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Mónica Quintela: "Eu ‘show’ advogada"

Tem 49 anos e não fosse ter agarrado dois casos mediáticos ninguém agora a reconheceria. Primeiro safou uma inspectora da PJ de homicídio e agora aparece de ‘braço dado’ com pedro dias no ‘reality show’ da sua rendição à polícia. É conhecida por ser “vistosa”. O par que forma com o atual companheiro, também advogado, mereceu alcunha mordaz – são “o casal maravilha”
Miriam Assor 20 de Novembro de 2016 às 11:44
A alcunha   pode associar-se   a uma   dupla   de feirantes capazes de imensos truques de malabarismo. Não,   não   é   essa   a   ideia. "Casal maravilha", segundo quem prefere conservar o anonimato, reúne a seguinte explicação: ambos são advogados, fazem parte de uma lista à Ordem dos Advogados e estão em sintonia em algumas defesas. Para    ser   um   pouco   mais atrevido,   digamos   que   a mulher dá a cara e o marido fica na retaguarda. Falamos,   caros   leitores,   de dois membros integrantes do   Conselho   Geral   apresentado   por   Elina   Fraga, recandidata a bastonária. Mónica Quintela e Rui da Silva Leal, os advogados de defesa de Pedro Dias, o cavalheiro que andou durante 28 dias em fuga, depois de ter alegadamente baleado cinco pessoas, matando duas. Ao que parece, os honorários do "casal maravilha" constituem um montante   maravilhoso.   Cada hora ronda 500 euros, ou cem contos na moeda an-tiga,   para   custar   menos mentalmente.

Seja como for, representa um balúrdio para criaturas que não são ricas e é uma módica   quantia   para   os aflitos que querem safar a pele   sem   olhar   a   custos. Um   advogado   conimbricense   de   renome   não aplaude a forma de actuação de Mónica Quintela, no que diz respeito à entrega de Pedro Dias às autoridades: "Eu optaria por uma maneira mais clássica. Jamais   faria   e   diria   o   que   a Dra. Mónica fez e disse. Temos   formas   diferentes   de encarar a advocacia". Refere-se   ao   facto   de   Mónica Quintela   ter   dito   em   primeiro   lugar   ao   director-                   -adjunto   do   ‘Diário   de Coimbra’ (onde o marido, Rui da Silva Leal, o provável vice-presidente de Elina Fraga, é cronista) e à jornalista   Sandra   Felgueiras a   intenção   do   seu   velho cliente Pedro Dias se querer   entregar.   De    ter   consentido,   sugerido,   sabemos lá, que alguém que andava a fugir à polícia concedesse uma entrevista em directo   antes   dos   punhos serem algemados.

Os   holofotes   e   as   luzes que   cobriram,   de   forma inédita, um presumível assassino basearam-se numa coluna:   os   defensores   de Pedro Dias precisavam de ter a certeza de que estava posta   de   lado   qualquer possibilidade de haver algum tiroteio. Foi desta feição   que   Mónica   Quintela justificou ter informado a imprensa, com direito a cameraman, antes de comunicar via telefone ao director nacional da Polícia Judiciária,   Almeida   Rodrigues, que passava as merecidas férias na Indonésia, e que, estremunhado, recebeu a novidade.

Há uma alma viva, aliás, cinco almas, e todas vivas, que   emitem   diferente   visão   do   assunto:   "Sabe, tudo aquilo, aquele espectáculo   circense   não   está relacionado   com   a   segurança de Pedro Dias. É uma manobra   de   publicidade para   que   o   seu   escritório seja famoso". As palavras engrossam às almas: "Mas alguém normal acha que a GNR e a Polícia Judiciária desatariam aos tiros? Este ‘casal   maravilha’   julga   o quê das autoridades?"

Vida vistosa

Mónica Quintela não é teimosa,   talvez   persistente seja o adjectivo adequado. Não contemos com a Dra. para que desista com facilidade. Se decide ir por um determinado   caminho   é complicado   mudar-lhe   a rota.   Não   gosta   de   sentir que alguém lhe está a dar música,   muito   embora adore música, em especial a boa que vem dos anos 80 e 90. E como o que é nacional é bom, Rui Veloso é um dos seus cantores predilectos. Na   literatura,   domina   os clássicos   portugueses, apesar de o seu tempo estar direccionado para os processos dos clientes.

Amigos são contados pelos dedos e todos sinceros, pois coseram a boca para a ‘Domingo’: "Se fosse para falar do marido, tudo bem, os   tribunais   têm    muito respeito por este advogado ligado às liberdades e garantias do cidadão". Uma valente amnésia abalou os seus ex-colegas de liceu e de faculdade. O email enviado ao director da Escola Secundária   José   Falcão, em Coimbra, recebeu nula resposta. Até o antigo professor de Ciências Sociais e de Geografia, Jorge Carvalho, sofreu de um apagão repentino. Parece um coro em verdadeira e sentida   afinidade:   Mónica Quintela?   Nem   ideia   de quem se trata. Salvam-se dois, aliás três, que estão ligeiramente melhores de memória,   e   recordam, sim, uma Mónica Cláudia que não sendo das melhores   alunas,   também   não era das piores, e cujo destaque assentava nos seus cabelos longos e na particularidade   que   Deus   lhe deu, e que a própria caprichava: a de ser "vistosa".

Na   Universidade   de Coimbra   –   Faculdade   de Direito, esta característica de não passar despercebida mantinha-se.   Diz-se   que Mónica Cláudia de Castro Quintela completou o curso com uma perna às costas.   Findou-o   em   1991   e inscreveu-se como advogada   a   8   de   Fevereiro   de 1994. Seria eleita vogal do Conselho Geral da Ordem dos Advogados para o triénio 2014/2016. Terá chegado ao cargo através da mão de Elina Fraga, que por sua vez   aterra   na   Ordem   dos Advogados   pelo   carpo   de Marinho Pinto.

Aos olhos do ex-bastonário, Mónica Quintela é um oceano cheio de qualidades:   "É   uma   pessoa   com grande   verticalidade,   coragem.   É   uma   lutadora." Os elogios continuam: "É alguém   que   faz   parte   do núcleo   de   advogados   que são o orgulho da profissão. Não   é   conformista   e   não tem medo". Marinho Pinto,   que   é   seu   vizinho   de rua,    em   Coimbra,   ainda afirma:   "A   Dra.   Mónica Quintela   defende   tenazmente   os   interesses   dos seus constituintes."

A discórdia consegue dar colorido à vida. Existem alguns profissionais do Direito que pensam desigual: "A   Dra.   Mónica   Quintela, por   exemplo,   patrocina   a Ordem   dos   Advogados num   caso   vergonhoso".   A vergonha   vem   do   caso   de Ana Vieira da Silva, a advogada que coordenava o departamento   de   processos disciplinares da Ordem dos Advogados e que descobriu uma série de processos por resolver e tramitar já guardados   em   arquivo.   Entre esses processos, vivia um contra Elina Fraga, acusada por uma cliente de receber dinheiro para interpor uma   providencia   cautelar que   nunca   entregara   em tribunal. Valeu-lhe, a Elina Fraga, uma sanção de censura, anulada, depois, pelo Tribunal   Administrativo de Mirandela.  

Mónica Quintela, nascida no dia 14 de Julho de 1967, descende de João Maria de Jesus Quintela e de Elisabete   Fernanda   Pereira   de Castro,   reformados,   tem uma irmã mais nova, Helena João, que também é advogada. Três dias antes da mudança do século, a 28 de Dezembro de 2000, enviuvou de João Madeira Cardoso, um ilustre advogado da   zona   de   Albergaria-a- -Velha, Aveiro. Desse matrimónio chegou ao mundo Maria João.

O lugar de nascimento da advogada que defendeu os casos mais improváveis é Vieira do Minho. Lá está; temperamento   minhoto. Nada fica por dizer. Estagiou com o tio materno, e quando o senhor trocou a advocacia para ser conservador,   a   sobrinha   teve como patrono um vizinho que tinha escritório de advogados no mesmo prédio, Amaro   Jorge,   especialista em Direito de Trabalho e, à data da entrega deste texto, presidia o Conselho Regional de Coimbra da Ordem dos Advogados.

Fonte próxima da perfilada   nestes   x-files   assegura que a formanda já mostrava ser "aplicada e interessada" e "estudava o problema do cliente com atenção".

Pedro Dias já havia consultado os serviços do escritório de Mónica Quintela. A razão, pelo que apurámos, residia na regularização do poder paternal da filha   do   agora   suspeito   das mortes de Aguiar da Beira. Tecnicamente é muito capaz, dizem-nos. E mais nos dizem: Mónica Quintela é uma   perita   em   encontrar nulidades de inquérito.

Um   antigo   inspector   da PJ    na   reforma   sublinha: "Não   esquecer"   que   Mónica Quintela é a defensora de Ana Saltão, a inspectora da Polícia Judiciária acusada em 2012 de matar uma octagenária,   avó   do   seu marido, com catorze tiros, cuja sentença de 17 anos de prisão se viu anulada pelo Supremo Tribunal de Justiça, que mandou regressar o processo à primeira instância para repetição do julgamento. "Não esquecer" que tudo é possível se não houver provas inteiras.

X-Files Mónica Quintela
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