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Ler. Para não esquecer

Os textos, o estilo, a inteligência amarga, o ceticismo de Vasco Pulido Valente rodeiam-me como um bálsamo e um veneno
Francisco José Viegas 1 de Março de 2020 às 11:00

O texto que Vasco Pulido Valente escreveu como balanço aos seus cinquenta anos é uma das suas mais belas premonições. "Não tendo pretendido ir para sítio algum em particular, não cheguei a sítio nenhum em particular. […] Mas, ganhando ou perdendo, desci desamparadamente ao purgatório." Esta ideia   do   purgatório   é   própria   das pessoas que – desamparadamente, como insistirá mais tarde – tiveram a   desgraça   de   serem   livres   e   de "sempre terem sido assim".

A minha relação com Vasco Pulido Valente é quase exclusivamente com os seus textos. Cruzámo-nos em alguns sítios, almoçámos algumas   vezes,   bebemos   juntos   por acaso   e   por   causa   de   amigos   comuns. Não tínhamos nada que nos pudesse aproximar: nem a idade, a ‘origem social’, as amizades, a história pessoal, parte das leituras, os nossos abrigos. Mas foi sempre uma pessoa educadíssima que foi simpática para mim. Vasco Pulido Valente   não   tinha   fama   de   ser   uma ‘pessoa simpática’ – os seus textos, a maioria deles, eram produto de uma criatura que não chegava a escolher os seus inimigos ("Eu não conto com a santidade. Preciso de quem me comprima e me aterrorize."), mas que se rodeava deles naquilo que escrevia. E, no entanto, depois de passar anos a ler aquilo que esses ‘inimigos’ declaravam ser a sua "acidez", VPV assinava textos de uma candura impensável e, até, de uma ternura desarmante ("Lamento do coração os meus irrefletidos ataques ao amor-próprio de portugueses, que tinham, e têm, o seu lado bom. Como também lamento as dúvidas que lancei sobre o futuro de Portugal.") Não interessa. Aprendi muito com os seus textos. Com os livros de história dos séculos XIX e XX. Com as evocações do século XIX, sobretudo – porque é o século em que nasceu a maior parte dos nossos vícios, da nossa desgraça, das nossas genealogias políticas, das nossas famílias da finança e do poder. E dos mitos fundadores do nosso pobre ‘constitucionalismo’ – este bando de irmãos em armas que tritura o país e se compraz com elogios mútuos. Nesta altura, na morte de VPV, não tenho evocações pessoais a fazer (mas tenho duas ou três dívidas de gratidão para com ele). Os seus textos, o seu estilo, a sua inteligência amarga, o seu ceticismo, rodeiam-me como um bálsamo e um veneno. Ler os seus livros é, por isso, um dever.

OS VERSOS ARGENTINOS QUE NOS SALVAM

Desconhecida entre nós, Alejandra Pizarnik (1936-1972) é uma das grandes vozes da poesia argentina – e a sua leitura deixa-me sempre surpreendido. Esta tradução de Fernando Pinto do Amaral na coleção de poesia dirigida por Pedro Mexia pode bem ser uma excelente introdução à sua interminável e complexa melancolia. Uma companhia.

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Para nos recordarmos da recente quarta-feira de cinzas (um dia depois de terça-feira de Entrudo, primeiro dia da Quaresma e 40 dias antes da Páscoa), um belo mas curto disco com seleção de obras de William Byrd, Bach, Gregorio Allegri ou Thomas Weelkes. Esplendor de arrependimento, escuridão e euforia do Barroco.

ARROZ DE LINGUADO, SIMPLES E SUAVE

Duas vezes por ano, pelo menos, vou à Póvoa de Varzim com propósitos diferentes – mas sem nunca deixar de passar pela Petisqueira A Barca a fim de comer (ou seja, prestar homenagem) ao arroz de linguado que o Sr. Américo providencia para minha alegria pessoal. A Petisqueira é o paraíso para quem gosta de arrozes de peixe simples, suaves, sem atropelos.

FUGIR DE

Um tontinho e um bronco parecem destinados a serem os principais candidatos à presidência americana. O resto do mundo escolherá, com certeza, o tontinho – mas quem tem mesmo direito de voto é bem capaz de eleger o bronco, que repetirá as inanidades do seu primeiro mandato – bronco e escroque e malcriado e deselegante em tudo, da política ao mínimo gesto público. De cada vez que aparece uma notícia sobre os EUA apetece esquecer que aquela foi (e é) a pátria de muitos homens livres e decisivos. Para amenizar o meu ressentimento acabo de ler John Hay e Henry Adams – o ‘Education of Henry Adams’ é uma pérola.

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