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Luís de Matos pinta memórias de Roma

É pintor mas já trabalhou em TV e ópera. Vai para a estrada com uma exposição itinerante.
Manuela Guerreiro 8 de Março de 2020 às 09:00

Roma é um museu a céu aberto. A Roma antiga, a cidade dos Papas, com séculos de História, monumentos grandiosos e fontes de água límpida. A Roma que moldou a obra de Luís de Matos e vive nas suas memórias é uma cidade viva, colorida e cheia de pormenores. Luís de Matos tem 79 anos e uma carreira com mais de 50. É pintor, escultor e professor. Trabalhou em televisão, rádio, teatro, ópera e bailado. Estudou e viveu na capital italiana. E apaixonou-se por Roma. Todos os ofícios o levaram a esta cidade que, desde sempre, desenhou e pintou. E é precisamente esse o tema da exposição – neste momento patente no Espaço Artes do Instituto Politécnico de Lisboa, em Benfica – que o artista quer levar a várias cidades portuguesas e espanholas onde a presença romana é visível.

‘Roma 2021 - Atmosphaera et Poetica’ é composta por 24 painéis com temas inspirados na capital italiana, fruto da vivência de Luís de Matos em Roma. Desses 24, há um que se destaca pelo tamanho, pela cor e, sobretudo, pela mensagem. Os outros 23, como classifica o próprio Luís de Matos, "são só as damas de companhia". A estrela da exposição chama-se ‘Roma 2021’. É um óleo sobre lona com quatro metros por 2,35 metros, policromático. Foi apresentado em 2016 na galeria do Instituto Português de Santo António - que gere a famosa Igreja de Santo António dos Portugueses na capital italiana – e o êxito foi tão grande que o artista o quis mostrar em Portugal, onde raramente expõe.

"Quero fazer este tirocínio por cidades que tenham tido presença romana. Estão a ser feitas negociações com Coimbra, Porto, Braga, Chaves, Viseu, Évora, Beja e, possivelmente, Tavira, e também com duas cidades da Andaluzia. Depois, a 21 de abril de 2021 [aniversário da fundação de Roma], será a abertura da exposição na capital italiana com o apoio da autarquia e do turismo locais, dos órgãos de informação e do próprio senado."

Ligações a Portugal
O quadro principal, o imponente ‘Roma 2021’, é composto por vários painéis que registam grandes momentos da História de Roma, alguns com ligação a Portugal. É o caso do painel ‘Reencontro’, como descreve Luís de Matos: "O painel foi feito para as comemorações dos 500 anos da embaixada enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, que foi o maior acontecimento da Europa naquela época. A repercussão foi geral, levavam animais exóticos e até um elefante, com o nome Hanno, que fazia parte do cortejo. Aquela gente nunca tinha visto elefantes. Nesse painel está também representado o reencontro entre S. Francisco de Assis – na tela surge em seu lugar o Papa Francisco – e o seu colega Santo António – representado pelo atual reitor e diretor do Instituto de Santo António dos Portugueses, Agostinho Borges."

Com ligações a Portugal temos ainda uma imagem do Papa João XXI. "Não há desenhos nem retratos da época do único Papa português e não se sabe muito bem como ele era. Sabe-se que tinha barba e que, naquela época, usavam aquele tipo de tiara, com enchimento lateral. E eu fiz uma cara – falta-lhe um olho ou está meio apagado – mas é apenas uma figura e não um retrato. João XXI esteve muito pouco tempo como Papa, sete meses, e viveu sobretudo em Viterbo, onde aliás os seus ossos estiveram como que abandonados. Houve um movimento muito grande, com o apoio das entidades portuguesas e as ossadas foram trasladadas para um túmulo decente. Ele foi envenenado e foi posto de qualquer maneira, embora tivesse sido uma das figuras mais importantes da nação portuguesa."

As memórias de Luís de Matos são também visíveis nos monumentos que espalhou por ‘Roma 2021’ - é o caso do Panteão, do Coliseu ou do Arco de Constantino. Temos também uma parte dedicada à ‘Bocca della Verità’ uma enorme máscara de mármore que está na Igreja de Santa Maria in Cosmedin e tantos outros pormenores, como o portão verde da casa onde o próprio Luís de Matos viveu. Nas cidades que receberem a exposição, esta será acompanhada por outros momentos culturais como seminários, conferências, onde terão destaque a arquitetura, a língua, a música, a gastronomia ou o teatro.

No final será feito um livro para o qual Luís de Matos tem esperança de contar com a colaboração do cardeal português D. Tolentino Mendonça. Luís de Matos tem as suas origens na freguesia de Arada, em Ovar. É casado, tem uma filha e dois netos. Vive em Lisboa e tem um ateliê em A dos Francos, Caldas da Rainha, onde faz trabalhos de escultura em ferro, bronze, pedra, vidro, madeira e cimento. Entre as suas obras mais conhecidas destaque para o monumento a S. João Bosco, em Lisboa.

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