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“Há livros que são janelas. Os meus são espelhos”

Jeff Kinney, autor do ‘Diário de um Banana’, já foi nomeado pela revista ‘Time’ uma das 100 pessoas mais influentes do Mundo.
Marta Martins Silva 1 de Dezembro de 2019 às 12:00

Os livros do ‘Diário de um Banana’ têm 65 edições traduzidas em 57 línguas e mais de 203 milhões de livros publicados em todo o Mundo. Em Portugal, a coleção soma mais de um milhão de exemplares editados. O ‘Diário de um Banana 14: DE-MO-LI-ÇÃO’ (Ed Booksmile), de uma série que se tornou de culto entre as crianças, foi agora lançado e o autor falou com a ‘Domingo’ sobre o fenómeno que o tornou não só famoso mas também rico, com 16,8 milhões de euros amealhados entre junho de 2017 e junho de 2018.

Soube desde o início que o ‘Diário de um Banana’ ia ser o sucesso que foi?

Pelo contrário. Estive oito anos a escrever o primeiro livro, sem coragem de o mostrar a ninguém e estava certo de que quando o mostrasse ia ser rejeitado, portanto tem sido uma viagem imprevisível para mim.

E quando ganhou coragem...

Mostrei-o a um editor e quando ele abriu a primeira página, em que o Greg estava a ser esmurrado, vítima de ‘bullying’, ele disse: ‘Isto é exatamente o que nós estamos à procura.’

Qual é o segredo do sucesso? Porque é que as crianças são fãs do ‘Diário de um Banana’?

Acho que as crianças conseguem rever-se nas personagens. Também acho que os livros são divertidos e isso é importante para os miúdos, que não pareça trabalho mas sim diversão, que a criança abra o livro e pense: ‘Sim, isto pode ser para mim.’ Por vezes, os livros só com texto podem ser esmagadores para as crianças.

Os miúdos são parecidos, quer morem em Portugal ou nos Estados Unidos?

E uma criança chinesa, uma criança turca... Foi isso que eu realmente aprendi nos últimos anos a viajar pelo Mundo: as crianças experienciam estas histórias da mesma maneira em países diferentes. Eu acho que alguns livros são janelas para outros mundos e outros livros são espelhos – os meus livros são espelhos.

As crianças contam-lhe isso?

Eles gostam muito do personagem principal, o Greg, mas acho que isso acontece principalmente porque se veem a eles próprios no Greg. O Greg é um miúdo normal, não é um herói, é complicado, faz disparates, tem muitas falhas, e acho que as crianças acham isso refrescante: haver um miúdo que pode ser a estrela do ‘show’, mas que não é heroico nem corajoso nem forte.

E o Jeff adolescente era parecido com o Greg?

Eu era parecido com o Greg quando era miúdo e também sou hoje, nos meus pensamentos, nas minhas atitudes e nas minhas falhas.

Gostaria de ter lido este livro quando era adolescente?

Sim. Acho que os miúdos precisam de livros, entre os outros que só têm texto, que os façam sentir motivados para a leitura e para terem vontade de ler mais.

Como é que este personagem nasceu na sua cabeça?

Ele nasceu do meu fracasso em ser um cartunista de jornal. Tentei durante alguns anos que o meu sonho se tornasse realidade, mas não resultou. Tentei arranjar uma forma de fazer com que o meu trabalho fosse lido e publicado, e esta foi a solução.

Os seus filhos leem os seus livros?

Os meus filhos, de 14 e 17 anos, são dois rapazes e cresceram com os livros. Na verdade eram demasiado novos para os ler quando eu comecei a escrevê-los [em 2007], depois estiveram nessa fase e agora já estão a sair. Mas tem sido divertido porque tem feito parte da nossa experiência familiar.

Publicou agora o 14.º livro. Tem sempre ideias para o livro seguinte?

Nunca tenho novas ideias, é uma luta para mim. Eu conduzo até ao cemitério e sento-me lá durante horas a tentar pensar em novas ideias para escrever a seguir.

Os seus filhos não lhe dão ideias?

Quase nunca. Eu pergunto-me porque é que os tive, se eles nunca me dão material nenhum [risos].

E as crianças com quem se cruza pedem-lhe para escrever sobre algum tema específico?

Eu não costumo pedir ideias aos meus leitores, mas às vezes oiço falar sobre coisas que determinado miúdo está a passar naquele momento e penso ‘isto pode ser uma boa ideia!’

Nunca pensou vir a escrever e a desenhar para crianças?

Nunca pensei escrever para crianças até o primeiro livro ser publicado. Agora eu sei o que sou: um escritor para crianças. E estou feliz com isso.

Gostaria de escrever para adultos?

Eu gosto de escrever num estilo direto e talvez o meu estilo não seja suficientemente sofisticado para adultos. Talvez porque, tal como um cartunista, eu gosto de usar o mínimo de informação possível para conseguir um grande impacto.

Alguma criança lhe disse que começou a ler por causa dos seus livros?

Muitas disseram-me isso. E há provas disso. É emocionante vir a Portugal, eu que venho de um país diferente, com uma língua diferente e uma cultura diferente, e ver que os miúdos estão unidos pelas histórias.

Os pais agradecem-lhe?

Escrevem-me a agradecer por fazer dos filhos leitores.

Quanto tempo demora a escrever os seus livros?

O primeiro, oito anos; os outros entre quatro e cinco meses.

Em que é que a sua vida mudou desde 2007?

A minha vida mudou muito e em alguns aspetos não mudou nada. Vivo na mesma cidade, Plainville, em Massachusetts, que é uma cidade pequena, e a minha vida centra-se muito nos meus filhos. Por outro lado estou aqui a dar esta entrevista, viajo pelo Mundo inteiro, conheci presidentes, celebridades e estrelas do desporto e todos os dias são uma aventura.

Qual a coisa mais emocionante que lhe aconteceu por causa do ‘Diário de um Banana’?

Conhecer o presidente Obama na Casa Branca. Além de que, por causa dos livros e com o dinheiro que fiz com os livros, consegui abrir uma livraria na minha cidade e consegui participar em projetos de solidariedade em África.

O ‘Diário de um Banana’ vai continuar?

Já estou a escrever o próximo.

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