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Maria Teresa Horta: a voz do desejo no feminino

Escreveu alguns dos poemas mais sensuais da língua portuguesa.
João Pedro Ferreira 1 de Dezembro de 2019 às 13:00

Maria Teresa Mascarenhas Horta (n. 1937) ocupa um lugar de destaque na literatura contemporânea. Os seus versos burilados até à perfeição conseguem ser declarações de amor de uma ternura comovente, ao mesmo tempo que transmitem uma sensualidade crua, de um erotismo escaldante. Feminista quando era arriscado sê-lo – foi espancada na rua por uma milícia de guardiães da moral machista que não lhe perdoaram o atrevimento – proclamou desde a juventude ser ‘Minha Senhora de Mim’ (1967) e assumiu o desejo do prazer carnal em ‘Ambas as Mãos Sobre o Corpo’ (1970), exigindo a liberdade para as mulheres com os homens e não contra eles. Em 1972 fez História, juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno: o livro coletivo ‘Novas Cartas Portuguesas’ é uma denúncia da situação da mulher na opressiva sociedade da época. As ‘três Marias’ abalaram a política e os ‘bons costumes’ do Estado Novo. O processo-crime de que foram alvo por ‘atentado à moral’ tornou-se um escândalo internacional. O julgamento tinha sessão marcada para o dia 25 de abril de 1974...

Nascida numa família aristocrática, Maria Teresa Horta é descendente direta dos marqueses de Távora e a sua quinta avó foi Leonor de Almeida, a poetisa Marquesa de Alorna, sobre quem escreveu ‘As Luzes de Leonor’ e ‘Poemas para Leonor’. Publicou o primeiro livro, ‘Espelho Inicial’, em 1960. Já este ano lançou ‘Eu Sou a Minha Poesia – Antologia Pessoal’ e ‘Quotidiano Instável’.

Do livro ‘Eu Sou a Minha Poesia - Antologia Pessoal’, Publicações Dom Quixote

Poema ao desejo

"Empurra a tua espada

no meu ventre

enterra-a devagar até ao cimo

 

Que eu sinta de ti

a queimadura

e a tua mordedura nos meus rins

 

Deixa depois que a tua boca

desça e me contorne as pernas com doçura

Ó meu amor a tua língua

prende

aquilo que desprende de loucura

 

Do livro ‘As Palavras do Corpo (Antologia de Poesia Erótica)’, Publicações Dom Quixote

Invocação ao amor

"Pedir-te a sensação

a água

o travo

 

aquele odor antigo

de uma parede

branca

 

Pedir-te da vertigem

a certeza

que tens nos olhos

quando me desejas

 

Pedir-te sobre a mão

a boca inchada

um rasto de saliva

na garganta

 

Pedir-te que me dispas

e me deites

de borco e os meus seios

na tua cara

 

Pedir-te que me olhes

e me aceites

me percorras

me invadas

me pressintas

 

Pedir-te que me peças

que te queira

no separar das horas

sobre a língua"

 

Face a face

"Bebi de ti

o suco do teu corpo

Inclinando baixo a boca

em tua taça

Frente a ti

me ponho

me encontro

e sem disfarce

Contigo meu amor

Face a face"

 

Modo de amar - I

"Lambe-me os seios

desmancha-me a loucura

usa-me as coxas

devasta-me o umbigo

 

abre-me as pernas

põe-nas nos teus ombros

e lentamente faz o que te digo"

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