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"Jornalismo, só a favor do leitor"

Manuela de Azevedo fez 104 anos.
Ana Maria Ribeiro 6 de Setembro de 2015 às 13:00
Manuela de Azevedo fotografada no escritório da sua casa, à Almirante Reis
Manuela de Azevedo fotografada no escritório da sua casa, à Almirante Reis FOTO: Tiago Sousa Dias

O corpo está frágil. Já lá vão, no fim de contas, 104 anos. Mas a saúde está bem – "exceto alguns problemas de circulação" – e a cabeça, essa, continua lúcida. Tanto assim que Manuela de Azevedo – a primeira mulher em Portugal a ter a Carteira Profissional de Jornalista – acaba de lançar um livro de contos, ‘O Pão que o Diabo Amassou’, apresentado publicamente na segunda-feira para coincidir com o seu aniversário.

De entre os nove textos reunidos na compilação, só um é antigo, algo que escreveu há 56 anos e nunca publicou. O resto é recente (de 2013 a julho deste ano) e escrito à mão, "como sempre". Em tantos anos de jornais (reformou-se aos 71), nunca se adaptou à máquina de escrever e muito menos ao computador. Diz que só a mão é capaz de lhe acompanhar o ritmo vertiginoso do pensamento.


"A intimidade grande que existe entre o cérebro e a mão ajudou-me em toda a minha vida de mulher de letras", diz. "Porque é isso que sou. Uma mulher de letras." E a lista de obras que tem publicadas não a desmente: um livro de poesia; um romance; dois livros de memórias; cinco peças de teatro; seis recolhas de contos e novelas; 29 obras de ensaio e biografia. "Nunca me furtei a trabalho porque trabalhar era uma alegria para mim", justifica, com um sorriso.




Uma mulher de letras, fotografada ao estilo de Simone de Beauvoir

FALAR DA EUTANÁSIA

Filha de um funcionário das Finanças que amava o teatro e os jornais (assinou para ‘O Século’ e fundou e dirigiu o semanário político ‘Notícias da Beira’), Manuela de Azevedo nunca pensou vir a ser jornalista. Tinha jeito para o desenho e para as letras, mas optou pelas últimas. Fez a Escola Normal Superior e estava a dar aulas num colégio de Viseu "há dois ou três meses" quando se começou a discutir a eutanásia em Lisboa. O tema fascinava-a.


Escreveu um artigo em defesa da morte assistida e enviou-o para o jornal ‘República’. A censura recusou-o mas o diretor do jornal, Ribeiro de Carvalho, pediu-lhe mais textos. Enviou outro artigo, desta feita sobre a Sociedade das Nações. Novo corte da censura. Escreveu então a Ribeiro de Carvalho: não podia continuar a enviar textos pois era "uma mulher de trabalho" e "precisava de ganhar dinheiro". A resposta foi um convite para integrar o corpo redatorial do jornal.


"Nem estágio fiz", lembra. "Comecei logo como redatora. E aquilo que eu fazia não vinha na agenda: ia ao chefe de redação e propunha trabalhos. Estava muito bem informada, porque tudo me interessava", explica. No entanto, à primeira tentativa houve conflito. Colocaram no texto um cabeçalho a dizer ‘Tribuna da Mulher’. Não deixou.


"Disse-lhes que não havia homens nem mulheres. Que havia apenas jornalistas e que se não tirassem o cabeçalho eu voltava para Viseu." A frase ficou, como slogan cómico frequentemente repetido, mas serviu para avisar a tropa: ali estava uma mulher determinada, que, aos 24 anos, sabia o que queria. Tão determinada que quando lhe disseram que Humberto II, rei de Itália no exílio na altura a instalar-se em Portugal, não dava entrevistas, decidiu trocar-lhe as voltas. Disfarçou-se de criada, foi à Quinta da Piedade, em Sintra, onde o monarca estava provisoriamente, e de lá não saiu enquanto não obteve o ‘sim’ real. Foi um dos seus trabalhos mais aplaudidos.



A fazer o seu batismo de voo em São Paulo, ao lado da prima Emília e da irmã Maria Alexandra

JORNALISMO DE CAUSAS

Manuela de Azevedo diz que se descobriu socialista quando, aos 12 anos, ouviu os pais falarem do fecho iminente do Hospital da Misericórdia de Mangualde, por falta de verbas, e decidiu agir em favor dos mais pobres. Desafiou as amigas e disse ao pai que fariam espetáculos de teatro para angariar fundos. Como veio a acontecer. "Ganhámos dinheiro e demo-lo à Misericórdia", conta. "Isto, para mim, é o verdadeiro socialismo, o do coração", afirma.


Essa preocupação com os mais desfavorecidos acabaria por lhe nortear a carreira como jornalista. Além das reportagens culturais – chegou a entrevistar Hemingway numa passagem-relâmpago do escritor americano por Lisboa –, recorda com satisfação as muitas batalhas que venceu com a força das palavras. O encerramento das furnas de Monsanto está entre as principais. "Viviam lá 40 desgraçados, no meio de água e lodo, e consegui que aquilo fosse encerrado e que as pessoas fossem realojadas em casas condignas da Segurança Social", recorda.


De outra vez mobilizou meios para ajudar a tratar, gratuitamente, uma adolescente a quem tinha rebentado um fogareiro de petróleo no rosto. "A criança passou meses no hospital. Os médicos tiravam-lhe pele da coxa e metiam na cara. Sem cobrarem, graças ao jornal."


A sua capacidade de intervenção viria também a comprovar-se fora do contexto jornalístico. Uma notícia sobre a casa de Camões em Constância despertou-lhe a curiosidade. "Ninguém sabia daquilo no ‘República’ e o que restava da casa era, na verdade, umas ruínas atoladas em entulho. Iam ser destruídas para construírem uma oficina de bate-chapas." Mas esse não seria o desfecho da história. Manuela de Azevedo empenhou-se na questão, conseguiu apoios da Gulbenkian e da Secretaria de Estado do Ensino Superior, recuperou o espaço e fundou a Casa-Memória de Camões, reconhecida em 1983 como associação interesse público.


"Dediquei ao projeto 40 anos da minha vida, mas valeu a pena", afirma. "Constância – que agora toda a gente conhece e visita – é a minha grande obra cultural."




Manuela de Azevedo com a sobrinha, Maria Isabel. Quinze dias depois de ter tirado a carta foi fazer o Rally do Estoril

ORDEM DA LIBERDADE


Condecorada na terça-feira pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a Ordem da Liberdade, Manuela de Azevedo não se deslumbra. "Não posso levar a medalha para o outro mundo...", replica, com um encolher de ombros. Tal como o que resta do seu espólio, a condecoração está destinada ao Museu da Imprensa do Porto. Em vida, doou a maior parte a várias entidades.


Foi um amigo que decidiu lançar uma subscrição a defender o nome da jornalista para a lista dos agraciados com a Ordem da Liberdade. "Parece que todos disseram que sim, exceto um médico, que se lembrava de que há 40 anos eu defendi a eutanásia", diz, embevecida. "Fiquei tão contente. Afinal, tanto tempo depois ainda sou polémica!"


Já os livros que continua a publicar, esses, sim, são importantes para ela. "Noutro dia um amigo contou-me que encontrou a minha peça ‘Camilo e Fanny’ na Feira da Ladra e eu fiquei felicíssima. Saber que uma peça que escrevi há tanto tempo (1957) ainda circula é a melhor prenda que me podiam dar."


O que Manuela de Azevedo não consegue explicar é o segredo da sua longevidade. Diz que sempre levou uma vida simples e sem excessos. Fora isso, viveu "muito intensamente". Não casou. Chegou a estar noiva, em Viseu, mas entre o casamento e a possibilidade de ser jornalista preferiu a aventura de um mundo novo. E não se arrepende. De redatora do ‘República’ passou a chefe de redação da ‘Vida Mundial’ ["Não gostei. Parecia que estava a dar notícias que já tinham dez dias de atraso!"] e conseguiu aquele que era o seu grande sonho: entrar no ‘Diário de Lisboa’.


"Foi a única vez na minha vida que recorri a padrinhos." Com uma palavra do poeta João de Barros e outra do  escritor Aquilino Ribeiro, entrou para a redação do ‘jornal de elite’, onde pôde fazer o que sempre quis: um jornalismo a favor do leitor. É, de resto, o lema da sua vida profissional. "Assim que entrei no jornal, o diretor, Joaquim Manso, disse-me que os jornalistas tinham a liberdade máxima e a responsabilidade máxima. Só se escreve aquilo que se averigua. Não sei se hoje em dia é assim que funciona, mas eu nunca mais esqueci a lição e apliquei-a toda a vida."


E se, no início, foi mal recebida pelos colegas homens do ‘República’ – "uma frieza de cortar à faca" –, acabou por conquistar o respeito dos pares no ‘Diário de Lisboa’ e por impor o seu nome num mundo vincadamente masculino. "Disse-lhes para não se incomodarem com a minha presença. Que falassem como se estivessem diante das mães ou das filhas." Nunca foi assediada, mas também sempre se comportou "como uma senhora", e a qualidade do seu trabalho fez o resto. "Havia até um grupo que se reunia no Chiado para ler o que eu escrevia todos os dias", recorda.


COMBATER A SOLIDÃO


A carreira de Manuela de Azevedo terminou em 1982, no ‘Diário de Notícias’, e desde que deixou de conduzir e poder fazer as suas viagens a Constância que se mantém por Lisboa. Hoje, praticamente confinada ao seu apartamento, à avenida Almirante Reis, e depois da morte da única irmã e do cunhado (os pais tiveram mais quatro filhos, mas morreram na primeira infância), partilha o espaço com a gata ‘Alicinha’, que veio substituir o adorado ‘Jeremias’.

No dia a dia conta com a ajuda de três primas, cada qual com a sua tarefa, enquanto a empregada Gentileza e a filha desta lhe tratam da casa e a ajudam nas refeições e à hora de deitar. Mesmo assim, Manuela de Azevedo diz que é difícil combater a sensação de solidão. "Devia ter tido um filho. Casada ou não, não importava. E é a única coisa de que me arrependo na vida. Nunca pensei que fosse tão doloroso estar sozinha no fim."

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