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Guerra Junqueiro: da ‘Moleirinha’ à ‘Porra do Soriano’

O poeta oficial da I República também escreveu versos (muito) marotos.
João Pedro Ferreira 3 de Março de 2019 às 12:00
Guerra Junqueiro: da ‘Moleirinha’ à ‘Porra do Soriano’
Guerra Junqueiro: da ‘Moleirinha’ à ‘Porra do Soriano’ FOTO: Direitos Reservados

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850-1923) estudou para padre, mas acabou por trocar Teologia por Direito. A formação jurídica abriu-lhe as portas da carreira de burocrata, chegando a secretário do governo civil de Angra do Heroísmo, nos Açores, e de Viana do Castelo.

Ao mesmo tempo começa a dar nas vistas a sua obra poética, caracterizada por uma oratória grandiloquente, dada a exageros retóricos. Daí à política foi um passo: deputado por Macedo de Cavaleiros e por Quelimane (Moçambique), aderiu ao Partido Progressista, a que pertencia o seu amigo Oliveira Martins. Com ele fez parte do grupo dos Vencidos da Vida, integrado também por Eça de Queiroz e Antero de Quental, entre outros intelectuais.

Indignado com a cedência ao Ultimato inglês, em 1890, escreveu poemas que eram panfletos antimonárquicos: ‘Finis Patriae’, ‘Canção do Ódio’, ‘Pátria’. Em ‘O Caçador Simão’ (1890) chega a sugerir o regicídio – com 18 anos de antecedência.

É desta fase a sua incursão erótico-satírica, com o célebre poema ‘A Torre de Babel ou a Porra do Soriano’. Retirou-se depois para as suas propriedades no Douro, onde compensou o anticlericalismo de ‘A Velhice do Padre Eterno’ com poemas eivados de religiosidade, como ‘Os Simples’ ou ‘Oração do Pão’. Gerações de alunos do básico recitaram os versos de ‘A Moleirinha’: "Pela estrada plana, toc, toc, toc/ Guia o jumentinho uma velhinha errante"... Morreu em 1923, consagrado como poeta ‘oficial’ do regime republicano.

Do livro ‘Poesia Portuguesa Erótica e Satírica Séculos XVIII-XIX’, Edições Afrodite

A Torre de Babel ou A Porra do Soriano

"Eu canto do Soriano o singular mangalho!

Empresa colossal! Ciclópico trabalho!

Para o cantar inteiro e para o cantar bem

precisava viver como Matusalém.

Dez séculos!

Enfim, nesta pobreza métrica

cantemos essa porra, porra quilométrica,

donde pendem colhões que idéia vaga

das nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo

que, antes de nervo cru, já foi eixo
do Mundo!

Mastro de Leviathan! Iminência revel!

Estando murcho foi a Torre de Babel

Caralho singular! É contemplá-lo

É vê-lo teso!

Atravessaria o quê?

O Sete-Estrelo!!

Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra

juro que ninguém viu tão formidável porra

É uma porra, arquiporra!

É um caralhão atroz

que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós

e, ainda assim, fica o caralho preciso

para foder a Terra, Eva no Paraíso!!

É uma porra infinita, é um caralho insone

que nas roscas outrora estrangulou
Laocoonte.

Oh, caralho imortal! Oh glória destes lusos!

Tu podias suprir todos os parafusos

que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!

Onde é que há um abismo, onde há um sorvedouro

que assim possa conter esta porra do diabo??!

O Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,

em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!

– Nada, nada contém a porra do Soriano!!

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,

que bainha, meu Deus, para esta porra nova,

esta porra infeliz, esta porra precita,

judia errante atrás duma crica infinita??

– Uma fenda do globo, um sorvedouro
ignoto

que lhe dá de abrir talvez um dia um
terramoto

para que desague, esta porra medonha,

em grossos borbotões de clerical
langonha!!!

A porra do Soriano, é um infinito assunto!

Se ela está em Lisboa ou em Coimbra,
pergunto?

Onde é que ela começa?

Onde é que ela termina

essa porra, que estando em Braga, está
na China,

porra que corre mais que o próprio
pensamento,

que porra de pardal e porra de jumento??

Porra!

Mil vezes porra!

Porra de bruto

que é capaz de foder o Cosmo num
minuto!!!"

--

Freixo de Espada à Cinta

Na sua terra natal, Freixo de Espada à Cinta, Guerra Junqueiro é homenageado pelo município, que tem aberta ao público a Casa do Poeta, onde se recorda a sua obra.

Bandeira azul e branca

Em 1910, o poeta propôs que a República mantivesse a bandeira azul e branca, substituindo a coroa por uma esfera armilar cercada por cinco estrelas em arco.

Embaixador de Portugal

Logo a seguir à implantação da República, Guerra Junqueiro foi nomeado Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário de Portugal em Berna, na Suíça.

Junqueiro no Panteão

Em 1966 foi trasladado para o Panteão Nacional, onde se encontra ao lado de figuras da cultura e da política, como Humberto Delgado, Amália ou Eusébio.

Jardim da Estrela

Jardim Guerra Junqueiro é o nome oficial do parque conhecido por Jardim da Estrela, junto à basílica da Estrela, na freguesia lisboeta do mesmo nome.

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