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Correio da Manhã

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Nesta crise, penso

Consolo-me pensando na rapariga que me traz comida, na enfermeira, nos canalizadores que vieram à minha rua.
Maria Filomena Mónica 12 de Abril de 2020 às 14:00

No mundo moderno, uma epidemia passou a ser vista como uma calamidade que só acontece àqueles que vivem para lá dos Urais, abaixo do Equador ou em Zhôngguó, o país que, em 1516, o navegador português Duarte Barbosa designou como China. Vivíamos como se fossemos intocáveis e imortais. Não tínhamos sido nós a inventar os computadores, os telemóveis, as ressonâncias magnéticas, os robots e o micro-ondas? Como era possível imaginar que, neste mundo fantástico, viesse a surgir um vírus mortal incontrolável?

Indiferente aos poderes económicos, religiosos e políticos, o Covid-19 entrou sorrateiramente nos nossos corpos. Os governos, uns atrás dos outros, têm procurado divisar uma estratégia, mas todas parecem falhar. A economia sofreu um choque brutal, a política tem variado ao sabor das marés e os cidadãos passaram a lavar as mãos de 5 em 5 minutos. A dimensão do desastre é bíblica.

Releia-se o Antigo Testamento (2 Samuel, 24:15): "E então o Senhor enviou uma peste sobre o povo." Mas como foi possível isto acontecer nos tempos modernos? Ninguém tem resposta para esta pergunta. Nem é tanto o número de mortos em Itália que nos comove; o que mais nos atinge é pensar no que pode acontecer àqueles que mais próximo de nós estão. Isto, sim, dói e muito.

Muitos iremos perder os empregos, possivelmente as nossas casas e, por fim, as pequenas coisas que fazem parte do nosso quotidiano. Um dia, talvez ainda em minha vida, a peste acabará. E quero crer que seremos capazes de refazer o mundo em bases mais solidárias. Talvez que a consciência da brevidade da vida nos leve a imaginar uma forma mais justa da organização da sociedade, ou seja, uma ordem social em que os ricos não sejam tão extravagantemente ricos e os pobres tão horrivelmente pobres. Onde qualquer criança, provinda de um meio carenciado possa ter, à nascença, uma oportunidade equivalente a outra que tem, por detrás, uma família rica e eventualmente culta.

Mas de nada tenho a certeza. O que irá acontecer aos meus filhos e aos meus netos? Como irá a pandemia afetá-los económica, moral e psicologicamente? Será que lhes vai ser possível herdar os valores em que acreditei, à cabeça a liberdade e a justiça social? Neste tempo de angústia, consolo-me pensando, não só neles, mas em quem me tem ajudado para além do seu dever: na rapariga que todos os dias me traz comida a casa, no sorriso da enfermeira que, correndo perigo de vida, me atende, nos canalizadores que, às 3 horas da manhã, se deslocaram até à minha rua por ter rebentado um cano. Se em muitos o traço mais saliente é o egoísmo, noutros existe um fundo de bondade que, em crises como esta, vem à superfície. É neles que penso. E são eles que me confortam.

PORMENORES
Magistratura independente
Num país pouco dado a confiar nas instituições, é imperioso que a magistratura seja independente. Saúdo a expulsão do juiz Rangel, arguido no processo Lex por suspeitas de corrupção. Deixou uma marca de tal modo negra no sistema judicial que terá de passar muito tempo antes que possamos acreditar que uma sentença se não compra.

A minha receita para a crise do coronavírus
Eis a minha receita para a crise do coronavírus. Oiça, todos os dias, uma das sonatas para piano de F. Schubert. Algumas contêm trechos sombrios, mas depressa são substituídos por uma luz que nos devolve a paz. Ontem, ouvi a Sonata para piano, em sol maior, D 894. Adormeci com Alfred Brendel a interpretá-la.

‘Testamento vital’ só nos hospitais públicos?
O Parlamento aprovou uma lei conferindo existência legal ao chamado ‘Testamento Vital’, a DAV (Declaração Antecipada da Vontade). Ao assinarmos este documento declaramos não querer ficar sujeitos a qualquer tipo de ‘obstinação terapêutica’. Alguém me  explica por que tal documento apenas é facultado aos hospitais da rede pública?

Fugir de…Reforma obrigatória
Não entendo o motivo que leva o Estado a obrigar os indivíduos que para ele trabalham a reformar-se obrigatoriamente aos 70 anos. Tendo em conta a evolução demográfica isto é um absurdo. Atente-se no caso de um médico exemplar, o dr. Manuel Antunes, diretor do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra, que, em 2018, foi forçado a trocar o seu serviço pelo setor privado. 

+ info
A legislação que regulamenta as aposentações da função pública prevê, além da aposentação (a habitual ‘reforma’, atualmente aos 66 anos e 5 meses), a figura da jubilação. ao atingir os 70 anos, o funcionário é obrigatoriamente jubilado e deixa de poder exercer funções remuneradas ao serviço do estado. magistrados, médicos e professores universitários são dos que mais continuam a trabalhar até à jubilação.

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