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Novas ordens, novos rumos

A decisão foi dolorosa: o Navio-Escola Sagres está de volta por causa da pandemia
5 de Abril de 2020 às 11:00
Novas ordens, novos rumos
Novas ordens, novos rumos FOTO: Direitos Reservados
Foi uma semana marcante. Marcada pelos desenvolvimentos no impacto provocado pela pandemia da Covid-19 - no País, na Europa e no Mundo -, marcada por mudanças de comportamentos cívicos e sociais, marcada por decisões difíceis, marcada, para nós, pela dolorosa deliberação que alterou o rumo da nossa viagem.

A evolução dos acontecimentos da pandemia, os estados de emergência estabelecidos nos portos a praticar, a inviabilidade de cumprir com os objetivos da missão, o cancelamento dos Jogos Olímpicos, o potencial risco contágio da guarnição ajudavam a prever a difícil, mas inevitável, decisão tomada no dia 24 de março.

A notícia foi comunicada, nessa tarde, pelo comandante a toda a guarnição. O consolo dos que, entre nós, se encontravam a, emocionalmente, replicar viagens de Volta ao Mundo no NRP Sagres, tal como seus pais e avós haviam feito, só com o tempo virá. Uns terão outras oportunidades, outros já não. Entre lágrimas e desabafos, a tristeza é impossível de esconder, e os raciocínios lógicos e realistas são substituídos por propostas ingénuas de formas e alternativas milagrosas de levar a Viagem avante.
Naquele dia, a bordo, os sentimentos dividiram os nossos corações. Ficámos divididos entre o conforto do regresso a casa e a perda de uma grande e simbólica viagem. Representar a Marinha Portuguesa e Portugal pelo Mundo, no âmbito das Comemorações do V Centenário da Circum-navegação de Fernão de Magalhães, era o nosso objetivo, mostrar as Cruzes de Cristo, no mar, e a bela Barca, em terra, é o nosso orgulho. Com novas ordens, novos objetivos!

Importava, então, preparar a paragem logística na Cidade do Cabo, onde teríamos apenas um dia para reabastecer de combustível e mantimentos. No dia 25 de março, num esforço unido de toda a guarnição, e fruto da excecional colaboração e articulação com os agentes logísticos locais (que por destino, ou não, eram portugueses), conseguimos. Numas surpreendentes, duras e rápidas 8 horas e 28 minutos, o NRP Sagres atracou, reabasteceu e largou da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Cuidados sanitários e de proteção que tivemos durante as fainas já partilhadas. Nada nos faria abdicar da, até agora, tão segura e tranquila convivência levada a bordo. Sabemos que, nos dias que correm, é um luxo que não durará para sempre. Esta ‘tranquilidade’ é possível, e agora assegurada, pela longa navegação que trazemos desde 3 de março, quando largámos de Buenos Aires, na Argentina, e não tivemos mais contacto com o exterior. Já lá vão 34 dias…

Somos apenas mais um caso, mais uma gota no oceano, dos milhares de constrangimentos provocados por um evento ímpar que afeta o Mundo. Assim terá de ser, de cabeça erguida agimos em conformidade. A navegar à vela, já rumamos para Noroeste. Com novos objetivos, novos rumos! 
Covid-19 País NRP Europa Mundo Sagres Cidade do Cabo economia negócios e finanças
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