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“Já estávamos sem munições e um rapaz salvou toda a gente”

Fiz toda a comissão numa zona de guerra. Tivemos muita sorte, não morreu ninguém, mas apanhámos grandes sustos
Manuela Guerreiro 15 de Março de 2020 às 14:00

Não foi surpresa nenhuma quando soube que tinha sido mobilizado para o Ultramar. Naquele tempo quase todos os jovens iam para a guerra. Fiz a recruta na Serra da Carregueira, em Sintra, e a especialidade em Tomar. Depois fiz o IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional) em Ferreira do Zêzere, treinámos durante 15 dias no mato, dormindo num acampamento e depois fomos para a guerra. Foi muito doloroso.

Parti no paquete ‘Niassa’ para Moçambique a 17 de julho de 1971. Parámos em Angola e estivemos dia e meio para descarregar pessoal e mantimentos. Iam no barco dois batalhões, vários pelotões e alguns rapazes para rendições individuais – iam substituir soldados que tinham morrido.

A viagem de barco, na zona do encontro dos oceanos Atlântico e Índico, foi um verdadeiro ‘Cabo da Tormentas’ (assim chamado por Bartolomeu Dias, o primeiro navegador a fazer aquela passagem na ponta sul de África que hoje tem o nome de cabo da Boa Esperança). Estivemos sete ou oito horas naquela passagem. Demos autênticas cambalhotas e íamos agarrados no barco, foi uma coisa maluca.

Chegámos a Lourenço Marques (hoje Maputo) a 8 de agosto. Estivemos lá um dia, ficaram alguns homens para rendição e arrancámos em direção à Beira. Em Nacala ficou outra companhia. Em Porto Amélia (Pemba, atualmente), no norte de Moçambique, recebemos ordens para irmos render um pelotão de canhões na Beira.

Chegámos lá, mas os canhões não faziam falta na Beira – era uma guerra de armas ligeiras e não de canhões. Mandaram-nos para Tete. Estivemos lá um dia e também não ficámos. Seguimos para Moatize, a 18 quilómetros. Foi aí que fiz a minha comissão, numa zona 100 por cento operacional. No total, contando com a viagem, foram 24 meses e 13 dias.

Ficámos sem furriel
A nossa missão era ir para o mato e proteger as colunas – diversas viaturas que tinham uma determinada missão e um destino –, mas as emboscadas e as minas eram tantas que ao terceiro mês já não tínhamos furriel, foram todos feridos. A primeira vez que saímos fomos emboscados. O ataque foi tal que a frente da Berliet até desapareceu. Íamos fazer a proteção a carros civis que iam com destino a Tete – um jornalista inglês que ia na coluna escreveu depois um artigo com o título ‘Drama no corredor do inferno’.

Nesse dia, tínhamos tomado o pequeno-almoço no quartel e era suposto estarmos de regresso pela hora de almoço, mas ficámos o dia todo sem comer nem beber. Quando regressámos, porém, tínhamos uma surpresa enorme à espera, que era o correio da família, momento de grande emoção para a rapaziada.

No nosso pelotão não morreu ninguém, tivemos muita sorte, mas apanhámos grandes sustos. Por exemplo, estivemos mês e meio a guardar uma ponte. Os ‘turras’ (o inimigo, a Frelimo) tinham deitado a ponte abaixo com explosivos. Era um local com muito trânsito, usado para abastecer Tete. Passava tudo por aí. Tivemos de arranjar uma alternativa à ponte, numa lateral. Um pelotão de 32 homens ficava de guarda em permanência. Um dia fomos atacados e já estávamos a ficar sem munições quando um rapaz saltou para um buraco onde estava um morteiro e salvou toda a gente.

Perto do final da comissão, um cozinheiro adoeceu e passei eu a cozinhar – estava mais defendido e não tinha tantas saídas para zonas perigosas. Guisava carne, fazia uma sopa, fritava batatas, fazia ovos estrelados. Usava tudo o que aparecia. Nos últimos seis meses veio outra companhia e deixámos de fazer colunas, ficámos mais no quartel. No regresso, viemos de avião. A viagem demorou 12 horas. Cheguei a 1 de agosto de 1973.

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