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Ligados às correntes

Apesar do Inverno, a Póvoa de Varzim, na próxima semana, merece a visita para ouvir e ver escritores. E falar-lhes de perto
Francisco José Viegas 20 de Fevereiro de 2011 às 00:00
Ligados às correntes
Ligados às correntes

Há uma coisa inexplicável em Portugal: a relação entre a literatura e o Verão. Não sei o que se passa com os programadores de festivais de literatura, que são sempre empurrados para a chamada "baixa estação", o que é uma grande desconsideração para com a literatura.

Por exemplo: as Correntes d’Escritas, organizadas há doze anos pela Câmara da Póvoa de Varzim, decorrem no Inverno. Não me queixo particularmente, porque vou agasalhado – mas as noites são frias, há neblinas matinais (um dos nossos melhores "eufemismos meteorológicos"), de vez em quando vem um temporal e ondas de cinco metros. Quando está sol, os participantes juntam-se diante do Auditório, como se estivessem preparados para se bronzear. Mas, vamos e venhamos, é Inverno.

Há mais: o Literatura em Viagem (LeV) decorre em meados de Abril, em Matosinhos. Não há edição em que não chova. Também não há edição em que não haja sol, é verdade – mas as noites ainda são frias e há escritores do mundo inteiro embrulhados em sobretudos, caminhando pelo belo relvado da Biblioteca Florbela Espanca. Não podia ser no Verão? Não. Por exemplo, este ano será a primeira edição do Festival Literário de Sintra, que decorre no Centro Olga Cadaval.

Imagina que vai ver escritores dos quatro continentes a provar queijadas nas esplanadas da vila? Desengane-se. Vai ser em Novembro, quando Sintra recupera o manto do Inverno. Vai ter escritores dos quatro continentes a partilharem o frio sintrense com o fantasma de Lord Byron. O que dirá de nós a literatura? Que vivemos em Inverno permanente.

MAR DE LETRAS

Voltemos, no entanto, à Póvoa – que é uma tradição nas nossas vidas consagradas às letras. As Correntes d’Escritas devem-se à insistência da Câmara local (Luís Diamantino é uma garantia) e de uma equipa onde Manuela Ribeiro não deixa que falhe nada.

Este ano, entre a próxima terça-feira e sábado, há nomes ibero-americanos que não deixam espaço para respirar: Eduardo Lourenço, Luís Sepúlveda, João Paulo Cuenca, Ignacio Martínez Pisón, José Manuel Fajardo, Karla Suárez, Valter Hugo Mãe, Nuno Crato, Onésimo Teotónio de Almeida, Mário Delgado Aparaín, Nuno Júdice, Gastão Cruz, Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, Inês Pedrosa, Ricardo Mendez Salmón, Almeida Faria, Maria Teresa Horta — o catálogo é imenso, e isto todos os dias distribuído por sessões que vão das dez da manhã às dez da noite, entre debates, sessões de lançamento de livros e, a meu ver o melhor, encontros & intervalos.

Há um público amantíssimo que recusa que lhe marquem falta e que, de ano para ano, enche a sala do Auditório Municipal e os corredores, bares, salas e varandas do Hotel Axis Vermar, que é o poiso para tanta literatura.

O meu sonho é escrever uma novela policial neste cenário. Tem tudo: escritores bons de assassinar, esconderijos, histórias de perversão e segredo, traições literárias, motivos óbvios, motivos impossíveis e gente (como eu) que adormece durante as sessões (mas não falta a nenhuma). 

INFO. www.cm-pvarzim.pt/go/correntesdescritas/

CONCERTO: JOHN CALE

Dos Velvet Underground não se pode dizer que tenha ficado uma herança viva para além de Lou Reed e de John Cale (e da recordação de Nico) – no caso de John Cale, a herança é ele próprio e uma influência que não nos deixa forma de escapar: a voz, a poesia e um certo modo de interpretar a história do rock. Um passeio merecido para ouvir uma parte da nossa memória.

Locais: Teatro José Lúcio da Silva, Leiria (dia 24); TeatroCine, Torres Vedras (dia 25); Teatro Virgínia, Torres Novas (dia 26)

FESTIVAL: JAZZFEST

No Norte Alentejano não há só cotovias entre os sobreiros e crepúsculos exemplares (aliás, sobre as cotovias tenho as minhas dúvidas) – em Portalegre há o Festival de Jazz, na sua 9ª edição, que serve de pretexto para passear, conhecer dois ou três restaurantes – e, lá está, ouvir jazz. Nesta semana, ouvir sobretudo Daniel Levin e Jonas Kullhammar, com Sei Miguel como bónus.

info. http://caeportalegre.blogspot.com/

EXPOSIÇÃO: JORGE MOLDER

Esta semana é tudo fora de Lisboa. É das recomendações mais seguras que gosto de fazer: passear, conhecer estradas secundárias, entrar em restaurantes de que nunca se ouviu falar (ou de que sempre se ouviu falar). E ver fotografia. Uma semana depois da morte do fotógrafo e distribuidor de cinema Gérard Castello-Lopes, sugiro um passeio a Castelo Branco para ver Jorge Molder.

Local: Castelo Branco (antigo edifício dos CTT); Todos os dias das 14h às 19h

FUGIR DE...

‘SEXO SEM COMPROMISSO’

É talvez exagerado dizer ‘fuja deste filme!’. Ainda por cima porque a actriz principal é Natalie Portman, musa das musas, beleza de Jerusalém, vertigem de ‘Cisne Negro’. Mas fuja, sim. Já não se suportam filmes que transformam o sexo em brincadeira, da mesma forma que não são suportáveis filmes sobre o sexo como tragédia grega, ainda por cima com Ashton Kutcher.

Em exibição nos cinemas

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