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Michael Cunningham: “Talento sem empenho não chega”

Autor de ‘As Horas’, está em Cascais, numa residência literária. Oportunidade para falar sobre o ofício da escrita, televisão e “essa pessoa” - Donald Trump.
Fernanda Cachão 30 de Junho de 2019 às 06:00
Michael Cunningham
Michael Cunningham FOTO: Bruno Colaço

Autor premiado com o Pulitzer e o Pen/Faulkner quando publicou, em 1998, ‘As Horas’, Michael Cunningham está desde há dois meses a viver no Hotel Pestana Cidadela, em Cascais, no âmbito do programa das Residências Internacionais de Escrita Fundação Dom Luís I. Oportunidade para falar com este americano tranquilo, professor em Yale, argumentista, escritor sem novo livro desde 2015 que no escritório espartano da fortaleza portuguesa, onde se ouvem as gaivotas, reescreve o rascunho que trouxe de Nova Iorque e que considera, certamente com exagero, "uma treta". Já disse que para si escrever é sobretudo um trabalho. Como é o seu dia normal de trabalho?

É o meu trabalho, embora tenha muita sorte em gostar do que faço na maior parte dos dias. É um trabalho cinco dias por semana, e como tal levanto-me de manhã e vou para o meu estúdio trabalhar. Sou mesmo um homem com um trabalho. Preciso de levantar-me e ir logo trabalhar. A única certeza que tenho é que não me posso distrair com a realidade.

Isso é porque realidade é uma coisa e a ficção outra?

Escrever ficção é fazer com que o mundo que inventamos pareça realidade.

Como é que está a ser a experiência em Cascais?

Estou aqui há dois meses e é como ser o Hans Castorp da ‘Montanha Mágica’ [Thomas Mann]. Tenho pessoas à minha volta mas há alturas do dia em que não falo com ninguém. Resido em dois sítios: em Cascais e no livro que escrevo.

De que trata o livro?

É um livro de memórias de uma família. Estou a reescrevê-lo porque não gostei do primeiro rascunho. Não estou a exagerar: este livro estava um desastre, por isso estar aqui é uma bênção. Levei alguns anos para escrever uma primeira versão desta treta. Não estou a exagerar.

Quando é que pensou que queria ser escritor?

Só comecei a escrever na faculdade. Na realidade, queria ser pintor. Era o que estudava na universidade mas sentia que alguma coisa não estava certa. Quando comecei a escrever e embora achasse que não era particularmente bom, havia qualquer coisa no ato, no problema da escrita - como é que alguém pega em papel e tinta e nas palavras do dicionário e produz algo como a Vida - que se sobrepunha aos pincéis e à tinta. Às vezes penso que não há muita diferença entre o talento e o empenho que se coloca numa coisa que nos propomos fazer.

Para se ser escritor não se precisa necessariamente de talento?

O talento é muito importante, mas talento sem empenho não chega. Já tive alunos talentosos que não faziam nada.

É professor de escrita criativa na Universidade de Yale. Como é que é o professor Michael Cunningham?

O Michael Cunnningham torna--se ligeiramente mais professoral porque impõe limites. Eles têm 19, 20, 21 anos e são muito simpáticos, mas eu sou o professor deles, não sou o compincha. Eu ensino durante um semestre e passo esse tempo com 12 jovens muito interessados a tentar responder a questões como: porque se escreve? como se escreve? Dou aulas há 10 anos e tenho visto alguns crescer. E isso é bom.

Partilhar o conhecimento é uma obrigação?

Não acho que tenhamos quaisquer obrigações, mas sinto-me bem por poder partilhar alguma coisa daquilo que aprendi.

O que costuma dizer na primeira aula do semestre?

Apresentamo-nos e começamos com as perguntas que não são suficientemente feitas: para que temos a ficção? para que serve? para quem é? tem um propósito moral? político? de que autores gostam? porquê? o que vos afeta e porquê? e como se veem a si próprios como escritores e, enquanto tal, o que podem dar ao mundo? que medos têm?

Qual foi a pergunta mais inacreditável que eles lhe fizeram?

Acha que tenho talento? Digo sempre: e o que é que tu achas? E ele diz: não sei. E eu digo que só há uma maneira de se saber que é escrever, escrever, escrever.

Alguma vez colocou essa questão a si próprio?

Oh Deus, sim! Se não há dúvidas é porque alguma coisa está mal.

O que é que uma boa história deve ter?

Uma boa história deve transportar o leitor para outro mundo e dar-lhe a exata noção do que é ser outro alguém. Uma boa história em livros ou em televisão, cinema, é como ir a outro país, não como turista mas como um da terra. Como vir a Portugal e ser português. Uma boa história faz-nos pertencer a um mundo maior que o nosso.

Todo o país tem o governo que merece?

Oh não, não, não... Essa é a pergunta que alguns de nós, na América, fazemos a nós próprios. Merecemos isto? Ainda estou estarrecido com a eleição dessa pessoa [Donald Trump]. E, no entanto, cerca de 40 por cento das pessoas ainda o apoiam [pausa prolongada]. Se Donald Trump é o presidente que a América merece? Durante demasiado tempo a América não prestou atenção suficiente à classe média. A América não investiu na educação. As pessoas não são sofisticadas no consumo de notícias. Nunca ensinámos as pessoas a reconhecer uma mentira quando a veem. Eu não sei se foi a América que inventou os ‘reality shows’, mas ele é uma estrela de um ‘reality show’.

Donald Trump dava uma boa personagem?

Não de um livro que eu possa escrever!

É mais a personagem de uma ‘soap opera’?

(risos) Sim. Suspeito que alguém possa escrever algo inspirado na figura dele.

O que é um americano?

É impossível responder a essa pergunta. Se alguém de outro planeta me dissesse: ‘Eu não sei o que é um americano, traz-me uns quantos’, não deveria levar apenas o branco da classe média empregado na banca nem a lésbica afro-americana que está a criar os cinco netos, e no entanto ambos são americanos. É um país tão diverso que não saberia dizer o que é um americano. É uma das coisas de que eu gosto na América. Eu vivo em Nova Iorque e quando estou na rua, se olhar à minha volta e tentar encontrar o americano típico ou onde está o americano parecido comigo não o encontro porque todos são diferentes entre si e de mim. Eu gosto disso. Nova Iorque é muito diferente do resto da América, que é muito diferente e isolada do resto do mundo e é por isso que boa parte dos americanos não querem saber da lésbica afro-americana que está a criar os seus cinco netos. Não penso que Nova Iorque faça parte da América, acho que é antes uma porção de terra ligada ao resto do continente.

Se Donald Trump for eleito novamente é preferível que Nova Iorque se torne na ‘Jangada de pedra’ de José Saramago?

Sim, exatamente. (risos) Soltaremos as amarras.

Enquanto escritor, quais são os assuntos que o interessam?

Talvez seja encontrar o que há de extraordinário nas vidas de todos nós. E isso é uma das razões porque adoro escritores como Flaubert ou Virginia Woolf.

‘As Horas’ foi adaptado ao cinema por Stephen Daldry com argumento adaptado de David Hare. Quando viu o filme, pensou: ‘Isso não é nada assim, David Hare’’?

Sim, mas isso era o que eu queria. Queria ver a adaptação de David Hare, não uma transposição do meu romance para o ecrã.

‘As Horas’ foi prémio Pulitzer e um marco na sua carreira...

Fez uma grande diferença. Nunca imaginei, até porque o meu editor da altura não se entusiasmou com o livro.

Porque é que escreve para televisão e cinema?

Porque adoro televisão e filmes, porque de vez em quando gosto de trabalhar com outro tipo de pessoas.

É verdade que está a escrever o argumento de uma série para a HBO?

Sim, ainda não está absolutamente decidido mas estamos a trabalhar nisso.

Numa época de serviços de ‘streaming’, como o Netflix
e a HBO, como vê o futuro da televisão?

Radioso. Estamos num período ótimo, que não durará para sempre. Algumas televisões por cabo estão já a ficar mais conservadoras... Poderá acontecer como no cinema nos anos 70 e 80, que foram ótimos, mas depois, quando se começou a perder dinheiro, os produtores passaram a ser cautelosos com os investimentos. Acho que isso acontecerá com a televisão.

O que representa para o futuro da televisão a possibilidade que serviços como o YouTube dão, por exemplo, a uma dona de casa do Ohio de filmar-se como as Kardashian?

A boa e a má notícia é que é possível que toda a gente tenha acesso a tudo. Portanto, tudo bem.

Se a sua vida fosse o argumento de uma série de televisão, qual poderia ser o título?

[risos] [pausa] Seria: ‘I blame the Dutch’ (Culpo os Holandeses), porque foi em Amesterdão que recomecei a fumar.

E se fosse uma autobiografia?

‘And yet, da da da’ (E no entanto, ah ah ah)

Acha que alguma vez escreverá uma autobiografia?

Não. Acho que os romances são suficientemente autobiográficos porque em todos há alguma coisa de mim, seja na Virginia Woolf ou num lagarto vindo do espaço. A minha vida é interessante, mas para mim próprio.

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