Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

“Nasci velho e tenho andado a viver às avessas”

Na meia-idade começou mentalmente a rejuvenescer, pelo que a morte “será uma espécie de parto ao contrário”. Quase com 90 anos, José Rentes de Carvalho fala sobre a vida, as mulheres, os acasos e os dias de isolamento na Holanda por causa da pandemia
Fernanda Cachão 10 de Maio de 2020 às 06:00

Em fevereiro, a ideia era pôr-se ao volante do carro e "partir para as berças" mal recebesse a renovação da carta de condução, entretanto caducada. Em meados do mês seguinte, a quarentena imposta pela pandemia, que suspendeu todos os planos, adiou sem data também os de José Rentes de Carvalho. Esta entrevista foi feita por email, durante um mês. O escritor, na sua casa na Holanda, celebra na sexta-feira o nonagésimo aniversário.

Quase a completar 90 anos, sem poder regressar a Portugal, o que é que tem visto da janela da sua casa na Holanda?
A janela do meu quarto de trabalho, no topo de um prédio de quatro andares, tem uma vista que facilita a ilusão, porque se quiser não preciso de ver o pequeno estacionamento, pois um renque de árvores esconde a estrada local e logo por detrás há um parque de 80 hectares e um lago do mesmo tamanho. Numa cidade superpovoada é difícil encontrar melhor e o bairro está longe de ser chique, tem partes de ‘Little Chicago’, mas nada que aflija, pois com 165 nacionalidades diferentes seria milagre se fosse tudo sereno. De momento, com a quarentena, na estrada local passa esporadicamente um carro, o que dá uma sensação de irrealidade, porque normalmente o trânsito justifica os vidros duplos.

Em que é que pensa com mais frequência?
Duas semanas atrás vivia com o sentimento de que a tragédia andava longe e ficava por lá, os meus pensamentos seguiam a rotina da minha vida, que é uma com poucas regras e ainda menos obrigações, porque por natureza sou um solitário. Mas de súbito tudo mudou, há duas semanas estou preso em casa e assim ficaria até 6 de abril, mas ontem veio a má notícia de que será até 1 de junho ou para depois, de maneira que o meu pensamento agora é um só: como vai a sociedade, como vai a minha família aguentar este peso? A mim pouco se me dá, já fiz o meu caminho e de qualquer modo estou a chegar à meta. Mas os meus e todos aqueles a quem quero bem, que futuro os espera? E os outros? Quantos aguentarão? Bem gostaria de pensamentos de esperança, mas vejo tudo negro.

Conte uma primeira memória de liberdade e explique-nos em que é que essa memória foi fundadora do José Rentes de Carvalho como ele chegou até aqui.
Para começar deve haver um componente genético, porque tudo o que ouvi dos meus avós e de um bisavô acabava sempre em histórias de independência e rebeldia, com tiros pelo meio e inimizades para o resto da vida. O meu pai era do mesmo caráter, e eu, filho único de mãe ditatorial, além de nascer rebelde logo de pequenino, tive de lutar pela minha liberdade, e quando ma negavam arranjava eu manhas que ma garantiam. A escola primária e o liceu, autoritários à moda do tempo, agudizaram a minha precisão de liberdade e não havia um mês que estava na tropa quando paguei o gosto de ser livre com duas semanas de prisão no Quartel da Graça, para onde sempre olho com saudade. Desde esse tempo, ninguém me voltou a pôr o pé no pescoço, nem tive capitão nem patrão que mandasse em mim, mas aprendam os invejosos que a liberdade se paga caro e de muitas maneiras.

Como é que é possível isso: "pagar-se caro a liberdade, e de muitas maneiras"?
Essa é uma pergunta a fingir. Com um patrão, um diretor, um gerente, um chefe de serviço, a maioria das pessoas vive numa situação de hierarquia, de modo que até certo ponto e por razões diversas, legítimas ou não, é-lhe reduzida a liberdade. No caso de não querer sofrer hierarquias ou cadeias de comando, um sujeito como eu descobre que é bicho à solta, com todas as consequências que isso, na sociedade organizada, acarreta, entre outras, a falta de proteção que a hierarquia oferece, a solitude, o isolamento, o esforço de suportar toda a espécie de irritações e inimizades que a independência gera. Aos noventa anos, ainda pago caro a minha liberdade, mas não choro nem me arrependo, foi a minha escolha, ‘My Way’, como Sinatra cantava.

Como era o rapazinho José na terra e no tempo que o viram nascer?
Um puto difícil, teimoso, solitário, ainda por cima inteligente, de uma sensibilidade doentia, superviciado na leitura. Amigos? Zero. Amores? Uma namorada aos 10 anos, coisa de uma semana. A seguinte, aos 17, trocou-me por um tenente de Cavalaria. Dos dezassete aos vinte anos em Lisboa, ainda hoje não sei se então vivi ou tive uma existência por procuração, porque me desconheço naquilo que recordo, tenho ideia que então devo ter representado um papel como se figurasse nas revistas do Parque Mayer.

O que andava a fazer por Lisboa nessa altura?
Preguiçava muito no Quartel da Graça. Fazia visitas esporádicas à Faculdade de Direito. Vadiava quanto podia, desinteressado se era dia ou noite. Tocava guitarra na Parreirinha de Alfama e num estaminé na Travessa da Queimada, O Estribo, e devo ser dos raros que já subiram o Chiado a cavalo, no meu caso a mando do general para levar correio a uma casa na Rua Ivens. Tremi na carreira de tiro em Sintra e uma tarde, certo de que era assim que se fazia, entrei no ‘Diário de Notícias’, pedi para falar ao chefe de redação, disse-lhe que queria ser jornalista e ele não se riu, foi bondoso comigo, deu-me bons conselhos. Tive pensamentos sombrios no Cais das Colunas, uma namorada que me levava para o Jardim Botânico, que então se chamava Colonial, e um belo dia de repente tudo isso findou, o comboio devolveu-me às berças e a um inesperado destino.

Que idade tinha quando foi recambiado de Lisboa? Como é que isso sucedeu?
Tinha vinte anos. O serviço militar acabara, o estudo não me interessava, para o jornalismo ainda era cedo, emprego não tinha, voltei para casa à espera que acontecesse um milagre.

Não sei se continuou a tocar guitarra, mas o jornalismo ficou. Porque é que quis ser jornalista?
O que veio a seguir não me deixou tempo nem vontade para a guitarra, e quando uns doze anos depois lhe peguei descobri que tinha descido ao nível de principiante e parei. Por vezes pergunto-me se seria de facto o chefe de redação ou alguém por ele, de qualquer modo o sentimento ficou de me tratar com a cortesia e a benevolência que as pessoas bondosas têm para com os ingénuos. O motivo de querer ser jornalista tinha a ver com o fascínio que a leitura de ‘O Primeiro de Janeiro’ exercia sobre mim. Comecei a lê-lo aos cinco anos pela mão do meu avô paterno, era a minha janela para o mundo, eu queria pertencer à gente que escrevia assim e sabia tanto da vida.

Quais eram as "histórias de independência e rebeldia" desse avô?  
As histórias de independência e rebeldia do meu avô José Maria são tantas que com elas enchi umas vinte páginas de ‘Ernestina’. Está lá quase tudo, desde o ter-se oposto a um pai tirânico, vencer o seu analfabetismo sozinho com a ajuda do Método de João de Deus, ser socialista num tempo em que, se descoberto, isso equivalia à miséria e à prisão. Leitor impenitente de obras da História, admirador de Napoleão, o ‘Primeiro de Janeiro’ era a sua Bíblia e nele me ensinou a ler.

Quem foi a pessoa que mais marcou o seu crescimento, antes de Lisboa?
São duas, e ambas mulheres, as pessoas que mais me marcaram: a minha professora da primária, que além do que em três anos me ensinou me deu o carinho e a atenção que em casa não tinha; a segunda foi Mistress Cockburn, da firma de Vinho do Porto que ainda existe, senhora rica com carro e chofer, que se tomou de simpatia por mim, com quem sonhei vir a casar, e que falando mau Português falava Inglês comigo, que eu assim aprendi sem dar conta e cheguei ao liceu com anos de avanço nessa disciplina e melhor pronúncia do que o professor.

Mistress Cockburn foi o primeiro amor do José, ainda menino?
Dos seis aos nove anos Mistress Cockburn, mais do que primeiro amor foi a minha paixão, fiz planos sérios de fugir com ela sem ideia de para onde iríamos, mas certo que minha mãe se encarregaria dos dois filhos que ela tinha. O trombudo e inchado Mister Cockburn não entrava no filme. O chofer sim, esse ia-nos levar à estação de São Bento.

Alguma dessas pessoas da sua vida se queixou, ou alguém por elas, de terem servido de inspiração aos seus livros?
Até à data não recebi comentários nem queixas, se bem que de longe a longe um ou outro leitor me faça saber que não é de bom filho escrever de maneira tão crua sobre a própria família. Esses são os que ignoram que amor e solidariedade vão muito bem com a franqueza.

Em que época fez o serviço militar?
Catorze meses entre 1948 e 1949. Para contar esse tempo surrealista precisaria de um livro, fico-me por estes apontamentos: cada semana descíamos às cavalariças renovar a palha dos colchões em que dormíamos, a disciplina e o armamento datavam da I Guerra Mundial; um diplomata sueco que se assustou com a qualidade da comida no quartel e o disse a um jornalista foi expulso. Mas como o desleixo era grande e a disciplina pouca, saltava-se o muro e a cidade tinha muito para oferecer.

Quando voltou à terra, com 20 anos, o que encontrou? Aconteceu-lhe o milagre por que esperava?
Encontrei um túnel de escuridão, sem perspetiva de futuro e nenhuma de me salvar dos vários infernos que me atormentavam, mas uma senhora francesa que há anos me tinha tomado em simpatia, não me estendeu uma mão mas duas, e pouco demorou a ver-me em Paris com a sensação do muçulmano que nada esperava do Profeta e de repente se vê em Meca. Não é fazer publicidade, mas os detalhes não caberiam aqui, tudo isso e muito mais se pode ler em ‘La Coca’.

Pode agradecer à vida que teve os livros que depois escreveu?
Mais que certamente, e isso o fiz antes de ter ideia de que existia a ‘faction literature’, mas graças a Deus mantive o bom senso e a cautela de não pôr tudo preto no branco, tanto para salvaguarda do interesse e da intimidade alheia, como para evitar que um outro tolo pudesse julgar-me herdeiro de Fernão Mendes Pinto. De qualquer modo guardo mais do que revelei e assim vivo em paz e não incomodo o próximo.

Pode agradecer às mulheres que encontrou as oportunidades que a vida lhe deu?
Dizer-lhes obrigado ficaria muito aquém do devido, pois mesmo às poucas que duma outra maneira me puseram obstáculos, passaram rasteiras, e figuradamente espetaram a faca nas costas, continuo grato pelo que com elas aprendi. Também diz alguma coisa o facto de estar casado com a mesma mulher há cinquenta e oito anos, e eu não ser conhecido como alguém fácil de aturar.

Casou-se aos 32 anos e assim continua. Como foi possível a longevidade matrimonial? Como a conheceu e convenceu?
Começando pelo fim: ela era a minha cunhada, tinha casado com um diplomata brasileiro e vivia no Rio de Janeiro, mas ao fim de dois anos divorciaram-se, ela voltou para Amesterdão na altura em que eu já vivia separado e começara o divórcio. Assim se juntaram dois dramas e descobrimos o nosso destino, felizmente com a compreensão das minhas filhas, da ex-mulher e do resto da família. Damo-nos todos bem, somos francos, solidários, exemplares no respeito mútuo e na união. A longevidade matrimonial talvez se explique pela nossa capacidade de amar e ambos compreendermos e respeitarmos as idiossincrasias um do outro.

Como saiu do País?
Saí de Gondarém, no Minho, onde então vivíamos. Uma saída rocambolesca. O meu pai tinha um amigo que era inspetor da PIDE e o tinha avisado que eu andava em más companhias (não andava), e era mais avisado que fugisse. O aspeto rocambolesco continuou, porque como não tinha passaporte meteu-se uma cunha ao dr. Trigo de Negreiros, que era transmontano e ministro do Interior (como então se dizia) e dentro de dias estava em Paris.

Qual foi a sua primeira profissão?
A roda da sorte pôs no meu caminho Joaquim Novais Teixeira (esse brilhante jornalista e intelectual de peso que Salazar odiava) que era em Paris o correspondente de ‘O Estado de São Paulo’ e de ‘O Globo’. Pela sua mão comecei a fazer biscates jornalísticos sobre o que era a minha paixão, o Cinema. Dos biscates passei ao jornalismo a sério, chegara à meta com que tinha sonhado e o resto é História.

Novais Teixeira é uma figura fundamental na sua vida. O vosso encontro foi um acaso? Qual a importância dos acasos na sua vida?
O Novais Teixeira dava de graça a ‘O Primeiro de Janeiro’ as crónicas que escrevia para ‘O Estado de São Paulo’ e eu era seu leitor fanático e maravilhado com a qualidade daquela escrita e o que com ela aprendia. Chegado a Paris nem uma semana esperei para lhe ir bater à porta e ele generosamente me atendeu, ouviu e nomeou seu afilhado, deu-me a mão, guiou-me por caminhos que eu nem suspeitava e até ao seu falecimento, mais de vinte anos depois, foi a figura mais importante da minha vida.
No que respeita os acasos tenho ideia que devia escrever com maiúscula os que me têm acontecido, porque têm sido muitos, alguns espetaculares, outros decisivos na mudança de rumo. Como são inexplicáveis e me infundem respeito há muito fiz minhas as palavras de Shakespeare de que há mais coisas entre o Céu e a Terra do que as com que podemos sonhar.

O que é que lhe trouxe o jornalismo ao bolso e ao pensamento?
Durante muito tempo, nos anos 80 e 90, colaborei em dois grandes jornais holandeses, ‘de Volkskrant’ e ‘NRC Hanelsblad’, no que deve ter sido o fim do período áureo da imprensa escrita. A retribuição era generosa, a liberdade total, o apoio logístico sempre do melhor. Um sonho comparado com as condições da atualidade.
Se o jornalismo alguma coisa mudou no meu pensamento e comportamento deve ter sido pouca, porque sinto que continuo quase com os mesmos defeitos e qualidades. Terei aqui e ali arredondado arestas e feito algum esforço para compreender e aceitar o meu semelhante, mas isso mais por cortesia do que convicção.

Em 1968 publicou o primeiro livro, 'Montedor'. Lembra-se da primeira tentativa de ficção?
Sei que foi aos doze anos porque ainda tenho dois cadernos desse tempo. Eram histórias simples, mas com personagens, enredo, diálogos e um fim invariavelmente triste.

'Montedor' foi editado pela Prelo, do Partido Comunista. Sei que foi por acaso mas, politicamente, como era então o seu pensamento?
O Novais Teixeira, que tinha o manuscrito, foi quem tratou da edição sem nada me dizer e deve tê-lo feito por intermédio de algum amigo, um daqueles favores à portuguesa, pois ele estava no oposto do comunismo. Pela minha parte, por volta dos quinze anos e com o que então já tinha lido, o comunismo deixara de me aparecer como a salvação do mundo e o fim da desigualdade.

O que é que aconteceu por volta dos seus 15 anos para perceber que o comunismo não era "a salvação do mundo e o fim da desigualdade"?
Além da incrível quantidade de leituras que tinha feito, a minha sensibilidade já então me tornava desagradável o rebanho e os mandamentos. Se me proibiam ou obrigavam, o meu instinto só conhecia uma reação: desobedecer. E como o comunismo era ortodoxia e ditadura, fosse ela do proletariado, os narizes todos para o mesmo lado, tudo isso ia contra a minha natureza e negava o ideal democrático que já então era e continua a ser o meu.

Presumo que vai do Brasil viver para a Holanda. Como achou o país nessa altura?
Já o disse umas quantas vezes, se eu tivesse tido a pouca sorte de ficar no Brasil tinha morrido bem antes dos 40 anos. Aquela sociedade não era nem é para mim, tenho um riso amargo quando me falam da ‘nonchalance’ e alegria de vida no Brasil, porque não conheço outra sociedade que tenha igual dureza e desigualdade, onde a subserviência, o autoritarismo e a hipocrisia pareçam essenciais para sobreviver. A Holanda foi um pasmo e todo o contrário do Brasil, de tal maneira que no início nem acreditei, vi aquela sociedade com olhos de cínico. Ri, critiquei, e para meu assombro os holandeses não levaram a mal a minha malícia nem as críticas, e assim me deram a lição de liberdade e democracia que eu conhecia dos livros, mas de facto ainda não tinha aprendido.

Durante bastante tempo foi mais reconhecido na Holanda do que em Portugal. Isso pesava-lhe ou não atribui grande importância à questão do 'reconhecimento'?
De facto não pesava, porque o reconhecimento na Holanda tinha uma sinceridade e uma qualidade que ainda hoje não espero dos meus colegas portugueses, não porque sejam má gente ou invejosos, mas porque o ambiente e os costumes quase que obrigam à hipocrisia. O reconhecimento que para mim mais conta é o dos leitores. Esse na Holanda nunca me faltou e de há dez anos para cá também de certa maneira o tenho em Portugal, com uma triste diferença: se digo que vou votar no senhor Wilders, os leitores holandeses acharão que é o meu direito, mas os portugueses, leitores ou não, e que pouco ou nada sabem do senhor Wilders ou da política neerlandesa são prontos ao ostracismo e àquela infantil ameaça: "Nunca mais leio um livro dele." É facto e uma triste verdade, a democracia não se aprende de um dia para o outro, e em cinquenta anos também não.

Pouco antes de termos começado esta entrevista, António Costa classificou como "repugnante" a declaração do ministro das Finanças holandês. Wopke Hoekstra terá dito que a Comissão Europeia devia investigar países como a Espanha e a Itália, que afirmam não ter margem orçamental para lidar com a crise provocada pela pandemia. Quando ouviu António Costa o que é que pensou?
Como não sou político nem economista, só posso reagir como cidadão, de modo que a "repugnância" do primeiro-ministro me surpreendeu pelo descaramento, porque podem ser muitas as explicações técnicas e políticas sobre as diferenças entre os países membros, mas o caso é que há os que pagam e os que recebem. E os que pagam sabem bem que o seu dinheiro não será só para "vinho e mulheres", uma parte substancial irá para as castas no poder, pelo que a "repugnância" me parece mais uma expressão do medo de não receber do que um anseio de moralidade.

Face aos posteriores desenvolvimentos, como perspetiva o futuro da União Europeia (UE)?
Os países membros estão de tal maneira amarrados uns aos outros que se a UE se desintegrar todos perderão. Também pode acontecer que os cidadãos dos países que pagam se cansem da generosidade e através de eleições forcem os seus governos a serem menos mãos-largas.

Fui ao seu blogue (’Tempo Contado’) e encontrei isto a propósito das suas idas ao supermercado: "A expressão dos rostos não mente. Há os que viram a cara, não vá eu espirrar para aquele lado (...) lê-se-lhes na cara a interrogação: como é possível deixar que matusaléns destes andem à solta entre nós?" Acontece-lhe ficar chateado por ser velho?
Não posso ficar chateado pela simples razão de que não sou velho, e se com esta resposta julgar que estou de facto a ficar cheché desengane-se, não estou. O que acontece, e nem todos compreenderão, é que nasci velho e tenho andado a viver às avessas. Quando atingi a meia idade comecei mentalmente a rejuvenescer, a minha morte será uma espécie de parto ao contrário.

Quando pensa na situação sanitária presente, o que lhe ocorre?
Que o medo é mau conselheiro. Espalham a ideia de que só se morre do coronavírus e se lhe escaparmos todas as outras razões da morte deixam de contar. Infelizmente também é um exercício para, sob a capa da proteção, instaurar o autoritarismo e o policiamento da sociedade, com as consequências que isso traz.

E mais adiante, ainda no blogue: "Vejo, oiço, compreendo, perdoo e sorrio, já vi mais do que eles e nem a morte me assusta. Fora isso, semanas atrás examinaram-me por todos os lados, deram-me por escorreito da cabeça, tronco e membros, foi a minha carta de condução renovada e é válida até ao fim de 2025." A que é que se deve essa condição física?
Nos meus antepassados há gente com noventa e mais anos, por isso a genética explica alguma coisa. Depois, além de não ser de excessos, há muito deixei de me aborrecer e posso dizer com verdade que não gasto energia com raivas e ódios, não quero mal a ninguém, vivo em santa paz comigo e com o meu semelhante.

Quando vai ser a próxima viagem?
Assim que me deixarem sair da prisão ‘coronática’ faço as malas e meto-me aos dois mil quilómetros de autoestrada que sei de cor. Infelizmente tenho a impressão de que vai demorar.

Também escreveu: "Nasci velho e tenho andado a viver às avessas. Quando atingi a meia-idade comecei mentalmente a rejuvenescer." O que é que justifica a meninice em que, presumo, vive?
Não deve haver justificação, mas talvez esta ande perto: vivo sem inveja nem ambição, o que tenho basta para as minhas necessidades, creio que todos os dias arranjo um motivo para sorrir e há muito aprendi que não está no meu poder pôr fim às misérias do mundo.

No início desta entrevista disse que "via tudo negro". Um mês depois mudou alguma coisa na forma como vê o futuro, o seu e daqueles a quem quer bem?
Infelizmente não e assusta-me a passividade com que vejo aceitar imposições tão drásticas à liberdade. Hoje em nome do coronavírus, amanhã em razão de um novo medo.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)