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Correio da Manhã

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“Fui ferido com estilhaços logo na primeira prova"

Perder camaradas, e foram vários aqueles que morreram no Ultramar, era sempre duro. Ainda hoje somos uma família.
Marta Martins Silva 8 de Março de 2020 às 13:00

Eu já estava em Moçambique desde os 14 anos quando chegou a hora de ir para a tropa, fui à inspeção, e logo por azar ou sorte fui aprovado para todo o serviço militar no meu dia de anos. A prenda de aniversário que me deram...! Dei entrada em Boane, Lourenço Marques, na escola de instrução em 1970 e apareceram lá os homens   dos   comandos   a   escolher pessoal. Acabei a recruta normal com o juramento de bandeira e depois fomos para Montepuez, para frequentar o terceiro curso de comandos da província.

Durante o curso lá sobrevivi à instrução e logo na prova operacional fui ferido, era o dia 18 de abril de 1971. Nós só recebíamos o crachá depois de ter contacto com o inimigo, e o meu contacto foi logo um estilhaço na coluna, que acabou por ser retirado numa operação no Hospital de Mueda. Eu até estava convencido que não ia receber o crachá, mas acompanhei o resto da companhia na instrução e a 24 de abril de 1971 recebi-o.

Lá   partimos   então   para   Mueda para a primeira operação, e logo numa das zonas mais perigosas... Como se vê estava tudo a correr bem, desde ir à inspeção no dia de anos ao estilhaço na prova operacional. Logo na primeira operação foram 29 dias de mato, estava-se então a tentar neutralizar o inimigo   ali   na   Base   Beira,   numa   das piores   áreas   de   guerra, na zona dos Paus, em Cabo Delgado. Fomos helitransportados e foi ferido um camarada de uma outra equipa   do   nosso   grupo   de   combate, com um tiro numa rótula que passou por baixo do assento do piloto. Entretanto, o general Kaúlza de Arriaga   também ia nessa leva e quando chegou a Mueda vinha com o helicóptero todo furado e branco como a cal da parede.

A gente quis saber o que é que se tinha   passado   e   ele   disse:   "Como veem, rapazes, eles também atiram a generais", frase que nunca mais esqueci. Começámos mal o caminho porque na primeira saída   sofremos   logo   um   morto   e, embora   tivéssemos   feito   alguns prisioneiros e apanhado duas ou três armas, o que mais nos incomodou foi ter perdido o camarada. Eram sempre momentos duros ver partir aqueles que partilhavam todas as horas connosco, éramos e ainda somos uma família uns para os outros.

Na primeira intervenção, no 27º dia   dos   29   de   permanência   na zona, ao tentar lançar uma granada de mão ofensiva por ter ouvido ruídos estranhos, ele tropeçou e sentiu que a granada tinha caído perto de onde o pessoal estava a pernoitar   e   tentou   evitar   o   pior lançando-se sobre a mesma.

Inimigos abatidos
Já numa terceira fase da operação, a companhia saiu de Omar em direção ao Vale do Rio Nacalenga, na zona da Base Limpopo, foi abatido um guerrilheiro quando   estavam   a   montar   uma   emboscada às nossas tropas. Numa contra-emboscada onde se capturaram 12 mulheres, que anteriormente nos tinham flagelado com fogo de morteiro 82, após a nossa reação em direção ao fogo de   morteiro.   A   nossa   tática   nos comandos era correr para a saída do morteiro para reduzir o ângulo que o apontador tem.

A 22 de setembro foi detetado um grupo   composto   por   cinco   elementos do inimigo, que se preparavam   para   emboscar   as   nossas tropas. Após serem detetados, o primeiro foi abatido, os outros foram perseguidos e abatemos mais um e capturámos os outros três. No dia 23, as nossas tropas foram violentamente   alvo   de   fogo   de morteiro de três lados, tendo um caído a cerca de 20 metros do pessoal. A retaliação não demorou. Aquando da recolha da companhia para Mueda, o quinto helicóptero da primeira leva foi atingido, tendo-se despenhado e ardido   a   cerca   de   200   metros   de Mueda, tendo morrido o piloto e os outros seis ocupantes. Que descansem em paz. Serão sempre recordados   por   todos   nós,   assim como os restantes da Companhia.

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