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Lobo Antunes: memória de elefante

Até as descrições eróticas são marcadas pelo trauma da guerra
João Pedro Ferreira 10 de Maio de 2020 às 06:00

António Lobo Antunes (n. 1942) é considerado por muitos o maior escritor português vivo. Além da depuração da escrita, trouxe para a literatura diálogos na linguagem do dia-a-dia: as suas personagens usam e abusam do calão, tal e qual como na vida real. As descrições eróticas são tão cruas que até o protagonista pode ser traído por um assomo de impotência.

A guerra de África, trauma da sua geração, é o pano de fundo da obra de Lobo Antunes. Ganhou todos os prémios literários que havia para ganhar em Portugal e muitos no estrangeiro. Falta-lhe só o mais cobiçado, mas ele desabafou numa entrevista: "Quero que o Nobel se foda". O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, quando o condecorou com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Jorge Sampaio dera-lhe a Grã-Cruz de Santiago), disse que Lobo Antunes estava "acima do Nobel". Não ficou a perder com o ‘prémio de consolação’: a sua obra vai ser publicada em França na Bibliothèque de La Pléiade, a mais prestigiada coleção literária do mundo. É o segundo escritor de língua portuguesa a merecer essa consagração, depois de Fernando Pessoa.

Lobo Antunes nasceu em Lisboa, filho de um médico prestigiado. Estudou no liceu Camões, onde, segundo contou, foi assediado pelo professor de Moral. Participou na guerra colonial em Angola e exerceu medicina como psiquiatra até ao início dos anos 80, quando passou a dedicar-se em exclusivo à escrita. Sobreviveu a três cancros. A sua obra está editada pela D. Quixote. 

Do livro ‘Os Cus de Judas’, ed. Dom Quixote
"(...) Vá por mim, doutor, sopeira em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa. (...) a minha mulher saía cedo para o emprego, ela trazia-me o pequeno-almoço à cama com as meias e as cuecas, boa como o milho, levantava o lençol, olhava e dizia Ai senhor tenente que hoje está tão grande. Ó doutor, só queria que provasse aquela competência. E os modos? E a delicadeza? Nunca lhe ouvi nenhum palavrão, era sempre: o coiso. O seu coiso isto, o seu coiso aquilo, dê-me o seu coiso, senhor tenente, gosto tanto do seu coiso, meta o seu coiso na minha coisinha."
"(...) vou subir a escada a arrastar a mala atrás de mim, abrir a porta, entrar, dissolver-me nos teus braços há tanto tempo sós, ver nascer a manhã na janela estreita do tecto, ao teu lado, assistir à chegada de anjo do padeiro, vou tocar a tua pele, as tuas pernas, o intervalo macio e tenro e côncavo das coxas, o espaço claro que separa os seios e possui o brilho nacarado de certas conchas secretas que a vazante exibe com o orgulho de um tesouro, vou entrar em ti devagar, até ao fundo, apoiado nos braços estendidos para assistir à alegria gritada do orgasmo, ao rosto a rodopiar na almofada coberto de uma elipse de madeixas, às órbitas de repente cegas, de repente opacas, que as pestanas escurecem de franjas trémulas de paramécia."

"(...) telefonei à hospedeira da TAP que me esperava, de Logan’s em riste, num terceiro andar do Bairro Prenda, metida nuns jeans tão apertados que quase se percebia, através do tecido, o pulsar das veias das coxas. (…)

– Olá, Modesty Blaise – disse eu a encolher-me. Os peitos dela, sob a camisola estampada, assemelhavam-se a duas peras enormes debaixo de um guardanapo Coca-Cola: sem a farda, perdia o coeficiente de mistério que eu teimo em atribuir aos anjos por vício que me ficou do catecismo, mesmo aos que servem refeições de celofane num corredor de avião. (…) a boca dela crescia na minha direção, côncava, gigantesca, sem fundo, as unhas vermelhas aumentavam até me roçar a pele, hálitos frios de carne crua aproximavam-se de mim, a gruta de um esófago de poço, onde o pedregulho do meu corpo tombaria num roldão de queda, nascia-lhe na raiz de ganga das coxas. (…)

Despi as calças, desabotoei a camisa, o umbigo do buda troçava da minha magreza pálida e aflita, estendi-me no colchão, envergonhado do tamanho do meu pénis murcho que não crescia, (…) a hospedeira pegou-lhe educadamente com dois dedos como num jantar de cerimónia não sei se com surpresa ou com desgosto, Entesa-te minha besta, ordenei-me eu dentro de mim, (…) toquei a vulva da rapariga e era mole, e morna, e tenra, e molhada, encontrei o nervo duro do clitóris e ela soltou um suspirozinho de chaleira pelo bico esticado dos beiços, Pela alminha de quem lá tens entesa-te, supliquei a mirar de viés a minha pila morta, não me deixes ficar mal e entesa-te, pela tua saúde entesa-te, entesa-te, foda-se (…) a rapariga parou de me beijar, apoiou-se no cotovelo como as figuras dos túmulos etruscos, passou-me a mão na cara e perguntou O que é que não vai bem, Olhos Azuis?, e eu encolhi os ombros, rodei até ficar de bruços no lençol e desatei a chorar. (...)"

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