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Correio da Manhã

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MEMÓRIAS DO 25 DE NOVEMBRO

O antigo Regimento de Comandos, na Amadora, evoca todos os anos, de um modo especial, dois dos seus combatentes, o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, mortos no 25 de Novembro de 1975, numa acção militar para submeter o quartel da Polícia Militar, na Calçada da Ajuda, em Lisboa.
22 de Novembro de 2002 às 13:21
Em sua memória, e diante do monumento ao Esforço do Comando, são espetadas duas G-3 com baioneta e nelas penduradas as respectivas boinas encarnadas. Ponto alto da comemoração é a leitura do relatório de operações dos dias que recolocaram a democracia portuguesa nos trilhos da Liberdade. ‘Abaixo os Páras que querem lançar o País na guerra civil’, ‘Nem Chile, nem Praga!’, ‘Viva a Democracia!’, ‘Viva Portugal!’ foram palavras de ordem que em há 27 anos sublinharam uma acção militar decisiva para a jovem democracia portuguesa. Data marcante na vida política nacional, o 25 de Novembro tem, contudo, uma evocação mais discreta que o 25 de Abril e o derrube do Estado Novo.

Militarmente, porém, revestiu-se de aspectos mais importantes, tanto quantitativos como qualitativos. Só as movimentações dirigidas pelo comando militar, que garantiu o processo democrático, envolveram mais de seis mil homens, ou seja, o dobro dos que agiram para apear de surpresa o governo de Marcello Caetano. Na sua preparação, o 25 de Novembro repetiu, porém, muitos passos do 25 de Abril, com reuniões de militares, redacção de documentos e planeamento operacional. Quem o lembra é o coronel Rodrigo Sousa e Castro que viveu por dentro os dois acontecimentos.

Com 31 anos, em 1975, tinha o posto de capitão e ainda é hoje lembrado pelo ex-presidente da República, Ramalho Eanes, chefe das operações militares, como um homem-chave nos contactos com quartéis de todo o País e também com diversos sectores da sociedade civil. Ao longo de quatro meses, Sousa e Castro teceu as fidelidades essenciais no momento de ‘contar as espingardas’, frase muito em voga no chamado ‘Verão Quente’. Pagando do seu próprio bolso e ao volante de um BMW 1602 azul escuro, que a sogra lhe oferecera pouco depois do 25 de Abril, aquele capitão do Conselho da Revolução fez muitas dezenas de viagens, sobretudo ao Norte, onde contava, no Porto e em Ovar, com o apoio familiar dos seus seis irmãos.

“Já quando das reuniões antes do 25 de Abril, eles tinham-me ajudado muito, inclusive no contornar das dificuldades do racionamento de combustíveis que existia por causa da guerra israelo-árabe”, lembra Sousa e Castro que faz, logo à partida, uma definição clara do 25 de Novembro: “Há muitas ideias erradas sobre o que aconteceu. Não se tratou de qualquer espécie de reacção ao 25 de Abril, mas sim de um movimento social que culminou numa acção militar. Os resultados das eleições para a Constituinte mostraram que o País queria uma evolução política moderada e rejeitava os extremos, fossem de direita ou de esquerda.

Contra esta realidade, o Partido Comunista insistia em ter mais poder e mais importância do que a sua representação eleitoral minoritária. Nesta situação, o Conselho da Revolução dividiu-se, claramente, entre aqueles que consideravam o 25 de Abril um projecto democrático e os que defendiam um processo revolucionário, sem respeito pela vontade da grande maioria dos portugueses.”

Discussões do ‘Documento dos 9’

Ao longo do Verão de 1975, a luta política atingiu o auge. Manifestações gigantes como a da Fonte Luminosa, em Lisboa, que teve Mário Soares como principal orador, e a publicação do chamado ‘Documento dos 9’, redigido por Melo Antunes, deram toda a legitimidade ao grupo político-militar que gerou o 25 de Novembro. Havia a ideia que se estava a exagerar nos atropelos à democracia e esse sentimento era patente nas muitas reuniões discretamente organizadas para discutir a situação.

“Na Foz, no Porto, em casa do actual general Sousa Pinto, comandante da Região Militar de Lisboa, encontrei oficiais que queriam de imediato romper com a cadeia de comando, em oposição ao brigadeiro Corvacho, da Região Militar Norte”, recorda Sousa e Castro, ainda marcado pelas discussões realizadas numa moradia de três pisos, pintada de cinzento claro. Foi ali que se moldaram as cumplicidades que, primeiro, despacharam Corvacho, com os quartéis a anunciar que passavam a obedecer ao comandante da Região Militar Centro, Franco Charais, e depois garantiram uma rectaguarda eficaz nos dias decisivos.

Estratégia antiguerra civil

O 25 de Novembro foi tecido com a preocupação de evitar ao máximo a hipótese de uma guerra civil. Daí a sua cuidada preparação em termos militares e a estratégia de convívio permanente com o adversário. De facto, embora a Assembleia Constituinte chegasse a aprovar, por volta de 20 de Novembro, uma eventual transferência para o Porto, onde se recolheram alguns políticos moderados, uma das grandes forças do 25 de Novembro foi nunca dar espaço às forças contrárias. O comando operacional chefiado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes instalou-se no Regimento de Comandos, na Amadora, e o contacto com os quartéis em deriva esquerdista foi quase sempre feito de forma pessoal e directa.

A estratégia inibiu aventureirismos e para a maioria dos portugueses o 25 de Novembro quase se resumiu a ver a emissão da RTP ser cortada, à hora de jantar, durante a leitura de um comunicado por um militar barbudo (Durand Clemente), para prosseguir pouco depois com um filme cómico de Danny Kaye.Para agir solidamente, os militares do 25 de Novembro preveniram-se em termos de força. Daí o movimento ter mobilizado os mais de seis mil militares em armas para garantir um controlo efectivo de toda a situação. Em resposta à ocupação, na manhã de 25 de Novembro, de várias bases aéreas por grupos de pára-quedistas enganados por forças de extrema-esquerda, o comando militar (coordenado a partir dos Comandos da Amadora) conseguiu colocar todas as Forças Armadas portuguesas a obedecer ao então presidente da República, Costa Gomes, que teve, como era hábito, o papel de gestor da crise.

A única excepção foi a Polícia Militar, sediada na Calçada da Ajuda, que por demora na resposta do seu comando acabou por ser submetida à força, registando-se ali os únicos confrontos violentos, com vítimas mortais. Em sua memória, os vencedores nunca esquecem o 25 de Novembro.O país queria uma evolução política moderada e rejeitava os extremos. Na RTP tudo se resumiu ao corte da leitura de um comunicado por um militar barbudo.

Cardeal Sem poder sobre os bispos

Antes do 25 de Novembro, Sousa e Castro encontrou-se duas vezes com o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. A Igreja Católica assumia na altura, sobretudo no Norte, a liderança no combate aos abusos revolucionários que agravava ainda mais as tensões sociais. Os moderados do Conselho da Revolução entenderam que era urgente desdramatizar a situação e encarregou Sousa e Castro de contactar o cardeal. Os dois eram praticamente conterrâneos, o capitão de Arnoia e o cardeal da vizinha aldeia de São Clemente, tudo no concelho de Celorico de Basto. O prelado foi muito amável, mas surpreendeu o capitão: o cardeal de Lisboa não tinha qualquer poder sobre os outros bispos portugueses e poderia, quanto muito, influenciá-los nas reuniões da Conferência Episcopal. O capitão que conhecia mal as obediências do clero, ficou decepcionado, mas o resultado foi bom: as tensões baixaram e a democracia ficou com caminho tranquilo para vencer.
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