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Jean-Luc Hennig: desejo excitado pelo vinho

O néctar inebriante como catalisador da transgressão.
João Pedro Ferreira 26 de Janeiro de 2020 às 10:00

Jean-Luc Hennig (n. 1945) é um escritor francês, autor de uma obra polémica dedicada ao erotismo e à sexualidade marginal. Professor de Literatura, Hennig foi jornalista no ‘Libération’ e chefiou a redação da edição francesa da revista musical ‘Rolling Stone’. Anos depois reuniu alguns dos artigos publicados na imprensa no livro ‘Sperme Noir’ (2006). Um dos seus primeiros trabalhos foi também um dos mais controversos: em 1979 escreveu um ensaio para um número especial da revista ‘Recherches’ dedicado ao estudo da pedofilia. Outro autor desse número foi o escritor Gabriel Matzneff, que tem ocupado ultimamente o espaço mediático em França, por ter sido acusado por uma das suas alegadas vítimas de atos pedófilos praticados nos anos 70.

Além da reflexão sociológica e filosófica sobre a sexualidade e a transgressão, Hennig tem também publicado romances e ensaios em que a temática erótica ocupa um lugar central. É o caso dos seus dois livros editados em Portugal: ‘Breve História das Nádegas’ (ed. Terramar, 1997) e ‘Erótica do Vinho’ (ed. Campo das Letras, 2008). Neste último, o imaginário em torno do vinho é apresentado como um precioso auxiliar para a libertação do desejo, como se afirma na contracapa: "O emprenhar da polpa húmida da uva pela luz, o curioso trajeto do vinho no corpo, a maneira como alguns se servem da garrafa como se de uma mulher se tratasse, detendo-se nas suas coxas, no seu umbigo, no seu ‘bouquet’ antes de a despachar…"

Do livro ‘Erótica do Vinho’, trad. Mário Jacques, ed. Campo das Letras
"(...) O que é que pode haver de mais agradável do que emborcar champanhe com Jacques e o seu amo, enquanto se conta a cruel vingança levada a acabo por Madame de la Pommeraye sobre o jovem marquês de Arcis que a tinha abandonado para ir atrás dos seus prazeres? (…) ‘Vamos’, diz ela a Jacques; ‘depressa, depressa, o seu copo’. Jacques aproxima o copo; a estalajadeira, afastando o polegar um pouco para o lado, deixa escapar a pressão na garrafa, e aí temos a cara de Jacques toda coberta de espuma. Jacques tinha-se prestado à brincadeira, e a estalajadeira ria, e Jacques e o seu amo riam (‘Jacques o Fatalista’ [de Diderot]). Ver a estalajadeira abrir as garrafas entre as coxas é já um pressentimento de algo obscuro, como se ela fosse puxar com o líquido espumoso segredos impenetráveis, verdades lá de baixo que têm a ver com a insatisfação das mulheres ou com as suas vertigens."

"(...) Toda a gente se lava. Antes e depois do coito. (…) É importante preparar o objeto, do qual se faz como que uma onda de perfume, uma coroa de flores, um pequeno milagre. Dá-se banho ao rabo, à rata, ao pé, à perna, à coxa, fazem-se as abluções no bidé, com água morna, com água fria, e por vezes com as duas sucessivamente, põe-se o rabo de molho num grande alguidar para o fortalecer, lava-se com água de rosas, mergulha-se depois no leite, lava-se, enxuga-se, refresca-se, e ei-los, pénis e vagina, prontos para novas proezas. Acontece mesmo, sem dúvida para lhe dar mais espírito, banhar-se o instrumento em champanhe. ‘Tínhamos jantado os dois sozinhos’, escreve Restif [de la Bretonne]. ‘Logo que os criados se retiraram, ele desnudou-me as tetas e embebedou-me de champanhe. Lavou o pénis num copo de espumante. De imediato emborquei-o… Encantado com este meu rasgo, ele passou-me o pénis pelos lábios. Meti-o na boca e chupei-o. Ele gritou de prazer…’ Porque aqui toda a gente se lava e se refornica furiosamente. O membro mantém não sei que frescura e cintilação, enquanto o cu se transforma no mesmo instante em gás, em foguete, em princípio efervescente e nisso concebe grandes esperanças."

"(...) Ela tem uma beleza que embriaga e um charme perigoso, irresistível. Madura e sempre graciosa, pressente-se-lhe a depravação até à medula. A carne muito pálida, mas abundante, o decote avantajado, está coberta de pérolas, pérolas grossas e numerosas que escorrem molemente pelo colo. (…) O champanhe e as ostras pareciam-lhe a equação da felicidade: a ostra permite a fornicação devoradora, e o champanhe espiritualiza a máquina. À M. M., no seu casino de Veneza, ele [Casanova] apresenta um champanhe olho-de-perdiz e um champanhe espumoso (mas sem ostras), um vinho de Borgonha e para concluir um ponche com laranja amarga e rum. Era mais que suficiente. ‘Atirei-me para os seus braços abrasadores, ardente de amor, e dando-lhe as mais vigorosas provas durante sete horas seguidas apenas interrompidas por outros tantos quartos de hora de animadas conversas enternecedoras’ (…)"

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