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Correio da Manhã

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Não subestimar a China

O livro não poupa nada. Nem sequer os valores éticos que julgávamos eternos. Há uma mudança em marcha.
Francisco José Viegas 5 de Janeiro de 2020 às 12:00

Kai-Fu Lee (nascido em Taiwan, filho de um historiador chinês, de Sichuan) foi executivo de topo em empresas como a Microsoft ou a Google e conheceu bem os bastidores e palcos de Silicon Valley. Abreviemos o currículo, que é enorme: a dada altura, foi enviado para a China a fim de lançar a Google no país. Como se vê pelo livro, a coisa correu bem até deixar de correr — e, em dada altura, aborrecido com a falta de visão e de resposta dos responsáveis da Google na Califórnia, deixou a empresa. Mas não voltou para os EUA; fixou-se definitivamente naquele que considera ser "o país do futuro" em matéria de novas tecnologias (NT) e de Inteligência Artificial (IA), a China. Ora, quem diz NT e IA, diz quase tudo – porque "o futuro" tem a ver com esse cruzamento, de que a IA é o núcleo.

Devo dizer que, de todos os livros que li sobre a China atual, este – sem ser um livro de história, política, estratégia, diplomacia, questões culturais, sociologia – foi um dos que mais me impressionou. Não por Kai-Fu ter fundado a Sinovation Ventures, uma financiadora de ‘startups’ chinesas, ou por ter estado ligado à criação do pólo inovador de Zhinguancun (uma espécie de Silicon Valley em Pequim), mas porque o seu olhar sobre a guerra sino-americana e sobre a mentalidade inovadora da China contemporânea é simplesmente devastador, original, cruel e sem desculpas.

Para Kai-Fu, a China, que já ultrapassou os EUA (para não falar do Reino Unido, Canadá ou UE) em termos quantitativos, ultrapassará em breve os americanos na totalidade do mundo da IA. Vão longe os tempos da "fase copiadora" da China em relação aos EUA; depois de terem copiado pixel a pixel os sites, plataformas e sistemas americanos, as empresas chinesas de IA e de negócio digital (AliBaba, We Chat, Huawei, TaoBao, etc.) servem-se de um manancial extraordinário de dados (o que vai ser a arma do futuro) e, neste momento, já não precisam do apoio estatal para lançar essa rede que modificará a forma como o nosso mundo será organizado.

O futuro, garante Kai-Fu, não será luminoso. Virão o desemprego e a desregulação dos sistemas sociais, e de formas dramáticas. Mas subestimar a China em lugar de compreendê-la e de estudar o seu crescimento (depois de, há 40 anos, ser um país pobre, saído de um regime brutal), será ainda mais dramático. Este livro é absolutamente explosivo.

Restaurante
A ideia é a de comer coisas simples: comida de família (de raiz alentejana, sobretudo), grelhados generosos, um caril de gambas, salada obrigatória – em ambiente tão familiar como a comida. A Trempe continua, ao fim de tantos anos, a ser um lugar onde vou em busca de conforto, comida e abraços. Mas isso sou eu.

Restaurante A Trempe

Rua Coelho da Rocha, 11, Campo de Ourique, Lisboa

Telefone 213 909 118

Disco
Um príncipe napolitano
Que as penas do novo ano nos sejam leves porque janeiro nunca mais termina – e, para amenizar os serões solitários, não encontro melhor, agora, do que o ‘Secondo Libro di Madrigali’, de Carlo Gesualdo (1566-1613). Gesualdo, príncipe napolitano, descendente dos reis normandos da Sicília, conhecia bem a melancolia.
Delírio

Ver
Paula Rego
O trabalho de Catarina Alfaro como curadora das exposições de Paula Rego na Casa das Histórias continua nesta ‘Desenhar, Encenar, Pintar’, onde se destaca a série ‘Sete Pecados Mortais’ e a possibilidade de, pela primeira vez em Portugal, ver ‘Orgulho’ - um retrato da rainha Maria Antonieta. Maravilhoso e delirante, como se sabe.

CONSELHOS PARA O FRIO
Não fosse dar-se o caso de o funcionamento da Proteção Civil ser tantas vezes criticado e criticável, poderíamos acrescentar-lhe o manancial de conselhos por causa do frio – recomendando às pessoas, em geral, para se agasalharem. A isto poderemos ainda acrescentar as reportagens televisivas que partem para o "Portugal profundo e interior" em busca de neve, torrentes de frio e canalizações congeladas a fim de os repórteres e as repórteres exibirem os seus anoraques acolchoados e os gorros coloridos até às orelhas. Um dia destes fazem ‘workshops’ sobre como vestir uma camisolinha de lã. Bobos.

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