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José Saramago: erotismo nos livros do Nobel

Vida e obra marcadas pela polémica. Política e não só.
João Pedro Ferreira 26 de Abril de 2020 às 10:00
José Saramago
José Saramago FOTO: Rafael G. Antunes

José de Sousa Saramago (1922-2010) foi, até hoje, o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Nobel da Literatura. A conquista do prémio mais invejado do mundo passou a ter um peso determinante na apreciação não só da obra, mas também de uma vida marcada pela polémica. Saramago não é de leitura fácil. O seu estilo remete para a linguagem oral, com períodos que se estendem por páginas inteiras, poucas vírgulas e muito discurso direto no meio de frases descritivas. A controvérsia gerada pelas posições anticatólicas, sem dispensar uma ou outra incursão erótica, garantiram-lhe publicidade constante. A força da escrita, assente numa cadência narrativa cinematográfica, abriu-lhe as portas de Hollywood, com destaque para as adaptações de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, com Julianne Moore, e de ‘O Homem Duplicado’, com Jake Gyllenhaal.

Em 1975, a militância comunista conduziu-o, na fase mais aguda do período revolucionário, à direção do ‘Diário de Notícias’. Diretor adjunto, era ele quem "mandava" e por isso ficou-lhe colado o papel que desempenhou no ‘saneamento’ (despedimento) político de 24 jornalistas. Saramago subiu na vida a pulso e entrou nos meios intelectuais lisboetas por influência da jornalista e escritora Isabel da Nóbrega, sua companheira durante quase 20 anos. A gratidão foi testemunhada em dedicatórias, depois substituídas – mesmo nas reedições de livros antigos – por outras a uma nova musa, Pilar del Rio, com quem se casou em 1988. 

Do livro ‘Memorial do Convento’, ed. Porto Editora
"(...) Já antes tinha inspecionado o interior da passarola, descendo por uma abertura do convés, escotilha desta nave aérea, ou aeronave, nome facilmente formável no futuro, quando for preciso. Não havia sinais de vida, nem uma cobra, nem a simples lagartixa que em todo o oculto corre, de aranhas nem fio de teia, que moscas ali viriam. Era como o dentro de um ovo, a casca dele, o silêncio que lá está. Ali se deitaram, numa cama de folhagem, servindo as próprias roupas despidas de abrigo e de enxerga. Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou ele nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou na alta noite, entre as nuvens, Blimunda, Baltasar, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram".

Do livro ‘Evangelho Segundo Jesus Cristo’, ed. Porto Editora
"(...) O ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. (...) Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como os dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.

(...) Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, Não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito. (...)".

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