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Correio da Manhã

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“Morteiradas pareciam carreiro de formigas no ar”

Granada caiu dentro do aquartelamento quando os vigias dormiam. Morreram dois soldados e oito ficaram feridos.
Manuela Guerreiro 29 de Março de 2020 às 09:00

"Fiz a recruta na Figueira da Foz, no Quartel CICA 2 - Centro de Instrução de Condução Auto. Todos os rapazes que estavam ligados à indústria automóvel iam para lá - mecânicos, como eu, pintores, bate-chapas. Depois fiz a especialidade em Sacavém, mais três meses, e fui para o Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa (RAAF), em Queluz. Como era um quartel de elite não estive lá muito tempo. Tinha campos de ténis e piscina. Passaram por lá jogadores de futebol. O Eusébio, por exemplo, fez lá a tropa.

Estava lá colocado quando morreu o Salazar. O comandante do regimento gostava de se exibir e obrigava os militares a usarem luvas brancas e atacadores nas botas, também brancos. Fui destacado para o funeral. Éramos 100 e tivemos uma instrução especial ‘funeral armas’, treinámos, desfilámos e meteram-nos numa camioneta para o Mosteiro dos Jerónimos. Uns à direita, outros à esquerda, com os atacadores brancos. A urna passou pelo meio e, no final, foi colocada no comboio para Santa Comba Dão.

Depois fui para Évora formar companhia, no Regimento de Infantaria 16. Faz 50 anos que partimos de lá. Embarcámos a 21 de novembro de 1970 no ‘Niassa’.

Primeiro morto
A viagem durou um mês. Chegámos a Porto Amélia, hoje Pemba, a 21 de dezembro. Estivemos dia e meio e partimos em coluna para Mueda, com paragem em Montepuez. Foi aí que vi o primeiro morto. Parámos num largo muito grande, em frente ao quartel dos comandos e, de repente, ouve-se um tiro. Tinha sido um soldado que, inadvertidamente, matou um civil, um rapazito de 17 ou 18 anos.

Chegámos a Mueda a 24 de dezembro, véspera de Natal. Meteram-nos num campo de futebol e improvisámos umas tendas. Choveu tanto... Estivemos dois ou três dias e recebemos as viaturas de outros companheiros que iam descansar. Era uma zona 100 por cento de guerra. Mas não ficámos em Mueda. Fomos para o pior buraco de Moçambique – Omar. Fica a quatro quilómetros da Tanzânia, por onde a Frelimo entrava. Era uma antiga base do inimigo, que uma companhia de Comandos desalojou, e um ponto muito estratégico. Como o comandante desalojado se chamava Omar, ficou esse nome. Estivemos lá 17/18 meses. Não havia civis.

Estávamos a 4 km do rio Rovuma e víamos a Frelimo a passar de barco, a descarregar material e a entrar em Moçambique, mas não podíamos fazer nada. Enquanto eu lá estive só uma granada caiu lá dentro. Omar tinha iluminação elétrica e eu fazia a manutenção do gerador. O quadro geral ficava na minha tenda. Quando havia um ataque, a Frelimo usava as luzes de Omar para se orientar. Nessas alturas, uma das minhas missões era desligar o quadro. Mas o gerador fazia barulho e tinha de parar o motor – estava a 20 metros – antes de ir para o abrigo. Eu estava sempre alerta, as armas sempre limpas, antes de me deitar enchia os cantis, preparava as munições. Naquela noite não preparei nada. Às 04h20 do dia de Carnaval de 1972 dá-se um ataque.

Ouço uma saída de morteiro e salto da cama. Havia vários postos de alerta que faziam rajadas para acordar o pessoal, mas estavam todos a dormir. Saio da cama, descalço, a gritar para os sentinelas. A granada já vinha a caminho. Desliguei a luz, mas ainda tinha de parar o motor, que é lento a desligar. E eles já tinham metido outra no ar, parecia um carreiro de formigas. Vou para um abrigo. E aconteceu. Foi a primeira vez que uma granada de morteiro acertou lá dentro - e caiu em cima da primeira tenda que eu ergui quando lá cheguei. Atingiu os rapazes que tinham fugido para uma vala, mas que ficaram de pé. Estavam lá 20 militares, dois morreram e oito ficaram feridos, um deve ter ficado paraplégico. Uma tristeza.

Depois estivemos quatro meses em Inhambane e mais três em Maringué. Regressámos de avião a 13 de fevereiro de 1973."

Depoimento de: Jorge Francisco Morais Gomes

Comissão: Moçambique (1970-1973)

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