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Gabriel García Márquez: erotismo mágico

Autor de um dos romances mais importantes da literatura universal
João Pedro Ferreira 24 de Março de 2019 às 01:30

Gabriel José de la Concordia García Márquez (1927-2014) pôs no mapa a sua pequena cidade natal, Aracataca, no norte da Colômbia, junto ao Mar das Caraíbas, ao inspirar-se nela para criar Macondo, cenário daquele que é considerado um dos romances mais importantes da literatura universal: ‘Cem Anos de Solidão’. O mais velho de 12 irmãos,   Gabriel,   também   conhecido   pelo diminutivo ‘Gabo’, frequentou Direito em Bogotá, mas não concluiu o curso. Em vez disso, tornou-se jornalista. Em 1967, publicou   ‘Cem   Anos   de   Solidão’,   que   vendeu meio milhão de exemplares só nos três anos seguintes e foi traduzido em 25 línguas. O romance foi pioneiro do realismo mágico, estilo literário caracterizado pela mistura da fantasia com a realidade do dia a dia - até nas descrições de cenas eróticas.

Já famoso, fundou em 1974 a revista ‘Alternativa’,   em   que   publicou   reportagens   de acentuado   viés   político   de   esquerda.   Em pleno Verão Quente de 1975 aterrou em Lisboa para ver a revolução portuguesa ao vivo e a cores. Ainda nesse ano publicou ‘O Outono do Patriarca’ e, em 1981, ‘Crónica de Uma Morte Anunciada’. No ano seguinte veio a consagração com o Prémio Nobel da Literatura. Escreveria ainda outros livros importantes, como ‘O Amor nos Tempos de Cólera’ e ‘O General no Seu Labirinto’, antes de ‘Memórias das Minhas Putas Tristes’, uma espécie de testamento literário-sentimental em que o narrador, ao completar 90 anos, recorda as suas aventuras eróticas.

Do livro ‘Memórias das Minhas Putas Tristes’, tradução Maria do Carmo Abreu, Ed. D. Quixote

"Nunca fui para a cama com nenhuma mulher sem lhe pagar, e convenci as poucas que não eram da profissão pela razão ou pela força a que recebessem o dinheiro nem que fosse para o deitar no lixo. Por volta dos meus vinte anos comecei a fazer um registo com o nome, a idade, o lugar, e uma breve memória das circunstâncias e do estilo. Até aos cinquenta anos eram quinhentas e catorze mulheres   com   as   quais   tinha   estado   pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando já o corpo não me deu para tantas e podia continuar as contas sem papel. Tinha a minha ética própria. Nunca participei em paródias de grupo nem em convívios públicos, nem partilhei segredos nem contei uma aventura do corpo ou da alma (…).

A única relação estranha foi a que mantive durante anos com a fiel Damiana. Era quase uma menina, meia índia, forte e rústica, de palavras breves e terminantes, que se deslocava descalça para não me incomodar enquanto escrevia. Lembro-me que eu estava a ler ‘La lozana andaluza’ na rede do corredor e a vi por acaso inclinada no lavadouro com uma saia tão curta que deixava a descoberto as suas curvas suculentas.

Dominado por uma febre irresistível levantei-lha por trás, baixei-lhe as cuecas até aos tornozelos e investi pelas costas. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não se fez para entrar mas para sair. Um tremor profundo fez-lhe estremecer o corpo, mas manteve-se firme. Humilhado por tê-la humilhado, quis pagar-lhe o dobro do que custavam as mais caras de então, mas não aceitou nem uma moeda e tive que lhe aumentar o ordenado com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava a roupa e sempre em sentido contrário."

Do   livro   ‘Cem   Anos   de   Solidão’,
tradução Margarida Santiago, Ed. D. Quixote

"Uma tarde, quando todos dormiam a sesta, não resistiu mais e foi ao quarto dele. Encontrou-o em cuecas, acordado, estendido na rede que tinha pendurado nas traves com cabos de amarrar navios. Ficou tão impressionada com a sua nudez e escrevinhaduras   que   lhe   apeteceu   retroceder. "Desculpe",   escusou-se.   "Não   sabia   que estava aqui." Mas baixou o tom de voz para não acordar ninguém. "Vem cá", disse ele. Rebeca obedeceu.

Deteve-se junto da rede, a suar gelo, sentindo os nós que se lhe formavam nas entranhas, enquanto José Arcadio lhe acariciava os tornozelos com a ponta dos dedos, e depois as pernas e a seguir as coxas, murmurando:   "Ai,   maninha.   Ai,   maninha."   Ela teve de fazer um esforço sobrenatural para não morrer, quando uma potência ciclónica espantosamente medida a levou pela cintura e a desapossou da sua intimidade em três tempos e a esquartejou como a um passarinho. Conseguiu dar graças a Deus por ter nascido   antes  de   perder   a   consciência   no prazer inconcebível daquela dor insuportável, chapinhando no pântano fumegante da rede que absorveu como mata-borrão a explosão do seu sangue.

Casaram-se   três   dias   depois   na   missa das cinco."

NOBEL DA LITERATURA

Aceitou o Prémio Nobel da Literatura de 1982 das mãos do   rei   Carl   XVI   Gustav   da Suécia e respondeu com um discurso intitulado ‘A solidão da América Latina’.

O AMIGO FIDEL

Era amigo do líder cubano Fidel Castro e essa amizade, que o levou a defender o regime comunista, deu azo à acusação de "gostar de estar na cozinha do poder".

‘Gabo’ em Portugal

Em junho de 1975 esteve   duas   semanas em Lisboa, para ver a revolução.   Ficou   no Hotel Ritz, jantava no Bairro Alto e tornou-
-se amigo do escritor José Cardoso Pires.

Livros que deram filmes

‘O Amor nos Tempos de Cólera’, com Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno (na foto), e ‘Memórias das Minhas   Putas   Tristes’,   com Geraldine Chaplin.

Série da Netflix

O filho do escritor, Rodrigo García   Barcha,   anunciou que a família chegou a acordo   com   a   Netflix   para   a adaptação   à   televisão   de ‘Cem Anos de Solidão’.

Realismo mágico

Márquez foi um dos nomes principais do realismo mágico,   caracterizado   pela mistura   da   fantasia   com   a realidade. José Saramago foi um dos seguidores do estilo.

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