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Isabel Allende: gastronomia afrodisíaca

Uma obra no labirinto dos prazeres sensuais
João Pedro Ferreira 12 de Janeiro de 2020 às 14:00

Isabel Allende Llona (n. 1942) é uma escritora chilena famosa pelos romances em que as suas experiências pessoais e familiares servem de inspiração a narrativas no estilo do realismo mágico. Ganhou projeção internacional com ‘A Casa dos Espíritos’, publicado na Argentina em 1982, depois de ter sido rejeitado por vários editores.

O erotismo é uma presença constante na sua obra, ocupando lugar de destaque em ‘Afrodite. Histórias, Receitas e Outros Afrodisíacos’ (1998), onde combina a sexualidade com outra paixão: a comida - é ao mesmo tempo um livro de receitas e um guia de orientação no labirinto dos prazeres sensuais.

Filha e enteada de diplomatas, Isabel Allende nasceu no Peru e passou a adolescência na Bolívia e no Líbano. Depois do primeiro casamento, tornou-se jornalista e foi funcionária da FAO (agência da ONU para a alimentação e a agricultura) na Europa.

De regresso ao Chile trabalhou como tradutora, mas foi despedida porque alterava os diálogos e mudava o fim de histórias tradicionais (como a ‘Gata Borralheira’) para tornar as heroínas mais inteligentes e assertivas. Depois da morte do seu primo Salvador Allende no golpe de Pinochet, em 1973, Isabel recebeu ameaças de morte e partiu para o exílio, primeiro na Venezuela e depois nos EUA, onde voltou a casar e obteve a cidadania norte-americana.

Da sua obra, reeditada pela Porto Editora, destacam-se ainda ‘Longa Pétala de Mar’, ‘O Amante Japonês’, ‘Inês da Minha Alma’ ou ‘Eva Luna’. 

Do livro ‘Afrodite.
Histórias, Receitas e Outros Afrodisíacos’, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra , ed. Difel
"(...) Encontrei, por exemplo, um encantamento para prender o amante fugidio, ainda praticado nalgumas zonas rurais da Grã-Bretanha. A mulher amassa farinha, água e manteiga, salpica a mistura com saliva, depois coloca-a entre as pernas para lhe dar a forma e o sabor das suas partes secretas, mete-a no forno e oferece este pão ao objeto do seu desejo.

Antigamente misturavam-se beberagens de sangue – com frequência ‘elixir rubens’ ou sangue menstrual – e outros fluidos do corpo, fermentados na concavidade de uma caveira ao luar. Se o crânio pertencesse a um criminoso morto no patíbulo, tanto melhor. Existe uma variedade surpreendente de afrodisíacos deste tipo, mas aqui concentramo-nos naqueles que podem ter origem numa mente e cozinha normais.(...)

Se não tivéssemos tantos preconceitos e inibições, o odor humano no seu estado natural (…) seria vendido engarrafado, da mesma forma que tentam fazer com as feromonas.

Quem teve a ideia dos desodorizantes vaginais? É tão disparatada como pretender que os camarões cheirem a lavanda e os cogumelos a incenso. Não foi certamente Napoleão Bonaparte, que pedia nas suas cartas a Josefina que não lavasse as partes íntimas nas semanas anteriores ao seu regresso do campo de batalha. (…) O sabor associa-se à sexualidade muito mais do que aquilo que os puritanos desejariam.

A pele, as dobras do corpo e as secreções têm sabores fortes e definidos, tão pessoais como o odor. Sabemos pouco acerca deles, porque perdemos o hábito de nos lambermos e cheirarmos uns aos outros. Ainda me lembro do sabor a pastilha, tabaco e cerveja do meu primeiro beijo, há exatamente quarenta anos, apesar de me ter esquecido completamente da cara do marinheiro americano que me beijou.

O sentido do paladar cultiva-se, da mesma forma como se cultiva o ouvido para o jazz: livre de preconceitos (…)

A bela e frívola Paulina Bonaparte foi mandada pelo irmão Napoleão num dissimulado exílio para Santo Domingo a fim de silenciar os boatos da sua escandalosa conduta em Paris. Na ilha, o calor, a distância e o aborrecimento exacerbaram os seus sentidos e, procurando alívio para a luxúria e o desgosto, ganhou o gosto pelos homens negros.

Esta mulher de pouca saúde, histérica e mimada, que tomava banho em leite, dormia grande parte do dia e passava o resto do tempo ocupada com o seu vestuário e a sua beleza, costumava fugir de noite e rebolar-se com escravos em cubículos imundos e comer das suas bocas entre beijos e mordiscos a rude comida dos pobres, enquanto na sala de jantar do seu palácio o general Leclerc, marido cornudo e complacente, saboreava a requintada cozinha e os melhores vinhos de França.

Paulina regressou à Europa com quatro escravas africanas e um negro bonito e robusto que todas as manhãs a transportava ao colo nua até à banheira e lhe dava o pequeno almoço: ostras frescas e champanhe. As ostras são as rainhas da cozinha afrodisíaca, protagonistas de todos os jantares eróticos registados pela literatura ou pelo cinema. (…)".

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