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“Isolamento e reforma destapam traumas da guerra”

Vasco Luís Curado é escritor e psicólogo clínico. Reuniu 48 relatos de homens que lutaram pela pátria e que a pátria esqueceu e chamou-lhes ‘Declarações de Guerra’.
Manuela Guerreiro 26 de Abril de 2020 às 13:00
Vasco Luís Curado
Vasco Luís Curado FOTO: Direitos Reservados

Um milhão de mobilizados, perto de dez mil mortos, dezenas de milhares de mutilados e um número indeterminado com traumas de guerra. Entre 1961 e 1974, Portugal combateu em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique e enviou para a guerra os seus jovens. Muitos não regressaram sozinhos. Trouxeram traumas, pesadelos, angústias. Alguns dormem no bosque com uma faca de mato, outros acordam a meio da noite convencidos de que têm um saco cheio de orelhas aos pés da cama. Esta foi uma guerra sem máscaras. Verdadeira. Um livro editado pela Guerra & Paz.

Como recolheu e selecionou os depoimentos?
Tenho contacto regular com combatentes da Guerra Colonial, num contexto de avaliação psicológica pericial e de psicoterapia. Na avaliação pericial, é importante um relato tão pormenorizado quanto possível de acontecimentos concretos, potencialmente traumáticos, para depois se ponderar um nexo de causalidade entre estes e eventuais alterações psicológicas. Daqui resultou que, ao longo de anos, recolhi testemunhos em primeira mão que me permitiram ver a Guerra Colonial não apenas como um episódio histórico, mas como realidade vivida por jovens de 20 anos, que hoje têm 70 ou mais.

Porquê a necessidade de partilhar estas ‘declarações de guerra’?
A Guerra Colonial interessa-me enquanto psicólogo e enquanto escritor. No meu romance ‘O País Fantasma’, publicado em 2015, faço uma abordagem ficcional da guerra. Sob todos os pontos de vista, a Guerra Colonial é um assunto inesgotável, como a do Vietname, a I e a II Guerras Mundiais ou a mãe de todas as guerras da civilização ocidental, a mítica Guerra de Troia. Foi o estertor de uma aventura ultramarina que durou 570 anos. Não foi só este perto de um milhão de homens que combateu: o País, como um todo, foi combatente. Isto diz respeito a todos nós, temos de compreender mais e melhor os combatentes para nos compreendermos a nós próprios como pessoas e como País.

O que se diz a um veterano que trouxe a guerra para casa?
Não há fórmulas universais infalíveis. Mostrar compreensão pode ser o primeiro momento para ajudar num esforço de autodomínio.

Percebe-se que muitos procuram ajuda, mas não ultrapassam o trauma.
O stresse pós-traumático e algum tipo de alteração permanente da personalidade após acontecimento catastrófico tendem para a cronicidade. Não há cura, mas há tratamento, que assenta no assumir das cicatrizes psicológicas como parte indelével e integrante do combatente, permitindo incorporá-las num novo sentido de identidade.

Como se identifica um combatente que sofre de stresse pós-traumático?
Há sintomas que são típicos: pensamentos recorrentes e intrusivos e pesadelos com temática de guerra, sofrimento psicológico perante estímulos que evocam a guerra, evitamento de situações que relembrem a guerra, estado emocional negativo persistente, irritabilidade, vigilância e resposta de alarme exageradas, perturbações do sono. Para conferir um diagnóstico é preciso ainda estimar como provável que tais sintomas decorram de acontecimentos traumáticos vividos em cenário de guerra.

O stresse pós-traumático pode revelar-se muito anos depois?
Sim. Devido a defesas do nosso próprio organismo é frequente o início diferido no tempo, como uma bomba ao retardador que só explode muito depois.

Para estes homens é bom recordar ou esquecer?
Muitos gostariam de esquecer. Recalcar é inútil, porque o recalcado retorna incessantemente, sob formas disfarçadas e descontroladas. Esquecer é impossível, a não ser quando se troca um indesejável stresse pós-traumático por uma lamentável amnésia senil ou demencial. Outros têm necessidade de recordar, porque de cada vez que recordam ou partilham a sua experiência digerem um pouco mais a angústia.

Alguns revelam pensamentos violentos, andam armados e mostram intenção de matar. Não deveriam ser acompanhados?
Avaliar a perigosidade de uma pessoa, isto é, a propensão para cometer atos violentos no futuro, envolve um cálculo probabilístico, não uma certeza. Deveriam ser encaminhados para apoio psicológico e/ou psiquiátrico. Ocorre com eles o mesmo que com qualquer indivíduo que constitua perigo para si mesmo ou para os outros: teriam de colaborar com o tratamento e aceitar entregar as armas às autoridades.

A reforma, o isolamento ou a solidão alteram o espírito destes homens?
Os laços que ligam à comunidade, como o trabalho e as ligações afetivas, permitem estar orientado para o exterior, não para o interior. É frequente que a dissolução desses laços, com a reforma ou o isolamento, destape o que estava tapado e traga à superfície uma inquietação até aí discreta, que estava a ser cozinhada em lume brando. É, novamente, a bomba ao retardador.

Já eram conhecidos alguns problemas relacionados com álcool e droga, mas alguns relatos revelam que havia ordens para que lhes fossem injetados químicos.
Sabe-se que noutras guerras se administraram anfetaminas aos combatentes, para imitar os efeitos da adrenalina, ter mais propensão para a ação, aumentar o estado de alerta, desinibir-se, correr riscos, descansar menos. Não custa crer que o mesmo tenha sido praticado na Guerra Colonial. Durante muito tempo não se reconheceu que usámos bombas de napalm. Está na altura de reconhecermos que, também na nossa despedida do império colonial, drogámos combatentes, de modo controlado, para aumentar o seu potencial destrutivo.

Muitos parecem sentir-se bem nos encontros com outros combatentes, sinal de que a amizade forjada naquele palco tem força.
A camaradagem militar é uma realidade, seja na tropa que nunca combateu, seja, ainda mais, na que combateu. O serviço militar retira o indivíduo do seu ambiente familiar e social, cria um outro ambiente, com um sentido de família próprio, uniformiza ao máximo os comportamentos. É inevitável que daí decorra uma identidade difícil de partilhar com quem não
passou por ela.

Na sua opinião, porque é que o Estado não cuidou dos seus combatentes?
Apesar de os comandantes operacionais do 25 de Abril, os ‘capitães de Abril’, terem sido veteranos da Guerra Colonial, o sistema político pós-25 de Abril quis esquecer o passado imperial em geral, e a Guerra Colonial em particular. Recalcou-se, em vez de se assumir e integrar o passado como parte indestrutível da nossa identidade. Perdido o Império, já não interessavam as picadas africanas, com minas, sujeitas a emboscadas de guerrilheiros, mas sim a estrada bem asfaltada entre Lisboa e Estrasburgo ou Bruxelas, para captar fundos monetários europeus. As novas elites políticas ignoraram 570 anos de violência imperial ultramarina e quiseram acreditar que eram progressistas e europeístas desde sempre – quando nem os próprios ‘capitães de Abril’ o eram. Os combatentes foram vítimas desta cobardia moral. No regime anterior foram obrigados a combater numa guerra obsoleta; no novo regime foram desprezados por terem combatido. De um dia para o outro foram apontados como fascistas e assassinos pelos mesmos que, no dia 24 de abril, aplaudiam o regime ditatorial, que no dia 25 saíram à rua a ver no que dava o golpe militar, e que no dia 26 já se diziam progressistas desde pequeninos.

Concorda quando se compara a epidemia da Covid-19 a uma guerra?
É uma metáfora com um grande poder mobilizador, que tem como objetivo unir a população, discipliná-la, fortalecê-la contra uma ameaça. Não se pode duvidar que é eficaz. Toda a nossa linguagem assenta em metáforas, que empregam conceitos familiares (neste caso, guerra, combate) para lidar com o desconhecido, o estranho (uma nova doença, altamente letal). Vejo-me obrigado a concordar com o uso dessa metáfora bélica, devido aos seus efeitos mobilizadores, unificadores, pedagógicos. Contudo, o fascínio da metáfora pode levar a esquecer que ela é apenas uma ferramenta da linguagem, um recurso retórico, não é a própria realidade concreta (neste caso, a guerra). Há uma diferença entre usar uma máscara para não contaminar os outros com um vírus contagioso e levar com a massa encefálica de um camarada na cara, porque ele acaba de levar com um tiro vindo da mata. Há uma diferença entre ficar em casa, para isolamento social preventivo, e esconder-se nos abrigos do aquartelamento quando para lá chovem granadas de morteiro. Há uma diferença entre estarmos aborrecidos porque os nossos filhos têm de ficar em casa e não podem ir para a escola, e lançarmos granadas para dentro de palhotas onde estão mulheres e crianças. As metáforas são tão poderosas como ilusórias.

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