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José Agostinho de Macedo: devasso e truculento

Pôs a sua vasta cultura e erudição ao serviço do absolutismo miguelista.
João Pedro Ferreira 5 de Janeiro de 2020 às 11:00

José Agostinho de Macedo (1761-1831) foi padre, pregador, poeta, dramaturgo, filósofo, jornalista e político. Viveu num período de convulsões na sociedade portuguesa: as invasões francesas e as lutas liberais. Pôs a sua vasta cultura e erudição ao serviço do absolutismo miguelista e foi uma figura incontornável da nossa história literária.

Os títulos das suas obras são o espelho de um estilo truculento e provocador: ‘A Besta Esfolada’, ‘A Tripa Virada’ ou ‘Os Burros’. Fanfarrão e arruaceiro, foi um dos mais célebres oradores do seu tempo. A violência da linguagem era tal que as próprias autoridades miguelistas se viram obrigadas a censurar-lhe os excessos. Frade, foi expulso da sua ordem religiosa por roubar livros da biblioteca, além de lampreias destinadas ao refeitório conventual. Eleito deputado por Portalegre, não chegou a tomar posse e virou a casaca assim que o vento político mudou. Apesar de ser padre levava uma vida devassa, o que transpira em passagens pornográficas da sua obra. Promíscuo, frequentou prostitutas e viveu em concubinato com freiras – a última das quais, Maria Cândida do Vale, foi sua companheira até à morte. Tinha a obsessão dos maçons e dos liberais, para quem pedia o cacete e a forca.

Quando morreu, com 70 anos, em 1831, o rei D. Miguel mandou que o caixão fosse transportado num coche puxado por oito cavalos desde a sua casa em Pedrouços até ao convento das freiras do largo do Rato, em Lisboa, onde pedira para ser sepultado.

Do livro ‘Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica’, seleção Natália Correia, ed. Ponto de Fuga

"Os Burros

(...) Com conjuro infernal, da Ilha encoberta,

eu fiz que se viesse o rei com barbas,

que as causas dando da demora longa,

mostrou três calos na direita planta;

nos colhões virginais três hérnias tinha,

onde lhe pôs emplastro emoliente

abadessa das Mónicas, serpente

um tempo puta, agora alcoviteira,

que concilia ríspidas vontades,

que promove o prazer, que ela já teve;

que se enternece de escutar na porta

os ais dengosos do cação, que as fraldas

ergue, e derrete prepotente frade,

mono em luxúria e no juízo besta. (…)

(…) Ele o blasfemo, um lambaz parece

na casaca, chapéu, calção, sapato,

porém, de um olho tão sagaz, tão vivo,

que por fora está vendo o que sois dentro;

que a todos vos chamou burros de casta

(e não se engana o pérfido!) e acrescenta

que quase todos sois filhos da puta.

Ainda o ladrão diz mais, diz que sois tolos;

até parece que convosco vive,

pois barrascos vos chama à boca cheia;

dos nossos podres, e dos podres todos,

tem um registo universal monstro.

Não saberá pregar, mas sabe os nomes

das putas e coirões assinaladas

que dos confins do lusitano império

vão por membros e membros repassadas

do hospital esfaimado ao cemitério.

Vai com ar austero e bordão na dextra,

com sapato lambão pisando as ruas,

cura de aldeia na figura e traje,

e no esguio chapéu sebastianista;

porém ronha até ali! Bispando ao longe

um membro fêmea das famílias nossas,

de urso felpudo com um gibão vestido,

e por cima um filó bordado e fino,

que cobre e descobre o seio e as mamas,

de roxos lírios caça pouco avara,

ou, falemos mais claro, um vestidinho

que, entre as pernas metido, à proa mostra

da pentelheira cabeluda a sombra,

e da popa, ou do cu divide o rego,

acotovela, com risinho amargo,

algum da súcia sempiterna dele,

E diz com aquela voz (sátira e raio)

- Como vai grave a Cónega Fulana? (…)"

 

Do jornal ‘A Besta Esfolada’, nº 13, 1829
"(...) Vós [mulheres] sabeis muito bem que a vossa influência não vem da política. (…) Que influência teria no Mundo um focinho com mais pregas que os dois roquetes de um cónego, uns olhos mais encovados que dois ermitões em duas covas, um queixo ou mandíbula inferior que tremesse mais que um clérigo mandado para Rilhafoles, com dois timbales do Inferno (…) feitos dois figos passados (…).

O vosso império no Mundo (…) é um astro que faz a sua revolução à roda do sol
em vinte cinco até trinta cinco anos (muito lhe alargo a órbita!) Vós quereis as máximas da nova política porque em si e consigo trazem as máximas de uma nova
moral (…). Abrem o passo a um luxo imoderado ou sem limites, que deixando no vestido apenas coberta a metade do corpo, deixa inteiramente nua e vazia a bolsa dos maridos. (...)"

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