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“Furriel foi atingido com um foguete em cheio no peito”

Depois do 25 de Abril, uma guarnição abandonou o quartel e as armas. Foi atacada pelos ‘turras’ e mataram dois soldados.
Manuela Guerreiro 3 de Maio de 2020 às 11:00

Tirei a especialidade de eletricista de   aviões   e   estava   colocado   na Base   Aérea   nº.   7,   em   S.   Jacinto, Aveiro, quando veio a ordem para embarcar. Cheguei a Moçambique a 20 de junho de 1973. Fiquei na Beira a aguardar colocação e enquanto esperava fui dar sangue (A Rh-, grupo muito raro) porque tinha   havido   um   acidente   com duas Berliet, cheias de soldados, que se despistaram ao descerem para uma ponte, com uma curva acentuada à entrada. A velocidade era excessiva, por terem medo de serem atingidos e, ao atravessarem o rio Gorongosa, caíram à água. Houve um número elevado de baixas, daí o pedido urgente de sangue. A guerra aproximava-se.

Após duas semanas de espera, veio, finalmente, a minha colocação: Nacala, Esquadra 501 Tigres (aviões de hélice). Permaneço em Nacala cerca de cinco meses e lá vem a ordem para embarcar para Mueda, em destacamento. Aí estremeci e assaltaram-me todos os pensamentos derrotistas: "Vou para o pior sítio da guerra em Moçambique… não regresso vivo."

Embarquei   num   Dakota   (DC3) para me deslocar até Mueda e foi nessa viagem que comecei a voar a sério… a rapar (voo rasante às árvores), por causa dos mísseis que os ‘turras’ já usavam. Foi uma sensação única.

Transporte de feridos
As coisas foram decorrendo no que para nós, Força Aérea Portuguesa, eram   normais:   abastecimentos, correio, evacuações, proteção aérea, etc. Desta normalidade destaco as evacuações porque, aí sim, as entranhas revolviam-se, tal os casos desesperados que transportávamos. E houve duas que me afetaram sobremaneira. Uma, em que o soldado que estava a ser retirado se levantou da maca e queria ir para os bancos da frente do avião (um Dornier   DO27).   O   piloto   vira-se para mim e grita: "Segure-me esse gajo, não o deixe vir cá para a frente, senão a coisa complica-se". Os DO27, naquela altura, tinham duplo comando, ou seja, no lugar do mecânico também existiam pedais e ‘manche’ e, se o ferido passasse para a frente, era mesmo complicado.   Levantei-me   e,   passando para o lugar de trás, agarrei no soldado e obriguei-o a sentar-se na maca,   não   sem   antes   ter   levado uma   valente   vomitadela   que   me encharcou.   O   rapaz   estava   com hepatite e paludismo e muito debilitado. Quando cheguei a Mueda tive de fazer uma desinfeção geral. Como não estava lá o enfermeiro, abri a torneira de purga do avião, esfreguei-me com gasolina, ficando com a pele branca, apesar de ir logo    para   o   banho…   de   vez   em quando, lá se fazia uma asneirola.

A   outra   evacuação   que   nunca mais esqueci e me afeta até hoje foi feita de Porto Amélia-Mocímboa da Praia-Porto Amélia. Certo dia, pedem uma evacuação de dois sentados (feridos que se podiam sentar) e de dois deitados (feridos muito   graves   que   tinham   transporte em   maca).   Duas   macas,   uma   em cada avião, e lá vamos nós rumo a Mocímboa da Praia. Ao chegarmos, dois dos feridos tinham morrido. Como o comandante do destacamento   não   quis   lá   ficar   com   os mortos, resolvemos trazê-los, apesar   de   ser   proibido   transportar mortos… Se houvesse problemas, alegávamos morte em voo.

O que tinha acontecido e o porquê daqueles mortos e feridos? No pós-25   de   Abril,   o   que   fez   uma guarnição de um quartel? Abandonou o quartel e as armas e meteram-se todos a pé, a caminho de Mocímboa   da   Praia.   Os   ‘turras’ saltam ao caminho dos tropas desarmados e atingem os soldados. Um soldado leva uma rajada e é atingido mesmo no meio da testa, no coração e nos testículos. Um furriel é atingido com um foguete RPG em cheio no peito, ficando sem   esterno   e   com   o   pouco   dos ossos das costelas que sobraram todos negros da explosão. Foi uma visão horrível. O piloto ficou muito impressionado... éramos todos jovenzitos de 19, 20 anos. Regressei numa sexta-feira, a 13 de dezembro de 1974.

 Autor do depoimento:

nome
António Rodrigues Mota

comissão
Moçambique (1973/1974)

força
Força Aérea-Esquadra 501 Tigres

* Info
Desenhador reformado, 67 anos. é casado, tem um filho e duas netas

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