suas múltiplas atividades: escritor, poeta, jornalista, cronista, dramaturgo, editor, jornalista, blogger, comentador e ex-secretario de Estado?
Chamava-me tolo, provavelmente. Era capaz de gozar comigo, ser sarcástico mas poderíamos ir almoçar ou jantar num daqueles sítios que ele vai. Mas era capaz de não ser uma relação fácil.

E porquê?
Eu acho que não sou uma pessoa difícil, não tenho de fingir nos universos onde me movo, de criar muitas heteronímias. Uma vez, numa conferência, havia uma senhora que me dizia como é que eu tinha criado um personagem completamente banal, pequeno-burguês. O que era uma crítica, para mim foi um elogio. No contexto da literatura portuguesa, acho que o Jaime Ramos tem graça porque a maior parte dos personagens são professores universitários, jornalistas, pessoas da elite urbana ou semiurbana de Lisboa, e ele é ao contrário. Ele tem alguns dos meus tiques e tem outros que eu gostava de continuar a ter como fumar charutos e ir pescar para a ria de Aveiro.

O inspetor Jaime Ramos é um sexagenário, o Francisco José Viegas está a caminho de o ser. O que é que acha que o primeiro pode ensinar ao segundo sobre a forma como se olha para a vida a partir de certa altura?
Ele obrigou-me a antecipar uma idade que eu não tenho. Aquilo que o Jaime Ramos me ensinou: descobre o teu lugar. Quando faço asneira é porque não estou no meu lugar.

Qual é o seu lugar?
Há um lugar onde estou bem, que é se calhar rodeado de livros porque calhou-me isto. O meu ideal de vida é jantar em casa, ler um livro, ver uma série de televisão e adormecer no sofá, e escrever às quatro, cinco da madrugada.

Há uma enorme portugalidade nos seus romances. É por se r mais fácil escrever sobre aquilo que se conhece?
Sim, mas é preciso fazer um grande esforço para os personagens não repetirem o que a gente pensa. Há coisas que me incomodam em Portugal e essas tento transportá-las para o que escrevo. O rei D. Pedro quis pôr a Carta Constitucional em verso, eu não quero pôr as minhas ideias em verso ou prosa para serem literárias mas quero refletir ou embirrar. A gente escreve por embirração. Uma das coisas com que embirro é com o poder das oligarquias, do regime. Não é uma coisa de agora, é de 1836, 1850, 1870. Se formos ver a estrutura da Banca, dos governos, a gente vai atrás dos nomes e diz: ‘Ai estás aqui’. O poder, a falta de mobilidade social, são coisas que me incomodam. É preciso sair do universo que conhecemos e ir para os subúrbios onde se vive e onde se amarga, onde é difícil a vida. Os escritores têm muitas vezes essa dificuldade, de falar dos bebés abandonados, das mães dos bebés abandonados, porque querem fazer doutrina, querem fazer logo o retrato do País. É preciso dar voz a esse silêncio, o silêncio das pessoas que não têm voz, que se levantam às seis da manhã para apanhar o comboio. Isso não aparece nos romances portugueses.

O romance português quer ser exemplar e, tirando nos romances de três ou quatro - José Cardoso Pires, Agustina Bessa-Luís, Camilo Castelo Branco, e mais uns neorrealistas, -, não tem muita representação social. Eu lembro-me do José Cardoso Pires, quando já tinha tido os seus problemas de saúde, irmos jantar uma vez por mês: os lugares para onde ele me levava!
Pareceu-me que se poderá ter divertido quando em ‘A Luz de Pequim’ escreveu sobre um "banqueiro que transitava de banco conforme mudavam o governo"...

Sim. Uma das coisas que me interessa é o mundo dos derrotados, que não são só os pobres e os humilhados, são também os outros: o professor de Coimbra porque já não fabrica governantes nem conspira como antigamente, o próprio controleiro de Jaime Ramos porque já não comunica com o comité central como antigamente. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi quando tive de perceber os crimes da Noite Branca: acho que a generalidade das pessoas não sabe o quanto foi violenta a noite no Porto, mas há lá personagens que explodem, que são gente abandonada, que acabei por conhecer, que não reivindicam a sua humilhação e a sua perda para ganhar estatuto, mas lutam e vão à guerra. Maus de uma maldade que, por vezes, é chocante, mas que literariamente têm força.

Faz como o José Cardoso Pires, anda por ai para poder escrever?
Sim. Uma vez fomos os dois tomar um copo a um bar, ao fim da tarde, e estava lá um pintas. O Zé dedicou-lhe uma atenção que até a mim me surpreendia, até que disse: "Grande personagem." Nós fomos perdendo a capacidade de gostar daquilo que é diferente de nós.

Mas vai aos locais para poder escrever sobre eles?
Não há um lugar onde eu não tenha ido. Estou a falar de Macau, fui a Macau. De Pequim, fui a Pequim. E se estiver a falar de uma boate como a do ‘Um Céu Demasiado Azul’, eu tenho de ir ver como é o mundo das boates de província.

Se Jaime Ramos pudesse ter pertencido às equipas de investigação dos últimos casos de corrupção...
Seria terrível. Acho que ele desconfia do tratamento que se dá à corrupção. Ele trata de homicídios e sabe que o estrelato está nos primeiros crimes porque a sociedade precisa de normalizar a sua relação com o poder, de o escrutinar e de o limpar. Não sei como seria ele nesse papel, num thriller em vez de um policial. Provavelmente, não se sentiria confortável, pois não poderia tomar as liberdades que toma nesta investigação criminal [em ‘A Luz de Pequim’], em que se chega à conclusão que fez asneira grossa. Não se pode dizer que Portugal seja um País minado pela corrupção mas é um País tolhido e isso é uma coisa de que ele se dá conta. Dá-se conta dessa teia e pensa em coisas que não tem de provar como os senhores do Ministério Público antes de enfrentar o juiz Ivo Rosa.

E se autor e personagem pudessem falar sobre o cofre da mãe de José Sócrates...
Coisa extraordinária. Tudo isso é cómico, o cofre, as heranças, tudo faz parte de um mundo sobre o qual já tive a tentação de escrever para analisar as pessoas que vêm do velho Interior com ambições políticas e económicas muito fortes e se deparam com um Mundo onde eles sabem que o dinheiro circula e onde querem entrar. Do ponto de vista do escritor são personagens riquíssimos no relacionamento com os outros, no modelo de comportamento sexual, de construção da figura do valentão, na própria maneira como a linguagem se modifica. No caso do José Sócrates é notável, à medida que vai adquirindo poder - nada contra - torna-se num personagem riquíssimo; não me estou a referir a aspetos judiciais e criminais. Sem personagens destes, não teríamos thrillers. Nos livros podemos ter simpatia pelos mauzinhos. Os personagens dos romances policiais não são boas pessoas.

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