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Mark Twain: sexo, Isabel I e Shakespeare

‘1601’ foi a escapadela erótico-satírica do criador de ‘Tom Sawyer’.
João Pedro Ferreira 30 de Junho de 2019 às 06:00
Mark Twain: sexo, Isabel I e Shakespeare
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Mark Twain: sexo, Isabel I e Shakespeare
Mark Twain: sexo, Isabel I e Shakespeare

Samuel Langhorne Clemens (1835-1910), conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, passou a infância e juventude no ambiente rural do sul dos Estados Unidos, onde se inspirou para escrever livros que se tornaram famosos em todo o mundo, como ‘Tom Sawyer’ e ‘Huckleberry Finn’, este último considerado "o maior romance americano". Defensor dos mais fracos (‘O Príncipe e o Pobre’), ativista contra o racismo (‘O Solilóquio do Rei Leopoldo’), homem de valores e de causas (abolição da escravatura, direito ao voto para as mulheres), foi também um pioneiro da ficção científica (‘Um Americano na Corte do Rei Artur’). Humorista de génio, satirizou a sociedade do seu tempo – e riu-se de si próprio. Quando um jornal anunciou que ele tinha morrido, respondeu com uma frase que ficou célebre: "A notícia da minha morte foi um exagero."

Só em 1906 Mark Twain reconheceu a autoria de um conto que circulava anónimo desde 1880. ‘1601: Uma Conversa à Lareira Social no Tempo dos Tudor’ põe em cena Isabel I de Inglaterra, então já perto do fim do seu reinado (morreu em 1603), damas da corte e figuras marcantes da época, com destaque para Shakespeare (ali chamado ‘Shaxpur’). O escândalo foi tal que o crítico e professor de literatura norte-americano Edward Wagenknecht considerou o conto como "a mais famosa peça de pornografia da literatura americana". Mark Twain podia muito bem ter respondido que se tratava de mais um "exagero" a seu respeito.

Do livro ‘1601’, tradução do ebook publicado pelo Project Gutenberg

"Ontem à noite aprouve a Sua Majestade folgar como às vezes faz, e recebeu nos seus aposentos alguns daqueles que escrevem peças, livros e coisas assim, e estes foram lord [Francis] Bacon, sua senhoria Sir Walter Raleigh, Mr. Ben Jonson (...). Com estes veio também o famoso [William] Shaxpur.

(…) No calor da conversa, sucedeu que alguém se descuidou, libertando um fedor excessivamente forte e incómodo, levando todos a rir às gargalhadas e então…

A Rainha – Em verdade, nos meus sessenta e oito anos nunca tinha ouvido um peido como este (...).

Então começaram a falar das maneiras e costumes de muitos povos, e Master Shaxpur falou do livro do senhor Michel de Montaigne, em que se menciona o costume das viúvas de Périgord de usarem sobre o tocado , em sinal de viuvez, uma joia com a forma de um membro viril murcho, aí a rainha riu-se e disse que as viúvas em Inglaterra também andavam com pilas, mas era entre as pernas e não eram murchas, até que o coito lhes fizesse o serviço. Master Shaxpur observou ainda que o senhor de Montaigne também falou de um certo imperador tão potente que possuiu dez donzelas no decurso de uma só noite, enquanto a sua imperatriz recebia vinte e dois vigorosos cavaleiros entre os lençóis, e ainda assim não ficou satisfeita (...).

Falou a seguir (…) sir Walter, de um povo nos confins da América que não copula até os homens atingirem a idade de trinta e cinco anos, e as mulheres de vinte e oito, e que depois só o fazem de sete em sete anos.

A Rainha – O que lhe parece, minha pequena lady Helen? Devemos mandar-te para lá para preservar o teu ventre?

Lady Helen – Se tal apraz a Graça de Vossa Alteza, a minha velha aia ensinou-me que há outras maneiras de servir a Deus além de manter as pernas fechadas; porém, estou disposta a servir-vos também assim, pois que foi Vossa Alteza a dar o exemplo.

A Rainha – Por Deus que essa é uma boa resposta, minha filha.

Lady Alice – Pode ser que essa determinação enfraqueça quando os pelos começarem a nascer-te por baixo do umbigo.

Lady Helen – Nasceram há já dois anos; agora mal consigo tapá-los com a mão.

(…) Sir Walter – Boccaccio conta a história de um frade que atraiu uma donzela à sua cela e se ajoelhou para rezar, dando graças pela virgem tenra que o Senhor lhe enviara; mas o abade espreitou pelo buraco da fechadura e viu um tufo de pelos castanhos com carne branca à volta, de tal maneira que, quando o frade acabou de rezar, já tinha perdido a oportunidade: pois que a donzela só tinha uma cona, e essa estava ocupada para sua satisfação.

(…) Foi então que sir Walter se recordou de uma história que ouvira contar à engenhosa Margarida de Navarra, sobre uma donzela que, estando prestes a ser violada por um velho arcebispo, teve a esperteza de inventar um estratagema para salvar a sua virgindade e disse-lhe: ‘Primeiro, meu senhor, peço-vos, tirai para fora a vossa santa ferramenta e mijai para cima de mim’. Eis senão quando, mal acabou de o fazer, o membro murchou e não voltou a levantar-se."

Piloto no Mississípi

Antes de tornar-se um escritor famoso, Samuel Clemens foi piloto de barcos a vapor no rio Mississípi. Hoje, o nome de Mark Twain é cartaz turístico.

Jornalista de sucesso

O conto ‘A célebre rã saltadora do condado de Calaveras’ foi o seu primeiro êxito, publicado no jornal ‘Territorial Enterprise’, de Virginia City, em 1865.

Amigo de Tesla

O escritor foi amigo do inventor Nikola Tesla e realizou experiências no seu laboratório. Registou a patente de três inventos, incluindo um autocolante.

Ficção científica

‘Um Americano na Corte do Rei Artur’, de 1889, é um livro pioneiro da ficção científica e das viagens no tempo. Inspirou vários filmes de Hollywood.

Tom e Huckleberry

‘Tom Sawyer’ e a sequela ‘Huckleberry Finn’ tornaram Mark Twain mundialmente famoso. O último é considerado ‘o maior romance americano’.

O escândalo de ‘1601’

O conto erótico-satírico que põe Isabel I, Shakespeare e outras figuras históricas a falar de peidos e sexo numa conversa à lareira foi considerado pornográfico.

Isabel I e Shakespeare Samuel Langhorne Clemens O Príncipe Mississípi
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